Sexta-feira, 17 de Março de 2006

Choque Tecnológico

Cidadãos,
Hoje irei falar de vários assuntos que, entendo, devem ser falados, pensados e – muito certamente – esquecidos o mais rapidamente possível dado o risco de inicio de desentupimento cerebral.

Cheguei à triste conclusão que a maioria das pessoas (cerca de 98% da população) gosta de ser maltratada, abusada e estupidificada pelos outros 2%. A grande moda Tuga, actualmente, é falar no “Choque Tecnológico”! Mas afinal o que é isto? Será um acidente na A1, por viatura a circular em sentido contrário? Será o equivalente a estar a ligar o computador e apanhar um “esticão” porque os fios lá de casa foram mal colocados e o inspector foi subornado? Ou será uma outra coisa qualquer, a definir pelos manuais de história do ano lectivo de 2115 / 2116?

Pois bem, de acordo com um conhecido pasquim electrónico (cá está o primeiro despiste que leva ao choque), o Sr. Engº. Joseph “the man” Sócrates deu mais um passo na direcção do dito e apregoado choque com o projecto de “webização” da comunidade empresarial.

De facto, esta Terra Estranha é maravilhosa... Aqui está uma palavra nova, criada com um estrangeirismo e capaz de transmitir uma mão-cheia de nada. O que é a “webização”? e da comunidade empresarial, ainda para mais? Debrucemo-nos um pouco sobre esta nova faceta, recém lapidada, desta jóia que é o choque tecnológico. De acordo com a notícia, o projecto pretende dinamizar o comércio de proximidade, através da introdução de tecnologias e redes assentes na Internet., permitindo a venda de novos serviços e produtos.

O que eu acho estranho nisto? Várias coisas, a saber:

- Comércio de proximidade: recordam-se que, à relativamente pouco tempo, aquando da discussão do fecho dos hipermercados ao domingo, o Sr. Engº e os seus amigos da mesma coloração externa e interna argumentavam que era necessário proteger o comércio tradicional face ao ataque “selvagem e grosseiro” dos hipermercados uma vez que o pequeno comércio tinha uma maior proximidade com o cidadão. Era a mercearia de bairro (que fecha ao fim-de-semana, sabe a vida de toda a gente, espalha boatos e tem os produtos mais caros com a desculpa da inflação), era a sapataria da esquina (que vende sapatos de plástico, mal cosidos e colados, como se fossem sapatos de pele made in Italy), era, finalmente, a loja de pronto a vestir (que vendia a última moda usada na Albânia). Na altura, diziam, era importante o contacto humano, a proximidade entre o comprador e o comércio. Mas agora, o mesmo significa a utilização de ferramentas electrónicas para venda de produtos e/ou serviços. Ou seja, agora, com a proximidade que um computador transmite ao seu utilizador compramos, vendemos ou promovemos produtos e serviços via e-mail. Por proximidade, agora, consideramos o contacto entre os dedos e o teclado, às 3.00h da manhã, a encomendar uma caixa de Tampax porque a gaja que engatámos na disco está com o período e cagou os lençóis todos de sangue. Das duas uma, ou os novos dicionários da Porto Editora têm um novo conceito que desconheço – assumo a minha ignorância nesse caso – ou a mesma palavra dança de um lado para outro ao estilo Yin-Yang, consoante o animal que a profere sem que o mesmo – animal, claro – seja questionado por isso.

- Tecnologias e redes assentes na Internet: não estou ligado à informática mas parece-me que aquilo que irão criar será uma arquitectura de portal, numa rede mundial que já existe, portal esse que exigirá uma password e número de cartão de crédito com uma segurança duvidosa. Com tais níveis de segurança expectáveis, o utilizador tem uma dupla experiência: o choque tecnológico e a proximidade. No primeiro caso é que a tecnologia permitirá a qualquer hacker de pacotilha que violou o site fazer compras em Singapura ou no Japão (aí está a tecnologia) e depois segue-se a proximidade com o tribunal depois do banco ter colocado o processo na justiça por incumprimento de pagamentos.

- Cooperação com a PT: esta situação naquelas áreas cinzentas que ninguém sabe. Será que a PT vai colocar fibra óptica e banda larga a 2 Gigas? Ou a PT simplesmente vai disponibilizar a um espaço web para o portal a preços aceitáveis, digamos iguais aos preços europeus (sempre fica mais barato). Mas mesmo considerando a fibra óptica, não esqueçamos que, por exemplo, a zona da Expo tem fibra óptica, ligada à normal cablagem de comunicações, isto é, durante 10 metros a informação anda maravilhosamente bem mas depois.... é o IC19 da informática!

Mas continuando... A notícia cita o nosso Primeiro (Ministro, lógico) que afirma (atenção: isto é uma citação retirada do pasquim. Se não corresponder à realidade, ou o pasquim mente, ou o Primeiro mente):

- “O plano tecnológico é uma ideia política, porque representa um sinal para a sociedade civil” – que sinal falamos? Que enganamos as agruras da vida com mais um joguito de computador? Que garantimos a ilusão de que somos um país avançado e civilizado apenas porque podemos comprar por via electrónica? Ou que o facto das vendas/serviços estarem a passar para um formato digital é a justificação ideal para a redução de pessoal?

- “Este é um projecto da sociedade civil que se organizou para transformar um problema numa oportunidade” – Mau! Agora estou baralhado. Afinal é uma ideia política porque foi um sinal para a sociedade civil ou foi um sinal da sociedade civil (Associação de Comércio) que tem gente a mais a trabalhar e é preciso uma alternativa para aumentar lucros? Ou é apenas mais uma maneira de se conseguir atribuir a responsabilidade e ónus do comércio para quem compra e não para quem vende?

Mas voltemos ao choque tecnológico. Por norma, associamos a palavra choque a algo violento, tradicionalmente inserido no mundo automóvel. Nessa situação, sempre que há um choque aparecem logo (ou 2 horas depois, tanto faz) uns senhores fardados para resolverem o assunto. Nesta questão do choque tecnológico, também temos os “polícias de trânsito” que procuram serenar os ânimos e resolver a situação, deixando as vias desempedidas e tudo na mesma como antes. No mesmo pasquim, duas notícias mais abaixo na escala de richter, aparecia a notícia que no último ano, a Deco recebeu cerca de cinco mil queixas (5.000) de consumidores relativamente a operadores de serviço de acesso à Internet, apesar de ainda não existirem dados concretos analisados (isto é para dizer que estas queixas correspondem a cerca de ¼ do número real... os tugas não estão é para se chatearem com queixas que, em 99% dos casos não dão em nada). Só para vossa curiosidade, a lista é liderada pela Netcado (Grupo PT), pela Telepac/Sapo (Grupo PT), Oni/Telecom (Grupo EDP/Grupo Sonae) e Clix (Grupo Sonae que quer ser Grupo PT).

Ou seja, os polícias de trânsito estão em campo. O mesmo grupo que apoia o Governo nesta nova gesta marítimo-digital é o mesmo que tem preços mais elevados e maiores problemas no serviço prestado aos utentes. Basicamente é dar com uma mão e roubar com a outra. É que por muito apoio que seja dado a soluções informáticas, os operadores não estão a brincar em serviço, têm dos preços de acesso mais caros da Europa, as piores larguras de banda da Europa e o pior serviço que a mente humana consegue inventar.

Se formos tomar nota da maioria das queixas verificamos as seguintes razões:
- “Falta de acesso”
- “Lentidão no acesso (relacionada com a questão do que é anunciado e do que se verifica na realidade)”
- “Facturação (que não é ajustada tendo em conta a lentidão ou a falta de acesso)”
- e “Informações contraditórias e não satisfatórias das operadoras”

De uma forma concisa: De que me serve andar a ouvir falar de choques tecnológicos se o serviço prestado (e promovido pelo Estado) para seu usufruto é uma merda?

Que o Partido que alcançou o poder tenha necessidade de arranjar uma ideia messiânica para desviar as atenções das reais incompetências, acho muito bem. Mas que me venham dizer que é a solução para as maleitas nacionais isso é que não gosto! Muito menos que me tomem por parvo. Se resolverem o problema de acessos e serviço (e, muito importante, o custo) então terão as condições ideais para o Choque (em cadeia) Tecnológico. Não tentem cuspir para o ar, a pensar que lá está um telhado para os proteger, porque o telhado não está lá!

Já agora, só uma pequena palavrita ao Sr. Primeiro Ministro: WEBIZAÇÃO não existe! Rima com várias palavras do léxico Português (por exemplo: parvalhão, cagalhão, etc) mas NÃO existe... mesmo! Acredite, eu procurei!

MS
publicado por GERAL às 11:21
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2 comentários:
De RdS a 17 de Março de 2006 às 14:32
Grande Choque que eu levei quando li isto. Será que era tecnológico?

O que é que esse pasquim miserável quer dizer com "sinal para a sociedade civil", será que me vão por à porta de casa uma tableta a dizer "perigo Choque tecnológico, só recomendado para quem efectua 500 downloads por semana"?

Estamos em plena euforia digital, com a euforia da bolsa e da bola corremos o risco de ficarmos rotulados como "o país mais eufórico da UE e arredores".

Só é pena que não se entre na euforia do emprego e dos salérios elevados, garanto que era o mais eufórico de todos.

RdS
De RdS a 17 de Março de 2006 às 12:03
Muito profundo e muitíssimo interessante!

Apesar de ser um apoiante da existência de "choques", concordo que o choque tecnológico, apesar de ser importante, está alicerçado com bases pouco sólidas. Temos uns operadores pouco competitivos, quando comparados com os da Europa, para não falar nos EUA.

Mas, ainda sobre "choques", acho que o país precisava, urgentemente, era de uma revisão fiscal com uma grande descida das taxas e dos impostos, o resto vinha por arrasto.

Próximidade é bom, mas convém não confundir com invasão de intimidade. Aí o caso muda de figura, além disso, ainda, estamos com pouca segurança no comercio electrónico.

Por outro lado, temos cada vez menos empresas no mercado, seja em que sector for, e não consigo atingir os benefícios que daí advém como consumidor. Sinceramente, acho tenho menos escolha de produtos, de serviços, de governos, de alternativas, etc e isso assusta-me.

Odeio monopólios e oligopólios, acho péssimo a nossa pequenez e ainda por cima com tantas "proximidades". A diversificação e a concorrência são saudáveis e devem ser incentivadas.

RdS

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