Segunda-feira, 13 de Março de 2006

Espaço 1999

Olá a todos (ou todas) (ou assim-assim) – agora tenho que estar a pau com a revisão da Lei penal sobre esse tipo de crimes!

Tive um fim-de-semana para pensar sobre vários assunto mas o que escolho para o dia de hoje tem a ver com o meu desapontamento com a raça humana... raça esta que fica entre os relógios de pulso digitais made in Taiwan e um quilo de maças normalizadas, com sabor a queijo.

Eu pertenço à geração da ficção cientifica, de filmes como o star wars, séries como o Espaço 1999 (em reposição na sic radical), Star Trek, etc. Sou da geração que a malta sonhava com bases lunares, o fim do mundo em 2000, com ET’s do piorio, com os seus raios abichanados que transformavam gajos como o três beiços (esse garanhão algarvio) em réplicas da Bette Midller; sou da geração que imaginava que o sonho da conquista do espaço estava já ali ao virar da esquina.

Ora o mundo não acabou em 2000 e a conquista do espaço é feita apenas pelos efeitos por computador de Hollywood. Sinto-me enganado!

Sempre acreditei que o período que vivíamos (vivemos) se assemelhava ao que os tugas viviam no século XV e XVI. Aquela expectativa que a cada ano novos mundos seriam descobertos, novas experiências seriam relatadas e guardadas na memória colectiva dos povos. A década de 60 do século XX corresponde a isso. O objectivo era “to boldly go where no one had gone before!”, a luta entre os dois blocos (Ocidente versus Leste) levava a uma competição acesa em todas as áreas e isso também se reflectia na luta pelo espaço.

Esta era a nova fronteira da humanidade. Era a libertação de umas amarras gravitacionais que nos conduziria a novos territórios, novos mercados, novas conquistas. Duas figuras lideravam este drive: de um lado J. F. Kennedy e do outro Nikita Kruchev.

Mas... o que se passou entretanto?

Um dos blocos começou por se fechar sobre si próprio e mais tarde implodiu. O outro bloco, pelo vazio que se formou com a implosão da URSS, resolveu assumir uma posição estritamente neo-colonialista e de dominância económica. Ora como já não era necessário promover as virtudes de uns face aos outros, a conquista de novas fronteiras deixou de ser uma prioridade. Tal como o Império Romano, deixou de ser necessário alargar as fronteiras do império e passou a ser prioridade a consolidação e subjugação total do espaço interno.

Por outro lado ainda, o século XX e o actual momento são os tempos do primado dos economistas. Isto é dizer que é o primado do lucro e do capital! Mais uma vez refiro que não tenho nada contra isso nem sou comunistóide. Mas começa a irritar essa conversa constante, quase como se Deus fosse um contabilista que tem uma gigantesca máquina de calcular cósmica e anda a ver quais são os seres mais lucrativos. Ora neste caso estávamos tramados porque rezam as más-línguas que para os lados de Betelgeuse estão uns tipos azulados, com cinquenta braços que inventaram diferentes tipos de desodorizante e são o furor da zona de Orion. Acho que estão a ganhar uma pipa de massa!

Como estava a dizer, o primado da economia levou ao abandono de projectos que esses insectos sem imaginação não consideram como imediatamente lucrativos e tudo o que não tivesse a ver com a produção de refeições embaladas de bifes de soja com sabor a pescada, distribuição de panfletos promocionais do novo champô com bifidos activos e cheiro a alfazema da Groenlândia e com a eterna discussão acerca do valor do dinheiro (afinal uma nota de 100 pode ou não valer 105, depende da taxa de juro aplicada em timbuctu, por volta das 15.30 TMG de todos os dias impares), foi cancelado.

Imaginem que estamos, de novo, no século XV (eu sei que era chato... não existiam telemóveis), o rei dos tugas tem um plano, constroem-se as primeiras casca de noz e estamos em fase de recrutamento de pessoal. As cunhas já foram colocadas e o chanceler de pessoal prepara-se para assinar o primeiro contrato, nisto, no meio do conselho régio, o chanceler da economia levanta-se com o seu aspecto de doninha vesga e exclama:
- “Majestade! Ilustres membros deste conselho régio! Encontro-me perante vós nesta minha humilde função que sinto que não mereço [levanta-se um certo murmúrio acerca das doutas e sábias palavras proferidas uma vez que todos achavam o mesmo] para perguntar ao nosso sábio rei se já considerou o retorno de capital para os cofres do reino”
- “Não meu caro chanceler! Mas é importante que este reino conquiste novos territórios, espalhe a Fé de Cristo, como nos manda Sua Eminência o Papa Constipado XXV! Seremos o maior reino da Europa, donos do comércio de especiarias e donos do mundo... seremos reconhecidos como homens que fundaram o novo mundo moderno”
- “Majestade! Sabeis que a vossa opinião me é mais importante que a vida [novo murmúrio dos restantes membros uma vez que uma centopeia a sofrer de artrite teria uma vida mais interessante] mas se o investimento que fizemos em morabitinos de ouro não for devidamente suportado pela taxa de inflação registada na Flandres, sobre as aplicações que fizemos em cruzadas futuras no IBAXTU 98 então teremos problemas nos cofres do reino [os olhos piscam como se fossem corujas apanhadas por uma luz forte, na gaiola dos ratinhos lá de casa, uma vez que o reino nem cofre tinha]”
- “Ahhhh! Ok! Cancelem tudo”
Assim, os tugas cancelavam a nossa gesta gloriosa e, entre perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana, já não edificaram reino que tanto sublimaram. Camões passou a ser um mero sapateiro zarolho, que enriqueceu à custa de uma fabriqueta de sandálias no condado de almofariz e arranjou uma amante castelhana que viria a vazar-lhe o segundo olho depois de uma discussão acerca da feira da Moda Leiria, edição do século XVI. O estilo manuelino passou a ser uma festança com muitas putas, onde os cofres do reino eram debatidos, etc, etc.

Ora em relação à conquista do espaço passa-se o mesmo mas, ao contrário do que acontecia no passado onde o rei libertava os contabilistas do peso excessivo da cabeça por intermédio de um machado denominado BenHurOn, os actuais contabilistas/financeiros podem cancelar os cartões de crédito do Presidente/Dono da Empresa e o desgraçado anda com a bola baixa e levam avante aquilo que chamam reestruturação de investimentos – sinónimo de levas dinheiro apenas quando o inferno gelar!

Assim, o sonho que a minha geração acalentou está de rastos e foi destruído. Para mais dizem que é uma coisa muito cara e que são fundos absolutamente imprescindíveis para a construção de mais 3 submarinos inteligentes com uns torpedos direccionados por caixa postal e código postal dos CTT para a defesa do mundo livre desses bandidos dos terroristas (bem como estou a usar algumas palavras proibidas como submarinos, terrorismo, mundo livre, etc já deverei estar na lista negra da CIA... ups! Outra palavra proibida).

Sinto-me enganado por isso! É que afinal o destino da humanidade está um pouco acima de chafurdar em charcos lodacentos. Mas mais grave é o entorpecimento intelectual a que nos vemos obrigados com os spots de 30 segundos dos Tampax ou do produto que limpa os móveis, libertando um cheirinho a sexo que perdura durante exactamente 128 segundos após a emissão.

Seria importante criar um objectivo mais alto, algo que fizesse com que a humanidade se unisse de uma vez por todas e era bem mais fino poder dizer “Ah! vizinha! O meu filho está lá para as bandas da cintura de Oort e comprou um asteróidezinho com jardim que é uma maravilha... mas ouvi dizer que o seu não saiu de cá e ainda por cima dedicou-se à política... pfffff!(*)”

MS

(*) – o pfffff é emitido de forma nasalada e com a mesma bondade que uma cobra capelo demonstra antes de fincar os dentes no tornozelo de um apanhador de chá indiano, funcionário da Lipton e com um custo de 3 dollars mensais, em via de ser despedido por custos de mão-de-obra. Convém referir que, depois da reunião estratégica da Lipton Índia o referido funcionário está imune a qualquer tipo de envenenamento tendo ficado apenas com inchaço no tornozelo que o impediu de trabalhar tendo sido imediatamente despedido. Depois disso, vendeu dois rins para juntar dinheiro e veio para Portugal onde abriu uma loja de mobiliário e fez uma fortuna. Mais tarde casou a décima quinta filha com um membro da família de Narana Coissoró (Noitibó para os amigos)
publicado por GERAL às 17:26
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1 comentário:
De RdS a 14 de Março de 2006 às 10:34
Da promessa de espaçao, apenas ficamos com o espaço vazio na carteira por falta de massa. Que por acaso abunda, mas só para alguns.

Fomos bem enganados, de alegres conquistadores passamos a tristes trabalhadores das galés, onde remamos cada um para seu lado e sem reconhecer a cadência imposta pelo imbecil que marca o ritmo. Pior o homem do lema à muito que desistiu de governar e limita-se a velejar ao sabor da corrente ou dos ventos, colhendo cada vez mais tempestades e à espera do naufrágio final.

Mas temos de ser optimistas e voltar a acreditar no sonho, no espaço é que está o futuro e vamos à sua conquista. Podiamos aproveitar e mandar uma determinada geração para órbita, como pioneiros.

RdS

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