Segunda-feira, 6 de Março de 2006

A Grande Mentira

Eu hoje pensei em escrever algo mais soft mas, de facto, e atendendo à situação que nos aflige, tal não é possível.

Estava a passar os olhos na Agência Financeira do IOL – só para saber que desgraças nos iriam acontecer e para confirmar a notícia que os combustíveis iam aumentar – quando me deparei com a notícia “Globalização desiludiu e agravou disparidades entre pobres e ricos”, acerca de um relatório da Morgan Stanley, Stephen Roach.

Dizia, na referida notícia, que aquilo que se esperava – um maior equilíbrio entre pobres e ricos, nivelamento entre eles, etc – se traduziu num rotundo fracasso. De acordo com tal grupo de gente “illuminata” os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres, inevitavelmente, mais pobres. Tal situação estava a criar uma nova sub-classe social e, simultaneamente, desenvolvia e motivava políticas de proteccionismo.

É, também, referido no relatório que a elite foi poupada à brutal compressão salarial que o mundo assistiu nos últimos anos, ainda para mais apoiada com uma redução de impostos aplicados à classe mais rica (nomeadamente nos E.U.A. e imitado pela maioria do mundo ocidental.

A pergunta que faço é tão somente esta: alguém acreditava, realmente, que a globalização serviria para nivelamentos de riqueza?

Nós vivemos aquilo que se chama a grande mentira. Mais do que um filme, um livro ou uma declamação poética, a grande mentira representa o nosso constante dia-a-dia. É MENTIRA que a economia tem trazido algo de fundamental para a vida dos seres humanos (na generalidade), limitando-se, tão só, a providenciar formas de maximização de lucros, por qualquer meio; é MENTIRA que a globalização foi criada/desenvolvida com vista a promover a igualdade e justiça social. O processo global de trocas ECONÓMICAS era uma inevitabilidade desde que se difundiram meios de comunicação mais eficazes e velozes, desde o advento das trocas electrónicas e desde a criação de condições para a génese da “aldeia global”. Perante essa inevitabilidade, as elites decidiram maximizar os seus proveitos, sabendo antecipadamente as repercussões salariais e sociais que daí viriam. Só mesmo um imbecil é que acredita que ao ser colocada, na China ou Índia, uma fábrica Americana ou Europeia vão pagar os mesmos salários que no país de origem. E só mesmo um potencial criminoso, do mais refinado grau de malvadez, vende conscientemente essas mesmas patranhas.

É, também, MENTIRA que a classe política procura implementar o que é melhor para os seus eleitores e cidadãos de cada País. Na realidade, o que procuram – para além do continuado protectorado elitista de classe – é a maximização financeira e económica, não para futura distribuição pelos associados (leia-se cidadãos) dos proveitos da gestão mas simplesmente para aumento da margem de manobra dessa mesma classe, em termos de auto-atribuição de provolégios.

Se não acreditam que vivemos a grande mentira, então reparem estas duas notícias, no mesmo site – Agência Financeira do IOL:

Notícia de 03 de Março:
“O preço do petróleo está em queda ligeira esta sexta-feira, em correcção de ganhos e enquanto o mercado aguarda mais notícias do anúncio oficioso de um acordo entre a Rússia e o Irão sobre o programa nuclear de este último.
Alguns analistas dizem que o mercado está a cotar em valores demasiado elevados. Por outro lado, o Irão e a Rússia chegaram a um acordo total sobre o caso nuclear iraniano, indicou hoje um responsável da República islâmica, em Viena.
Em Nova Iorque, o petróleo negoceia-se a menos 21 cêntimos para os 63,15 dólares por barril. Já em Londres, o IPE Brent, crude de referência para a Europa, transacciona-se a menos 9 cêntimos para os 62,48 dólares por barril.”

Por outro lado, Notícia de 06 de Março:
“A Galp Energia aumentou este Domingo o preço do litro de gasóleo rodoviário em um cêntimo, mais uma vez a reflectir o encarecimento dos produtos refinados do crude nos mercados internacionais, referem em comunicado.
O preço do gasóleo rodoviário passa, assim, a custar na rede de postos de abastecimento da petrolífera 1,036 euros por litro.
Para além deste, ficam também mais caros em um cêntimo os preços do gasóleo G Force, para 1,096 euros por litro, e do gasóleo colorido e marcado, que passa a pagar-se a 0,674 euros por litro.
O gasóleo de aquecimento aumenta em 0,5 cêntimos por litro, para 0,657 euros.
«O custo dos produtos nos índices internacionais, que servem de referência para a fixação dos preços dos combustíveis a nível mundial, registou uma subida acentuada, forçando a Galp a actualizar o preço do gasóleo», refere a Galp, acrescentando que nas gasolinas «a subida das cotações não foi tão sensível, graças aos níveis de stocks nos Estados Unidos», motivo que leva a Galp a manter os preços.”

Se aquilo que a GALP (e afins) vem a terreiro clamar, que são uns desgraçadinhos, que querem ajudar as pessoas mas não podem por causa do mercado internacional, que os outros são maus, a globalização, blá blá blá blá... então porque quando baixa o preço do petróleo, nos mercados internacionais eles aumentam o preço de venda?

A grande mentira rodeia-nos e embriaga o nosso espírito com spots de 20 segundos a vender televisões de plasma. Deixámos que nos impusessem tantas regras castradoras que neste momento temos MEDO de pensar! Queremos sempre alguém a quem apontar o dedo, que possa libertar a nossa consciência culpada de qualquer responsabilidade. Vemos, apaticamente, nos jornais crimes cometidos em nome de nada e passamos à frente, assistimos na tv a imagens horrendas de fome, miséria e doença e mudamos de canal... Está na altura de mudar algo, de pensarmos por nós. É que, em última análise, a culpa não é dos outros, é nossa porque deixámos que isso acontecesse.

Tenho consciência que quem quer que leia este texto irá, indubitavelmente, pensar “Olha! Mais um lírico...”. Pode até ser verdade mas continuo a achar que a vida é simples, bela e vale a pena.... nós é que a fodemos apenas para ter um micro-ondas que toca música e faz massagens!

É particularmente frustrante ver o potencial da nossa espécie, desperdiçada para seguir os preceitos de meia-dúzia de bandidos de papel passado e achamos bem. É que se alguém roubar 100 milhões de euros, é visto como um fulano com visão e bom nos negócios. Se essa mesma pessoa despedir 1.000 funcionários, não porque o volume de negócio diminuiu mas sim porque aumenta os lucros – com isto sacrificando a vida dos despedidos e dos “sortudos” que acumularam o trabalho dos outros – é um grande gestor; mas, por outro lado, se alguém se engana na declaração de impostos em 500 euros é um criminoso que prejudica os concidadãos, se essa mesma pessoa cria postos de trabalho e os valoriza, não sabe nada de estratégia.

Este é o mundo que temos, onde os bandalhos, os criminosos, os mentirosos e os cínicos são idolatrados, este é o mundo onde a justiça está morta, a ética não existe e a entre-ajuda é um sinal de fraqueza... desculpem, mas prefiro ser fraco! Prefiro acreditar na Justiça (cuidado! Não estou a falar de códigos e leis, estou a falar da senhora de olhos vendados e com uma mama de fora), na Moral, na Ética e no ser humano, sem distinção de classe ou riqueza...

Mas há sempre uma esperança... afinal este vai ser o ano da besta.... não se esqueçam do dia 06/06/06...

Um abraço a todos

MS
publicado por GERAL às 15:18
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2 comentários:
De RdS a 6 de Março de 2006 às 18:21
Finalmente!
Foi preciso lixar tudo para atigirem o óbvio. A globalização só serviu para aumentar a disparidade social, destruir a classe média e colocar os criminosos no poder.

Espero sinceramente que este relatório sirva para mudar alguma coisa. O mundo bem precisa e eu também.

RdS
De RdS a 6 de Março de 2006 às 18:15
Finalmente! Foi preciso lixar tudo para chegar à conclusão que a globalização só arrasar o mundo e colocar os criminosos no poder.

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