Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2006

Esquerda / Direita – Ou o descalabro do Centro

Bons Dias / Tardes / Noites ou qualquer outro fuso horário. Cá estou eu novamente nesta terra estranhíssima, eu diria mais, surealissima. Estou convencido que se o Kafka ou o Felini conhecessem bem esta esquina da Europa teriam feito o dobro, não, o triplo de obras-primas e de certeza que se dedicavam à comédia, porque ninguém com um mínimo de sanidade mental iria acreditar que existia.

Ando um pouco abismado com o que se passa, nesta agonizante sociedade em que miseravelmente sobrevivemos, em termos de orientações ideológicas. Aplica-se as terminologias “Esquerda”, “Direita”, “Centro Esquerda” e “Centro Direita” de forma tão estapafúrdia e desconexa que sinceramente já não consigo perceber qual é qual e o que é que cada uma defende de diferente.

Vamos parar um pouco e tirar um retrato do que vemos:

Comecemos pela “Esquerda”, está um bocado na mó de baixo, é muito mal vista e podemos descrever alguns estereótipos com base no que vulgarmente é expelido pelas ventas populares (aqui estou a tentar incluir todas as castas da nossa sociedade – sim CASTAS não pensem que é só na Índia que existe esta estratificação, aqui também há mas com mais ramificações e com um suplemento importantíssimo: a carteira).

Ora vejamos, pode-se definir o Homem de esquerda como:

- Pobretanas;
- Ou pouco instruído – pertence à casta baixa da sociedade – com profissões ligadas ao sector primário e secundário, apelidado de “Comuna” (se é que alguém sabe o que isto significa);
- Muito instruído, com cursos superiores, nestes casos é comum o uso de óculos e de um livro debaixo do braço, com profissões obscuras tipo professor (ou parvoeira do género), apelidado de “Intelectualoíde de esquerda”, fuma charros, com gostos musicais estranhos e pouco recomendáveis, amante das artes e espectáculos;
- Muitas vezes ateu;
- Mal vestido;
- Pensa sempre errado;
- Humanitário – o maior erro que se pode cometer;
- Ambientalista – isto é repelente, onde é que já se viu alguém ter preocupações destas;
- Defensor de causas indefensáveis – tipo aborto;
- Libertino – um péssimo exemplo;
- Tem medo;
- Pensa (este é o seu maior crime);
- Defende um Estado mais intervencionista e menos liberal, ou o comunismo ou outro ismo qualquer;
- Reivindicador – pelo tenta puxar a brasa à sua sardinha.

Debrucemo-nos agora na “Direita”, está na moda, começa a ser comum ouvir-se pessoas a assumir-se de “Direita”, com orgulho, assumem que tem as melhores e únicas soluções.

Ora vejamos, pode-se definir o Homem de direita como:

- Conservador – antigamente é que era bom;
- Dogmático – não se discute, “se é assim é para ser assim, este é o caminho que me foi apontado e é o correcto”;
- Ou muito instruído e neste caso com muitas posses (mesmo que não as tenha, finge que tem), normalmente ligado ao empreendedorismo e a cargos de chefia de topo, de gosto refinado, muitas vezes ouvinte de música mais do tipo clássica, apreciador de algum tipo de artes e de espectáculos, como livros de cabeceira lê bibliografias de grandes Ícones mundiais (mais ligados a ditaduras – exemplos máximos de liderança) e fuma charutos (de preferência enrolados entre as pernas, por virgens de 12 anos);
- Ou com uma instrução básica, neste caso tanto pode ser muito rico (normalmente com heranças, ligado a qualquer sector ou indústria) como muito pobre (muitas vezes ligado ao sector primário), com gostos muito duvidosos (é melhor não chamar gosto sequer), ouvinte de música pimba e tem por ídolo o Marco Paulo, ler nem pensar estraga os olhos;
- Normalmente veste bem, muito arranjadinho e penteadinho;
- Pragmático – esta é a principal arma e atropela tudo em nome do pragmatismo;
- Politicamente correcto – Só fala de mega assuntos e estratégias de ultra-top;
- Católico – com a hóstia expurga os pecados que faz deliberadamente durante todo o santo dia;
- Defensor de limites nas liberdades – menos no número de amantes;
- Gosta de se mover em círculos elitistas – De preferência com nomes sonantes da praça;
- Defende o Liberalismo e o Capitalismo puro – Choooo! Estado.
- Detesta o “povo” e não quer pertencer a ele – o que é o “povo”? essa amálgama de inúteis que só servem para escravos;

E agora o mais difícil, o que é o “Centro Esquerda” e o “Centro Direita”?

Aqui tenho muita dificuldade, existe uma mistura de crenças, atitudes e pensamentos que torna quase impossível de, sem legendas – ou seja a pessoa definir-se claramente, identificar uma facção. Tão depressa enaltece as virtudes mercantilistas como é um defensor acérrimo das causas sociais e dos pobrezinhos. Tão depressa odeia o povo como a seguir empalava o patrão. Tanto enforca o prevaricador como o santinho. Defende o consumo e a poupança.

Quanto a gostos, é praticamente impossível de definir um estereótipo, consome tudo e todos. Há de tudo e para todos os gostos e feitios. Diz mal de tudo e de todos. O cominho é sempre em frente, mas com muitas curvas, rotundas e bifurcações. Parece uma vela desgovernada pelo vento, roda em todas as direcções e não pára em nenhuma. Um verdadeiro Homem moderno. Defende e ataca tudo

Portanto, é o descalabro total do “Centro”, aliás alguém consegue definir o “Centro”?

Continuando ás apalpadelas nesta terra estranha, no entanto existem muitos comportamentos, atitudes e pensamentos idênticos, transversais às castas que povoam habitam este rochedo perdido do mundo, o mais emblemático é a inveja. Verdadeiro pólo aglutinador de estratos sociais e de orientações ideológicas (porra isto ainda existe? Tenho a impressão de que era mais útil abolir esta palavra do vocabulário nacional. Pô-la num museu, ou qualquer coisa do género – vejam houve uma altura em que se falava em ideologia, mas não se consegue perceber o que é ao certo).

Engraçado! Com isto tudo perdi-me. Devo ser do Centro. Pelo menos já me conheço melhor, ou se calhar não.

“Acho que era urgente começarmos” (adoro esta expressão tão utilizada por toda a gente que pensa…, pensar?) a definirmo-nos, afinal qual é o lado BOM, a esquerda, a direita ou o centro?

O melhor é inventar uma nova orientação ideológica (mas que mania a minha em utilizar esta palavra), que tal a RODA, ou para ser mais erudito a ESFERA, daqui podia surgir um grande movimento - o esferismo, caracterizado, para usar uma linguagem matemática, pelos seus 360 graus de opiniões. “Eu sou esférico”, soa bem não acham?

Meus caros leitores, porque não participam? Enviem ideias para inventarmos um novo sentido político, um novo “ISMO”, deixo aqui o nosso e-mail: ostres.s33@sapo.pt

RdS
publicado por GERAL às 09:48
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