Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2006

O Funcionário

Nos últimos tempos temos escrito um bocado sobre gestores, chefias, lucros, etc. Agora é a vez de descermos um pouco na hierarquia e falarmos dos funcionários, essas “bestaças que estão na empresa só para receber o salário e não fazer nenhum”.

O que vemos na comunicação social e nos escritos e ditos dos opinum maker do nosso portugalzinho, passa sempre pela produtividade e resultados do tugazito trabalhador.

Ouvimos e lê-mos expressões do tipo:

“É preciso apostar na formação”, “A nossa mão-de-obra é pouco qualificada”, “É preciso apostar na flexibilização dos funcionários”, “Para sermos competitivos temos de gerir os nossos recursos humanos de forma flexível e racional”, “Neste mundo global não há lugar para desperdícios nos Recursos Humanos”, “Já não existe trabalho para a vida”, “Os portugueses tem de se habituar a viver com menos e sem esperança de carreira numa empresa”, “Em nome do desenvolvimento tem se modernizar as empresas e reduzir a mão-de-obra”, etc.

Portanto podemos concluir que os trabalhadores de hierarquia inferior estão claramente abaixo das expectativas das classes dirigentes e que uma empresa não necessita, ou cada vez precisa menos, deste recurso. Aliás a designação Recurso é muito bem aplicada, porque é absolutamente necessário encarar o funcionário como um mero meio para atingir um determinado fim.

Se observarmos atentamente, é lógico e correcto que estas posições surjam e que sejam apregoadas em alto em bom som.

O Funcionário / Trabalhador tem de perceber de uma vez por todas que ir trabalhar não é o mesmo que estar em casa. Tem de se considerar como um serviço, nas imortáveis palavras de Tom Peters, tem de ser uma marca que se vende ao seu cliente e este apenas adquire se quiser ou se for convencido que esse serviço é indispensável à organização.

Palavras como “reivindicações” e “pensar” já não tem lugar no léxico de um prestador de serviços de trabalho, o que as organizações pretendem é que se contrate um serviço especifico, que seja executado no menor espaço de tempo, ao menor custo e com a máxima qualidade.

Daqui podemos derivar para apresentar o IDEAL FUNCIONÁRIO:

- É barato;
- Está pouco tempo;
- Tem uma formação divinamente qualificada
- Não pensa;
- Satisfaz todos os desejos;
- Não tem hora de almoço, nem idas à casa de banho;
- Não fala com ninguém (só executa);
- É um comercial;
- Não tem hora de sair, passa a noite na organização (sem cama, não dorme);
- Tem uma família virtual;
- Idade entre os 25 e 35 anos.

Todos nós desde chefias ao mais insignificante trabalhador de qualquer organização temos de pensar assim, para o bem do país e para o bem das organizações com quem interagimos.

O resto é acessório, quem não se encontra dentro destes padrões o melhor é mudar de país, de preferência desaparecer. O país não se pode dar ao luxo de ter tanta gente a trabalhar e a receber ordenados, existe o grande risco de o consumo aumentar e lá de o país não cumprir os critérios junto da União Europeia dos Gurus da economia. Por outro lado as empresas também ficam muito prejudicadas não podendo apresentar os fabulosos resultados que se espera que atinjam.

É ultrajante imaginar que o mero trabalhador tenha a ousadia de pensar que pode constituir família, consumir produtos que goste, possa divertir-se, ir ao cinema e comprar umas pipocas, ter um carro e uma casa, por outras palavras – quem se atrever a viver.

Isso não faz bem às empresas e aos países. Não pode ser!

Tem de existir disciplina, as empresas tem de esmagar os seus gastos supérfluos (aqui não estão incluídos os Ferraris, as despesas com as amantes, nem as jóias, ou as casas de luxo – estamos a falar do que não é indispensável). E a palavra de ordem é vender!

Vender de tudo e de todo o tipo!

Só me pergunto é a quem?

RdS
publicado por GERAL às 13:42
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1 comentário:
De MS a 23 de Fevereiro de 2006 às 14:15
Bem, sobre a pergunta levantada, há duas grandes escolas científicas sobre o assunto:
- Uma primeira que diz que é ao cidadão, considerando que o ordenado miserável que aufere chega perfeitamente para pagar a casa, colégio, água, luz, gáz, comida e roupa e se não há poupança é porque o cidadão anda com modernices e quer comer uma bifana de um qualquer matadouro clandestino que vende carne de cavalo do tempo das cruzadas como se fosse lombo da Argentina. Nesta escola de pensamento o lema ao funcionário é: "Não sejam tacanhos! comam merda e vão ver que compram a TV plasma"
- Há uma segunda escola de pensamento que diz, por outro lado, que se vende para o mercado externo. A dúvida existente é qual deles porque só se for o mercado Marciano uma vez que a merda, aqui, é global.

Mas que se pode vender pode... só não se pode vender a alma ao diabo... é que a esse, dão-na!

MS

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