Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2006

Caricaturas, muçulmanos e igualdade

A recente polémica das caricaturas do profeta e toda a violência à sua volta parece-me um pouco absurda. Absurda porque apesar de gostar de caricaturas, não achei piada às ditas, que criaram este sururu todo e absurda (aliás, eu diria retrógrada) por causa desse mesmo sururu.

Historicamente, a minha opinião (e a vossa também, porque são tugas de peito feito e pelo na venta) poderá ser tida como maculada. Afinal, na origem da minha Terra Estranha está uma longa troca de “galhardetes” entre os mouros residentes e nós. D. Afonso Henriques, nas pisadas de seu pai, resolveu que este território era demasiado pequeno para nós. Isto é dizer, que era demasiado pequeno para o nosso ego e para sapatos em bico deles.

Apesar desses pequenos encontros e desencontros históricos, cada uma das civilizações seguiu o seu caminho. A Europa passou pela sua fase de repressão religiosa fundamentalista, teve as suas longas guerras internas, desenvolveu as relações comerciais com o mundo e, lenta mas inexoravelmente, caminhou num sentido de maior liberdade cultural, social, comunicacional, etc. Para isso morreram milhões ainda no século XX, com duas guerras mundiais.

Depois de tanto sofrimento começaram as coisas boas na Europa, nomeadamente gajas a queimar soutiens, mini-saias, sexo livre, publicação do kamasutra, futebol, cinema, filmes porno, etc. Em paralelo a tudo isto, vieram os conceitos de liberdade e aprendemos que não existem temas tabu. Podemos, sem faltar ao respeito, rir e brincar com tudo. E isso meus caros, é uma coisa que me agrada particularmente. Agrada-me poder escrever à vontade neste blog; agrada-me poder debater todos os assuntos sem estar preocupado e gosto muito pouco que outros me digam o que pensar, como agir (para além do respeito pelo próximo e cumprimento da Lei) e com o que posso ou não posso rir.

O mundo islâmico seguiu o seu próprio caminho. Não me atrevo a julgar se melhor ou pior, apenas refiro que seguiu um caminho diferente do Ocidental. Não há mal nisso. Temos raízes diferentes, culturas diferentes, línguas diferentes, sociedades diferentes. Eu – e acho que a maioria das pessoas também – aceito perfeitamente estas diferenças mas esta aceitação não pode ser unilateral.

O que eu quero dizer com isto é muito simples: os muçulmanos impõem a todos os outros, nos seus países, as suas regras. Acho isso muitíssimo bem. As mulheres não andam destapadas, respeitam-se os locais sagrados, não há álcool nem drogas, não se podem usar roupas nem ter comportamentos ocidentais. Quem quiser ir a esses países tem a OBRIGAÇÃO de aceitar essas regras. São as deles e não nossas. O reverso da medalha é que os muçulmanos DEVEM respeitar o estilo de vida ocidental a toda a linha. Se nas escolas francesas não se pode usar véu, então aceitam ou colocam as filhas a estudar na Arábia Saudita, se as nossas mulheres andam destapadas têm duas hipóteses: olham e calam, não gostam de olhar e saem.

Boa ou má, o que é certo é que no mundo ocidental existe liberdade de informação e expressão (é certo que isto é altamente discutível, se existe de facto e quais deverão ser os seus limites). Quando o cartoonista António desenhou o papa com um preservativo no nariz assistiu-se a alguma contestação mas não assisti a pedidos de cruzadas ou linchamentos públicos, quando se contam anedotas de Cristo por norma as pessoas riem e mesmo que não gostem da anedota não sacam de uma pistola e disparam à queima-roupa, no melhor estilo do faroeste nem sequer queimam as fotos da pessoa, à semelhança de uma cerimónia de voodoo.

Ora recentemente um jornal dinamarquês publicou umas caricaturas de Maomé e como resultado andam todos a berrar (no Islão, claro) que somos uns bárbaros desprezíveis, que ousadia a nossa de tocar num símbolo do Islão, bla, bla, bla. A pergunta que faço é muito simples: e se por cada bandeira ocidental queimada pelos muçulmanos nos últimos 30 anos (afinal as bandeiras são os nossos símbolos) tivéssemos ido para a rua a exigir a prisão de tais bandidos ou a oferecer recompensas pela sua morte? Talvez tivesse sido melhor que isso acontecesse uma vez que é uma linguagem que eles percebem.

Tal como os muçulmanos fazem, se calhar deveríamos impor os nossos costumes quando temos de frequentar os seus países. A mesma tolerância que me pedem aos costumes dos outros é a mesma que exijo em relação aos meus costumes. Esses senhores vêm para a Europa com as exigências que temos de os aceitar como são, então porque não nos aceitam como nós somos? Não são os ocidentais que mantêm vivo o conceito de Jihad (guerra santa), não são os ocidentais que castram a liberdade de expressão escrita, oral, artística, etc, não são os ocidentais que destroem património cultural mundial apenas porque acham que não corresponde aos dogmas muçulmanos (aqui refiro-me às estátuas de Buda no Afeganistão). Não somos nós, são ELES...

Sei que ao escrever estas coisas me arrisco a receber um e-mail bomba, que me destrói as cores do monitor mas não posso aceitar as atitudes castrantes de tais personagens.

Tenho pena que não exista a coragem necessária no mundo ocidental para, de uma vez por todas, dizer aos fanáticos medievais desactualizados que chega! Basta de idiotice! As minhas ideias são tão válidas como um Mohamed Abdulah qualquer, as minhas crenças têm, para mim, a mesma importância que as dele têm. Imaginem que, por variadíssimas razões, recebem em vossa casa uma pessoa que não é da família e que tem por hábito cuspir no chão (não aqueles pequenos salpicos de saliva mas sim aqueles escarros verdes, já com capacidade de se tornarem automotores). Quando interrogada sobre isso, a vossa visita diz “desculpe, é um hábito da minha terra e como estou aqui na vossa casa tenho o direito de expressar a minha cultura”. Que fariam? Aceitavam? Ou respondiam algo do género “olha lá, ó animal! E se fosses escarrar para o raio que te parta?”?

Não quero pensar que o “meu mundo” está demasiado acobardado para dizer BASTA! Para poder expressar a sua cultura da forma que quer e quando quer. Gosto de poder andar à vontade sem ter de pensar que um imbecil com um cartucho de dinamite enfiado na peida vai explodir assim que for cagar só porque um outro imbecil disse se ele fizesse isso (entrar em orbita por meios próprios) tinha direito as umas gajas boas e virgens (entre 7 e 70, depende da generosidade e inflação), coisa que nunca tinha tido direito. Gosto de pensar que a arte e a cultura são livres, que as mulheres não são perseguidas e que a minha opinião é livre.

Não peço a todos os que lêem este texto concordem comigo, mas os que não concordam podem estar descansados que não os vou perseguir. Afinal têm a sua opinião e todo o direito a essa opinião. Se Deus e Alá são os nossos Pais e Criadores da Vida então deverão estar chocados com as atitudes de intolerância que o ser humano é prolífero em desenvolver. Se não gostam, não compram nem lêem os jornais “ofensivos”, se não querem, saem. Afinal foram eles que vieram para cá... eu não pedi nada!

Mas tenho pena que a Europa, que já foi o centro da cultura e civilidade, esteja velha, vítima de Alzheimer e Parkinson (esses dois estrangeiros manhosos), que se assemelhe a um cadáver e que, como cadáver, é incapaz de se unir em torno de uma ideia ou de um ideal. É que se alguns defendem a liberdade contra as diferentes formas de opressão, outros há que - por cobardia, incompetência ou pura maldade económica - vêm a terreiro dizer que "coitadinhos deles! Eu até sou contra a violência! Mas caramba, logo tinham de olhar para o lado dos muçulmanos". Nós, europeus, temos de ter a capacidade de nos unir e defender aquilo que é Europeu. Se os outros não gostam.... azar! É que ELES NÃO são europeus... eu SOU!

Lamento profundamente a atitude amedrontada do nosso MNE. Ele que vá ver a história europeia. Sempre que nos chateámos, ganhamos!!
Se com este texto feri susceptibilidades fundamentalistas, só têm que as expressar por e-mail para: ostres.s33@sapo.pt

MS
publicado por GERAL às 18:09
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1 comentário:
De RdS a 15 de Fevereiro de 2006 às 12:09
De facto tens razão. Guerra e morte a estes opressores nojentos. Vamos fazer a 3ª Guerra Mundial e a primeira cruzada dos nossos tempos, em nome da fé chacinar tudo o que respire.

Mas também temos de ter em conta uma coisa, acho que auelas parvoeiras todas só expressão a opinião de alguns. Se calhar a maioria dos muçulmanos "não estão nem aí", tomara terem conseguirem arranjar comida para o jantar, quanto mais estarem com preocupações elitistas sobre uns cartoons.

Não gosto de muçulmanos, muito menos dos extremistas. Mas disto temos em todas as religiões. Basta dizer mal do Papa e temos os papistas todos a mandar vir, se dissermos mal do buda, temos os budistas a chatear, dos muçulmanos está tudo dito.

Isto sem contar com as jogadas de bastidores que, se calhar, nunca viremos a saber. Realmente a religião é um obstáculo ao livre pensamento e à tolerância.

Por outro lado, os gloriosos anos 60, 70 e 80 onde a livre expressão era aceite está cada vez mais em causa. Não só a nível religioso, a outros níveis também. Um exemplo é o nosso blog, não pomos nos nomes, temos medo de represálias.

RdS

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