Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2006

O porteiro de discoteca

Há vários motivos para uma pessoa trabalhar. O mais óbvio é que o trabalho envolva uma remuneração que nos permita podermos gastar o dinheirinho nas nossas necessidades mais prementes e que aqui em Portugal passam por acumularmos dívidas no supermercado, no crédito à habitação, nas contas do telemóvel, no crédito automóvel, nos gastos com o Euromilhões e outras coisas essenciais.

Mas o trabalho não pode ser visto apenas como o gerador financeiro das nossas vidas (já não falando naquelas vidas que mesmo sem trabalho têm garantidas de várias formas a sua subsistência). Em meados do século passado, houve um gajo chamado Maslow, que comprovou por determinada teoria (a pirâmide de Maslow, assim chamada graças ao nome do seu autor) que as nossas necessidades podem ser preenchidas através do trabalho e que as que são mais difíceis de serem atingidas, são aquelas que não têm propriamente a ver com o retorno financeiro dado pelo nosso esforço laboral. Essas estão num patamar mais baixo, estando as mais elevadas relacionadas com necessidades de motivação e auto-realização.

Penso que, como tal, não haverá profissão mais auto-realizadora em Portugal do que a profissão de porteiro, mormente a de porteiro de discoteca.

O porteiro de discoteca é o suprasumo da realização profissional, mais a mais se atendermos às vastas qualificações que tal profissão exige a quem tem a coragem de querer singrar na mesma. O esforço intelectual exigido não fica a dever a quem trabalha em astro-física, a capacidade de diplomacia exigida faz inveja a qualquer embaixador em qualquer país do mundo, tudo isso combinado com uma capacidade atlética comum a quem seja praticante de triatlo.

O poder de decisão do porteiro de discotecas pauta a nossa vida social. Dele depende se somos capazes ou não de singrar socialmente. Dele se obtem a ajuda fundamental para aparecermos nas revistas cor-de-rosa e é com eles que aprendemos as nossas limitações mais comuns. O que importa hoje em Portugal, mais do que ver, é ser visto. E que melhor antro para tal que a discoteca recheadas muitas vezes de paparazzi?

Um gajo que entre numa discoteca da moda é um gajo "in". Eu nunca soube, e acho que nunca vou saber o que é um gajo ou uma discoteca "in". Será que é um "in" de introdução? À socialite? A um mundo cor-de-rosa? A introdução de margalhos pelo rabo acima? Só sei que é, ou deve ser, algo de bom (tipo o Tampax que dá para correr, andar de bicicleta, etc) para que tanta gente, em práticamente todos os dias da semana, se proste em frente de bares e discotecas, esperando a sua sorte, determinada quase sempre por essa figura ímpar da sociedade laboral portuguesa que repito ser o Porteiro (com P grande que é assim que deve ser chamado).

O verdadeiro boémio que se preze tem no porteiro de discoteca o seu mais fiel amigo. Uma relação dessas pode demorar anos a ser construída, pode envolver largas somas de dinheiro gastas às portas das casas da noite, dissabores físicos (normalmente unilaterais) horas de discussão, pedidos de joelhos, "tangas" que nem a uma gaja boa se dariam, mas, certo certo é que é um investimento com todo o retorno garantido.

Olhando para um texto anterior apelidado de "Doutorite", teremos pois neste caso o flagelo (para alguns) da Porteirite. Este sim, o cromo mais difícil de toda a colecção de cargos influentes da nossa sociedade.

Existe a lei do reservado o direito a admissão nos estabelecimentos privados (e se calhar públicos), mas em nenhum outro tipo de estabelecimento esta lei é levada tão a sério e por vezes, com tanto extremismo. Exemplo:

- Boa noite
- Boa noite, são 300 euros para entrar
- Então, boa noite

Ora aqui está o exemplo da forma elucidativa como o porteiro nos pode ajudar. Ao ter este tipo de resposta à nossa aproximação, o porteiro salvaguarda os nossos interesses, acima de tudo. Sabe que qualquer entrada numa discoteca é um investimento nosso e pressupõe um sem numero de benefícios a todos aqueles que querem disfrutar do prazer de entrar para esses verdadeiros templos sociais e de prazer que são as discotecas. Podemos ouvir música erudita, ruídos de martelos a bater de uma forma melódica e cadenciada, ver umas "tias" bem como uma série de gajas boas, beber uns copos a preços convidativos, e tudo isto porque um, erradamente suposto, gorila nos permitiu entrar na casa por ele guardada.

Outro exemplo:

- Boa noite
- Boa noite, entrada só reservada a casais.
- Mas acabaram de entrar uns quantos homens sem companhia...
- Sim, mas esses têm garrafa cá na casa.

E pronto. Mais uma vez estão os porteiros a zelar pelos nossos interesses. Não só nos avisam que o ambiente na disco está carregado de machos (ou seja, de não interesse para um gajo que queira só cometer o pecado de ir beber uma cervejola, ou de dar um pézinho de dança) como ainda nos dão a entender que comprando uma garrafita (sempre barata) no estabelecimento, ficaremos à saída desse estabelecimento, mais aptos para termos uma condução mais propícia no retorno a casa.

O porteiro da discoteca é uma profissão só ao alcance de uns quantos predestinados. Por enquanto não existe ainda nenhum curso preparatório dessa profissão, tal é o manancial de teorias que os eventuais formandos teriam que aprender. Mas Portugal ganharia em ser precursor e implementar um curso desses.

JLM
publicado por GERAL às 17:41
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1 comentário:
De Tiago S. a 29 de Outubro de 2010 às 02:59
boas... é o seguinte, ser porteiro de uma discoteca é bem mais do que decidir quem entra ou não... é zelar pela segurança das pessoas k nela permanecem e aturar algumas bebedeiras que por vezes acabam mal... mas pronto quero dizer apenas que para se ser porteiro/segurança num estabelecimento de diversão nocturna tem que se ter formação e ser qualificado para tal... se repararem todos andamos com cartão de segurança privada... abraço

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