Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2006

A Censura - Sexo ou Guerra.

Que título mais estranho, mesmo para uma terra estranha. O Sexo com Guerra não joga lá muito bem! (Ou se calhar até joga. Não sei. Já vamos ver).

Pois, como eu ia a dizer, se calhar não joga bem! Mas o objectivo aqui não é escolher um dos dois para praticar, mas sim analisar o que é censurado. CENSURA? Isso já não existe! Somos um país livre, democrático, tudo é permitido, isso pertence ao passado.

Será? Se calhar a censura ainda existe, não com carimbos mas, no inconsciente colectivo da nossa aldeia global, principalmente no que diz respeito a sexo.

Espera, então mas que parvoeira é esta? Existem por aí filmes porno aos montes, principalmente no vídeo clube, e revistas também.

É verdade, existe isso tudo. Vamos por partes:

Comecemos pela televisão e restrinjo-me aos canais generalistas. É normal aparecer nas grelhas de programação filmes de todo o género, também é comum aparecerem aqueles que têm um carácter acentuadamente de guerra e de violência.

Portanto, é pacífico vermos filmes onde a guerra e/ou a violência são o actor principal, premiados com Óscares, extremamente bem cotados, muitas vezes são alvo de criticas fantásticas, podemos dizer em sociedade que o filme “brutalidade e estropiação” é maravilhoso, está muito bem feito, etc.

Nesses filmes temos o privilégio de poder assistir, pormenorizadamente, a tudo: pessoas a ser degoladas, ao arrancar de pernas e de braços com um realismo sanguinolento digno de Atila - o Huno, tiroteios fantásticos onde o actor principal (que não consegue dizer nada de jeito) trucida inimigos aos milhares com todo o tipo de tecnologia especializada em genocídios.

Achamos isto fixe, porreiro, “o gajo é o máximo, dá umas castanhadas fixes nas fuças daquelas bestas (que por acaso muitas vezes são seres humanos), …mas o que adorei mesmo foi quando o gajo enfiou o ferro em brasa no olho daquele cretino e a ponta saiu pelo cu”. Ou “ Melhor, ainda, foi quando o bacano, depois de ter despachado 23 energúmenos com um garfo, conseguiu abrir o cérebro do gajo, que era bera como o caraças, e retirou-lhe o fígado. Altamente…”.

Também vimos com naturalidade os telejornais a abrirem com mais um bombardeamento numa terra qualquer onde morreram, além de soldados “maus” (aqui depende do ponto de vista de quem vê a notícia), umas vítimas colaterais e o país ficou reduzido a um monte de entulhos.

Vemos, com passividade, documentários e notícias sobre o mais recente engenho de destruição em massa, ou, com igual alegria, ouvimos sobre a descrição do mais recente caso de espancamento doméstico, ou de qualquer outra atrocidade, com grandes planos dos acontecimentos, detalhes rigorosos, opinião de especialistas e até análises económicas dos seus efeitos (isto sim a parte mais importante). Até aqui tudo bem.

No entanto, quando falamos de sexo, a coisa já é um pouco diferente. Se por acaso aparece um filme com umas cenas mais arrojadas, aparece logo uma bolinha vermelha ao canto superior esquerdo, mandamos os putos para a cama (estas coisas não podem ser vistas pelas crianças senão elas ficam chocadas e com traumas), já não falamos abertamente sobre a qualidade do pseudo filme e muito menos dos seus intervenientes.

Sentimos uma onda generalizada, um certo clima, de que é algo ilícito. Por vezes assistimos a vozes que se levantam, em nome da moral e da decência, a proclamar em alto e bom som a irresponsabilidade de passarem este tipo de coisas.

Mesmo nas conversas mundanas quando, por ingenuidade ou por falta de senso, se aborda algo relacionado com sexo, somos confrontados com uma certa, como hei-de dizer, subtileza, com um “ambiente” diferente. Muitas vezes reprovador, ou então lascivo, ou intimista, ou conspirador, em resumo: não o mesmo ambiente de quem fala da última chacina cometida por fulano tal.

Portanto, nós aplaudimos e admiramos filmes onde se mate uma pessoa – uma? Não, centenas é que é bom, o ideal é que se mate milhares – mas se for um filme onde aparecem dois seres em poses mais “libertinas”, já é considerado pornográfico, um horror – surge o tribunal societário da moralidade e bons costumes. “Que horror, um pénis e uma vagina a interagir, uma indecência!”.

Pior, se nos atrevermos a comentar em público ou na sociedade em geral que o filme “vaginas tresloucadas” é muito bom, somos logo rotulados de tarados - atenção aquele individuo só vê porcarias, coisas que são um nojo, de mente perversa, blá-blá-blá….

Mas deixemos a televisão e os filmes de lado e imaginemos outras situações:

Por absurdo, numa entrevista de emprego refiro, em conjunto com uma centena de outros livros que admiro, que um dos livros que mais me absorveu foi o SEXUS, de Henry Miller, ou que uma das minhas revistas favoritas, entre outras muito consideráveis, é a PLAYBOY, e que tenho o perfil fantasticamente adequado para o lugar, falo 400 línguas e que vou pagar para trabalhar pelo privilégio de pertencer à empresa OPQ. O que acham que acontece?

Ou então (esta é completamente desadequada), é vulgar oferecermos pistolas e facas de brincar aos nossos filhos, tudo bem! mas será que já alguém pensou em oferecer vaginas de brincar? Resposta Universal: Claro que NÃO!

Mas, por absurdo, debrucemo-nos um pouco sobre isto. Com este simples acto estamos a transmitir a ideia de que matar algo ou alguém, a fingir, é BOM e é ACEITE. Se calhar, inconscientemente, urdimos a esperança que ele aproveite para cilindrar, nas suas inocentes brincadeiras, todos os malfeitores e cretinos que não podemos fazer desaparecer da face da terra e com os quais nos cruzamos no nosso dia-a-dia.

E se oferecermos um vibrador ou uma boneca insuflável ao nosso filho ou filha, o que é que estaremos a transmitir? Perversão, de certeza! Algo do género: finalmente estou a dar azo à imaginação e tenho a esperança que ele possa “foder” todas aquelas boazonas com que me cruzo na vida, mas que não tenho a coragem ou a arte para lá chegar.

Ou seja, será que queremos dizer: “Podes matar à vontade que, se tiveres razão e fores o herói, não há problema, é até bem visto! Mas se deres uma queca estás tramado(a). Toma lá uma pistola, mas aí de ti que vejas ou toques num vibrador!”.

Isto é depravação, com esta conversa estou a ousar sugerir que devíamos estimular os nossos filhos na arte do amor em vez da nobre arte da guerra! Isto é, no mínimo, um sacrilégio!

Por outro lado, se analisarmos ludicamente a coisa, se calhar até tinha a sua piada. A sociedade passaria a organizar-se de outra forma, por exemplo: em vez de soldados preparados para a guerra teríamos soldados preparados para o amor, artilhados com preservativos de última geração. Imaginem um país a ser invadido por homens e mulheres desnudos que disparavam beijos em vez de balas. Assustador, não é?

Mas deixemos os conflitos de lado e passemos para algo mais trivial, no mundo do trabalho por exemplo: Como sabem, um dos livros mais aconselhados no mundo da Gestão, leitura obrigatória de qualquer gestor que se preze, é “A ARTE DA GUERRA”, de Sun Tzu. Este livro ensina os nossos líderes a conseguirem fazer um paralelismo entre a guerra e o mundo empresarial. De facto, é um sucesso, todos conseguimos ver a virtude de sermos um Napoleão empresarial.

Agora imaginemos, e se aplicássemos à vida empresarial um livro com o título “A ARTE DO AMOR” ou “ A ARTE DO SEXO”? Ridículo! Onde é que já se viu comparar o cenário empresarial com o prazer que se pode retirar de um cenário de lençóis de cetim? Não é possível! Nem é recomendável. Bom, a única vantagem que vislumbro é que talvez fosse mais agradável o “acordar para ir trabalhar”.

Deixa cá ver outra coisa…Estava a pensar, obviamente num contexto de pura realidade virtual, nas academias de desporto, como as que existem para o Karaté ou para o Judo. E se existissem também academias de sexo? Isto é com toda a certeza uma tremenda imoralidade, onde já se viu conspurcar a beleza de ver dois indivíduos a rolarem pelo chão juntinhos e a roçarem-se, sem ter por objectivo o aleijarem-se mutuamente? Ainda por cima com sugestões impúdicas como a de praticar actos descabidos de cariz sexual!

Vou só dar mais um exemplo do que é aceitável e do que não é aceitável:


Cenário 1

… Um pontapé violento, a porta é estilhaçada, enviando em todas as direcções bocados de madeira. Um pedaço crava-se violentamente por entre os olhos de um dos presentes, enterrando-se no cérebro. Os três restantes nem têm tempo de se recompor, com um tiro certeiro no externo é deitado a abaixo o guarda-costas. De seguida o nosso herói enterra no pescoço do outro guarda um facalhão, deixando-o cair para o chão a esvair-se numa poça de sangue. De seguida, o último oponente é agarrado pelo pescoço e o nosso herói enfia a caçadeira de canos cerrados na sua boca….



Cenário 2
… Na cama, os dois corpos encontram-se, juntos, os poros a tocarem-se mutuamente. A minha mão escorrega pelos ombros, suavemente, chegando ao seio alvo. Os meus dedos prendem-se no mamilo, está espetado, duro. A minha boca ávida assalta-o, acariciando a sua pele sedosa. As mãos dela envolviam o meu pénis e aproximavam-no selvaticamente da sua vagina. Tocam-se, exploram-se….



O que acham?

Bem, estou a ficar confuso, deixa cá ver… O que é que isto tem a ver com censura?

Portanto, posso publicar, escrever, filmar e comentar tudo o que o que vêm no cenário 1, até é bem visto, mas, em relação ao cenário 2…..

Se calhar já fui longe demais, vou-me censurar.

RdS
publicado por GERAL às 17:47
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1 comentário:
De MS a 8 de Fevereiro de 2006 às 14:21
Espectacular...
Acho que seria interessante desenvolver este tema, sobretudo na visão empresarial, isto é, se subires na empresa a titulo de facadas nas costas e a lixar os teus colegas (mandá-los para a rua, de preferência) és considerado um tipo que trabalha bem; no entanto, por oposição, andares a comer a chefe (qué boa como tudo), já subiste na horizontal e não trabalhas bem...

Como diria o outro: "kill a man, you're a murderer, kill a million you're a conqueror... go figure!"

MS

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