Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2006

O dinheirinho

Hoje vou falar de dinheirinho. Não naquela noção de que faz bem à saude, de que traz a felicidade (acho que o ditado é ao contrário, mas que ajuda, ajuda), de que dá para engatar gajas boas, comprar produtos, investir, etc, etc.

A minha intenção é falar do uso que a populaça tuga faz ao vil metal.

É frequente sermos confrontados com o pouco nível de vida que a maioria (friso, a maioria) da população tem, devido ao (pouco) rendimento que usufrui. Penso que isto é uma ideia relativamente consensual. Contribui tal para o pessimismo latente entre a nossa população, ou parte dela.

Opino que nos devemos manter pobrezinhos. Falo da maioria da população porque parte dela é bastante abastada. Portugal é um país pobre cheio de gente rica.

O importante é de facto sermos pobrezinhos mas honradinhos. Pobrezinhos mas alegres, como os brasileiros que às vezes não tem um grama de cheta mas que sambam durante todo o ano (e alguns têm sempre a possibilidade de serem uns brinca-na-areia e de serem contratados por olheiros estrategos e virem jogar para os clubes de futebol lusitanos).

O dinheiro faz mal ao tuga. O luso esbanja o dinheiro em tudo menos no que devia gastar ou investir.

Está provado históricamente. No século XV e XVI, Portugal era, ou podia ser, a nação mais próspera da Europa, fruto dos descobrimentos, das rotas comerciais estabelecidas, do invejável monopólio que chegou a deter em relação ao comércio internacional o que fez com que Lisboa fosse considerada à data um dos maiores, senão o maior entreposto comercial europeu. O que é que resta desse tempo? Nada senão a nostalgia desse tempo outrora glorioso. Poucos séculos depois, tivemos novas oportunidades com, por exemplo, o ouro e o café do Brasil. Resultados? Investimentos? Nada, a não ser o facto de que sempre houve (sempre os há) alguns que aproveitaram a situação em detrimento da populaça. Enquanto isso os outros países investiam forte e feio na construção naval, no desenvolvimento das cidades, no estabelecimento de grandes rotas mercantis, inclusivamente na guerra que gostavam de fazer aos tugas porque, é minha opinião, cedo constataram que um tuga a gerir as coisas nunca dá grande resultado.

Na 2ª grande guerra (Portugal não participou como é sabido, e ainda bem por um lado. O que seria de Portugal se tivesse participado? É uma daquelas dúvidas perante a qual nem especulações pode haver) Portugal teve outra oportunidade devido à exploração do Volfrâmio. Enquanto os outros países saíam da guerra completamente destruídos e começaram a reconstruí-la num tempo recorde, Portugal aproveitava a exploração do minério para (isto é verdade) o tuga enrolar tabaco (ou outras coisas) em notas de conto e fumar (o dinheiro tem que entrar por algum lado, nem que seja pelos pulmões).

Recentemente tivemos os fluxos financeiros da UE. Construíram-se auto-estradas e viadutos, é certo. Mas e o resto? O que foi feito dos milhões de euros diários que entravam sem passaporte no nosso país? Era suposto que uma das áreas que fosse abastecida com tais investimentos fosse a educação/formação. O que aconteceu é que a UE dava por exemplo cursos de formação a padeiros, e quem os usufruia eram estudantes universitários que queriam ganhar uns cobres sem grande esforço ao fim do mês. "Padeiro eu?" Chooooooorda-se!!!!! E a modernização dos sectores produtivos portugueses? Dos poucos indicadores de riqueza, um dos mais importantes é o facto de, a partir dessa data, certas regiões em Portugal ficaram com o recorde europeu de maior numero de carros de luxo (tipo Ferrari) por cidade. Lá está, há sempre alguém que nos diz põe-te a pau, como diriam os Trovante. Põe-te a pau, que a mim não me calha nada. O problema está aí. "A mim" não calha nada. Não interessa se calha aos outros. Se "a mim" não calha nada, que se fodam os outros. Se "a mim" calhar alguma coisa, os outros que se continuem a foder. Este é o busílis da questão.

Ou seja, porquê estarmos a preocupar-nos com termos muito dinheiro? Em primeiro lugar, são os de sempre a terem sempre muito dinheiro. Por outro lado, e isto é mais grave, o tuga não aproveita o carcanhol para investir e desenvolver-se. Em que é que o tuga gasta o dinheirinho hoje em dia? O tuga pode ser pobre, mas compra todos os dias a Bola, o Record ou o Jogo. A tuga, a Caras, a Nova Gente e a Maria. Podemos não ser ricos, mas investimos na coltura. Podemos estar falidos, mas telemóveis é coisa que não nos falta (um dos maiores indices europeus, se não mundiais). Carrinhos - é ter um parque automóvel mais novo do que a maioria dos nossos parceiros da Europa. É ver os restaurantes todos cheios, com os mais caros a ser necessário proceder com marcações à priori. É ver a nossa cambada universitária a não querer pagar propinas (mas quem é que as paga - eles ou os papás???) mas a terem dinheiro para a copofonia e para um carrinho, lá está ele, para se deslocarem para a Faculdade como tão bem eles gostam de referir. Enquanto isso, na Holanda, país onde vivi, os estudantes e os professores, atente-se, deslocam-se para a escola de bicicleta.

Nunca há dinheiro para nada a não ser para certas coisas essenciais como as acima referidas. É por estas e por outras que o tuga vive enforcado em dívidas, que o índice de endividamente das famílias portuguesas é dos mais elevados do mundo, aproveitando com isso a nossa pobre banca que como se sabe, lucra pouquinho. Pudera, com as prioridades que se dão ao dinheirinho, que outra coisa seria de esperar? Alguém ainda acredita no Pai Natal?

Temos o país que temos. Pior do que isso são os governantes que temos. Mas temos uma coisa ainda maior (nem sequer vou dizer pior) do que tudo o resto - O tuga e a sua habilidade para continuar a sobreviver ao longo dos tempos. Venha mais riqueza que a malta esbanja-a. Em proveito próprio, claro está.

JLM
publicado por GERAL às 11:25
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2 comentários:
De RdS a 7 de Fevereiro de 2006 às 15:10
O que está a dar é ficar a dever. A todos, banco, supermercado, loja dos tamagochi, amigos. Ou seja ser um verdadeiro elo de ligação global, nem que seja pela via da dívida.

RdS
De MS a 6 de Fevereiro de 2006 às 16:25
Pois, mas esta relação estranha entre tugas e dinheiro faz parte de um plano maquiavélico, senão vejamos:

- Quando chegar o fim do mundo de Nostradamus, os únicos a sobreviverem ao holocausto serão os tugas porque, em primeiro lugar já estamos habituados a viver na merda e em segundo lugar, ainda iremos ver os abrigos nucleares que os sucessivos governos andam a construir... tudo a pensar no futuro!

MS

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