Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2006

A doutorite

Viva,

Estava eu na noite das eleições presidenciais a vaguear pelos canais informativos internacionais (CNN, SKY news) a ver se ,enfim, alguma referência noticiosa às nossas eleições era feita (ver texto anterior sobre os embaixadorzinhos) quando me fartei de não ver nada (nem nos news bar) e lá tive que voltar aos canais nacionais para ver como estava a marcha no marcador.

É então que me deparo, em todas as televisões com painéis de comentadores que tinham todos um (mínimo?) denominador comum. Eram todos tratados pelo mesmo epíteto - O Dr, ou numa forma mais refinada - o Sr Dr.

Curioso, fui ao dicionário para confirmar aquilo que já deveria saber:

Doutor, ie, o que ensina; homem erudito, sabedor. Mas também homem com presunções de sábio.

Fazendo uma reflexão, acabo por concluir que Portugal é um país de senhores doutores. Um caloiro que entra para a universidade, pode ter a certeza que, mesmo que não aprenda nada durante o curso, mesmo que seja um cábula, mesmo que tenha feito o curso por correspôndencia, mesmo que só tenha aproveitado o curso para conhecer umas gajas e beber uns copos adicionais (ah, alunos espertos), há-de para todo o sempre poder ser designado por doutor ou dr na sua forma mais abreviada.

Se formos ao estrangeiro, o "doctor" ou "dottore" ou seja lá qual fôr a tradução, está associada à profissão de médico. Com uma certa justiça, diga-se de passagem. Um médico é douto no seu conhecimento sobre as patologias, ou parte delas, que nos assolam. Deve ser o curso com menos probabilidade de um aluno cábula passar, ie, como é que um cábula se safa se tiver que fazer uma autópsia, uma operação ao testículo ou uma implantação capilar a quem sofre de alopécia androgenética? É difícil, não querendo dizer que é impossível. Outros cursos há em que as exigências são maiores ou menores, mas isto já me levaria a afastar-me do assunto.

Portugal sofre do síndroma da doutorite. Ao contrário de uma doença normal, esta é uma doença que todos querem ter. Todo o tuga tem ambições em ser doutorzinho, não importa se sabe ler ou escrever. O importante é o título, não a sabedoria sobre determinado assunto. A ambição de termos mais um "nome" nos nossos cheques e outros documentos é mais forte do que as capacidades de muitas pessoas e provavelmente das necessidades do país.

Eu já passei por várias coisas e profissões na minha vida, e posso dizer que vi de tudo a este respeito. Comecei, quando era jovem, a dar explicações. Entre os explicandos havia gajos e gajas que, utilizando um eufemismo, tinham as suas limitações. Havia por exemplo um tipo a quem era difícil explicar que 2+2=4. Uns anos depois fiquei surpreendido por saber que estava a dar aulas de matemática (eu devo ser um grande explicador) nos Açores, tendo o devido tratamento de "sôtor". Havia outra miúda a quem eu decerto contrataria apenas para mulher-a-dias, e que acabou por fazer um curso numa universidade privada (pois claro) para que pudesse usufruir do acrescento nominal. Depois comecei no mundo real do trabalho e encontrei contabilistas que assinavam Dr, secretárias cujos cheques pessoais lá tinham o famoso apêndice, etc, etc.

Sendo um doutor um sabedor, tal como é definido pelos dicionários, eu penso que para bem da populaça, numa de exultação do ego, os pedreiros, carpinteiros, electricistas, marceneiros entre muitos outros podiam granjear do epíteto. Afinal eles são sabedores do seu ofício. Inclusivamente os arrumadores de carros, vulgo "agarradinhos" podiam utilizar o cognome. Afinal há alguns deles que dizem conseguir fazer estacionar um camião Tir num espaço destinado a quando muito, um Smart. O pessoal ficava todo contente e deixaria de ser necessário a utilização de nomes próprios porque todos nós seríamos doutores. É que não sei se estão a ver os benefícios disso - uma uniformização dos nomes de todas as pessoas. Seria melhor do que tratar uns por "tu" e outros por "você".

Há depois outras formas patológicas mais difusas e quiçá mais requintadas deste síndroma. A ver:

- A Engenheirite - Esta é mais comum e mais direccionada a quem fez um curso no Técnico, por exemplo. Doutores todos podem ser. Engenheiros só alguns. Uns privilegiados, portanto. A engenheirite manifesta-se pelo conhecimento técnico em profissões tão distintas como o chefe de obras e o primeiro ministro. O "sinhor Enginheiro" (que saudades das velhas rábulas do Herman) é uma figura respeitada, e como dizia um inglês com quem falei há uns tempos, é um dos nomes portugueses mais comuns, tal era a quantidade de pessoas que ele conhecia no nosso burgo com o nome a começar por engenheiro. A fazer concorrência portanto a todos os Pedros, Paulos, Anacletos, Franciscos e Gumersindos.

- A arquitecturite - Ainda mais restrita que a engenheirite. Associada a elaboração de mamarrachos modernos tipo Estádio de Alvalade. Uma derivação mais perigosa deste síndrome, com sérias implicações rectais, é o Taveirismo

- A Professorite - O grau mais elevado da patologia. Só alguns conseguem lá chegar. Uns mesmo, só para não esquecerem as suas humildes raízes, acompanham a professorite com a doutorite,, intitulando-se Sr Professor Doutor (por extenso que é para ocupar mais espaço na assinatura). A professorite em Portugal é a derivação doentia mais associada com uma das definições de dicionário de Doutor, ie, homem com presunções de sábio.

Há depois alguns casos mais raros, que por falta de derivação linguística, tiveram que ter importadas as suas designações. Falo mais concretamente da figura do "Mister", designação muito utilizada pelos nosso profissionais da bola que costumam tratar o ( incorrectamente chamado de) treinador por este estrangeirismo mais sofisticado.

Aqueles que não podem sofrer das patologias acima, sofrerão sempre um upgrade nominal, ie, Uma "bata azul" no hospital, hoje em dia é uma "auxiliar de acção médica". O vulgo "contínuo" é hoje um "técnico de acção pedagógica", e por assim em diante.

Portugal tem um défice de profissões técnicas que infelizmente são poucos as que as querem, fruto da nossa ambição doutorite. O mais grave no entante é constatar ao fim de tudo que a sapiência dos vários doutores que nos aparecem no dia-a-dia, é igual à subtileza de um elefante bêbado numa loja da Vista Alegre.

JLM
publicado por GERAL às 11:19
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2 comentários:
De RdS a 7 de Fevereiro de 2006 às 15:18
Isto dos títulos académicos tem que se lhe diga. Todos queremos ser, mas só alguns é que lá chegam, outros são por simpatia ou por anexação.

Realmente não é o titulo que faz o Homem, mas em Portugal temos a mania de ser diferentes e querer fazer do título Homem.

RdS
De MS a 6 de Fevereiro de 2006 às 16:20
Pois! mas tenhamos calma... afinal com o choque tecnológico que se avizinha (isto é, 2 camiões TIR cheios de pc's chocam violentamente no IP5), o canudo passa a ser incluído na certidão de nascimento...

Começam todos como Doutores... o resto vem por acréscimo, ou por família

MS

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