Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2006

Histórias... do caralho!

Todo o tuga que se preza tem uma adoração por uns bons palavrões, mesmo que não saiba a sua origem. Por exemplo, para quem não sabe, a palavra fuck, tão utilizada em filmes e actualmente mais um dos estrangeirismos que assolam a nossa língua – à semelhança de um qualquer tsunami – tem uma origem histórica que não deve ser ignorada.

Era prática corrente durante os séculos XIV e XV, a corte inglesa pedir autorização ao suserano para se reproduzir. Quando a aprovação real surgia, os nobres e outros menos nobres tinham autorização de colocar à sua porta as letras F.U.C.K. que significava “Fornication Under Consent of the King”.

Como podem reparar, o decreto real tornou-se, nos dias de hoje, uma palavra proibida e temida no léxico mundial. O seu sentido é comum em todos os continentes mas o seu conteúdo tem sido deturpado. Hoje em dia, poucos reis existem mas, por oposição, abundam os políticos. Se tal palavra fosse criada actualmente seria mais ou menos assim:
F.U.V.P. (Fornication Under Vote of Parliament) ou F.U.L.D. (Fornication Under Law-Decree).
Por muito estranho que este inicio possa parecer, não é e já vão ver porquê.
O nosso grande contributo para a história foi, sem sombra de dúvida, a nossa gesta marítima. Desbravámos caminhos, abrimos novos mercados, criámos novos produtos, inventámos o comércio triangular, tudo numa perspectiva inovadora e muito anterior à globalização (éramos modernos, então). Tal gesta foi de tal modo importante que deu origem a um estilo arquitectónico único no mundo, o Manuelino, e a nossa portugalidade foi moldada pelo mar.

Ora um dos contributos mais significativos – e também o mais deconhecido – para o enriquecimento da cultura portuguesa foi a palavra caralho. É mesmo! Esta palavra, tão comum nas nossas bocas (salvo seja) tem a sua origem nos descobrimentos.
O que significa tão funesta palavra do nosso léxico? Segundo a Academia Portuguesa de Letras, caralho é uma das palavras que designava o cesto da gávea. Para quem não sabe, era aquele cestinho de madeira no to do mastro mais alto de onde os vigias gritavam “LAAND HO!” em inglês; “TERREEE!” em francês; “MIRA HOMBRE! QUÉ ES LO QUE MIRO! QUE NO TE ENTIENDO COÑO! HODER HOMBRE! QUE NO LO SEI LO QUE MIRO, CARACOLES! QUE MARCHAMOS DAQUI HOMBRE!” em espanhol (estes tipos sempre foram complicados e normalmente encalhavam a nau antes de conseguirem avisar que uma pequenina faixa de terra como a AMÉRICA estava à vista... são mesmo burros aqueles! Em termos modernos é o mesmo que o Real Madrid contratar um ponta de lança genovês e sair-lhe um guarda-redes camaronês na rifa); “DAAA-SE CHEGÁMOS! TAVA A VER QUE NÃO! PALHAÇO DO COMANDANTE QUE ANDA PERDIDO!” como diziam os tugas!

Voltando à origem do caralho: segundo tão ilustre Academia, no caralho, dada a sua situação de muita instabilidade (no alto do mastro), era onde se manifestava com maior intensidade o rolamento ou movimento lateral da caravela. O caralho era, assim, visto como um local de castigo para aqueles marinheiros que cometiam alguma infracção a bordo. O castigado era enviado para cumprir horas e até dias inteiros em tão desconfortável local... o caralho.

Daqui surgiu a expressão: “Vai p’ró caralho!!”
Quando terminava o castigo, o marinheiro exclamava, já no convés, “tenho um emprego do caralho!!”

Como poderão constatar, a modernidade portuguesa de então, alcança os nossos dias com uma actualidade e relevância que empalidece Nostradamus. A influência náutica portuguesa estende-se ao longo dos séculos e é multi-disciplinar e transversal à sociedade global. Não há “kámone” que venha à Terra Estranha que não lhe seja ensinado logo os primeiros passos da arte de marear: “Ó kámone, sabes o que é o caralho??? É p’ra onde vais se não passas p’ra cá o guito!”

Actualmente, não existe palavra mais abrangente no léxico tuga que o caralho, daí a sua vertente multi-disciplinar. Vejamos alguns exemplos:
- “Aquela coisa é pesada com’ó caralho!” – visão Newtoniana dos efeitos gravitacionais
- “A fotocopiadora está longe p’ra caralho!” – visão de espaço numa perspectiva cosmológica
- “A gaja era boa p’ra caralho!!!” – visão alimentar e nutricional
- “Aquilo é grande como o caralho!” – visão arquitectónica
- “Mete o pisca nos cornos, caralho!” – visão do taxista
- “Isto está tudo a ir para o caralho!” – visão do funcionário público, depois dos aumentos de 1,5%

A influência do caralho chega tão longe que envolve a esfera política no mais terno abraço de saber e fazer. Por exemplo, ao apreciarmos a passada campanha eleitoral, não podemos deixar de exclamar (com os olhos bem arregalados como de quem veste umas cuecas nr 32 quando na realidade precisava de um 48):
- “Estas presidenciais foram do CARALHO!” – neste caso convém saber quem foi castigado, se os candidatos se o “povão”, que não tinha quem escolher e de bom grado se pirava para o tal cestinho para nem ter de ouvir o “comandante” da nau.
Se ouvimos discursos do Mário:
- “Mas que CARALHO está a ele a querer dizer?”
E se o candidato fala mas não diz nada:
- “O caralho do Aníbal está a pensar o mesmo que nós!”
No futebol também encontramos os vestígios na nossa gesta de coragem. É aqui que o significado de enviar alguém para este posto de trabalho atinge o seu auge com os típicos cânticos:
- “Pinto da Costa.... vai p’ró caralho!” – este marinheiro deverá ter ofendido a maioria dos restantes marinheiros, nesta nau de 10 milhões!

Na verdade, por muito que queiramos esconder esta palavra, o que é facto é que ela existe. Não há nada que não se possa definir, explicar ou enfatizar sem juntar um caralho. Se, por exemplo, vemos aproximar-se uma viatura do Conselho de Ministros ou da Administração do Banco de Portugal não deixamos de exclamar: “Este carro é do CARALHO”.

Esta Terra Estranha vive do seu glorioso passado (distante, claro! Porque o passado recente é de chorar... e não é por mais). Nos livros de história, o nome de Portugal é reverenciado pela sua aventura marítima, pelo seu contributo para a ciência náutica (quem não conhece o estibordo e bombordo, a vela latina, navegar à bolina, etc) e também os diferentes componentes de uma nau.
Por tudo isto, podemos todos dizer com orgulho:
“Este país é do CARALHO!!!!!”
Se um dia, delicadamente, quiserem insultar o vosso chefe podem sempre exclamar “Porque não se vai sentar no cesto da gávea, no topo do mastro?!?!?!” afinal não o estamos a mandar cometer um acto homossexual como até há pouco tempo pensava.

MS
Ostres.s33@sapo.pt
publicado por GERAL às 15:21
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1 comentário:
De RdS a 3 de Fevereiro de 2006 às 15:29
Este enriqueceu e muito o meu pobre vocabulário:

Vou passar a mandar tudo para o cesto da gávea.

RdS

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