Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2006

Embaixadorzinhos...

Hoje tenho mesmo de deixar aqui o contributo, recebido por mail, de JLM.
De facto, temos que lhe agradecer a dedicação à leitura e contributos para este espaço de má-lingua, mais importante que qualquer Blog do Pacheco Pareira.
Assim:

QUOTE
Boa tarde,

Hoje venho aqui falar de uma coisa que me anda a atormentar...Desde já desculpas pela prolixa mensagem.

Será que existe alguma relação entre a projecção dos países e o numero de individualidades / produtos conhecidas(os) que esses mesmos países têm?
É uma daquelas dúvidas que me assalta frequentemente, e leva-me a cogitar se Portugal é de facto um país conhecido no mundo devido à iconoclastia (ou não) das pessoas que cá temos e tivemos, dos produtos/marcas de que dispomos e fazemos dispôr, etc.

Vamos por partes.

Um país pode ser identificado, não só mas também, pela analogia imediata do quê ou de quem é conhecido a nível global. Ninguem tem dúvidas que ao falarmos do Bush ou da Microsoft, estamos a falar intrinsecamente dos EUA. Quando estamos a falar do Pélé ou do samba, o Brasil surge-nos inevitavelmente na cabeça. E a França aparece-nos no seu esplendor quando falamos de vinho ou quando referimos o nome da Brigitte Bardot. Quer-me parecer que os ilustres referidos, quer se goste deles ou não, são de facto "globais" e identificam os seus países de origem.

E Portugal? Quais as personagens que podem ser associados ao conhecimento universal desses mesmos ao nosso país? Confesso que já foi pior. Agora temos o Durão à frente da UE, temos o Mourinho a dar (e a receber com toda a certeza) cartas em Inglaterra, temos o Figo, tivemos o Eusébio...e pouco mais. E será que a universalidade dos acima ditos é assim tão premente?

Vejamos, provavelmente se formos à Conchichina, Durão será mais sinónimo de bife com batatas fritas do que associado à posição que tem na UE. E Mourinho, Eusébio e Figo estão dependentes acima de tudo da cultura futebolística que um país pode ter, ou não (estão a ver os americanos que nem sequer sabem as regras do "soccer" a perguntarem "Figo who?")

Penso que há diversas áreas que permitem aos países serem conhecidos e reconhecidos a nível mundial. Entre elas, a política, as artes, o desporto, os negócios ou o próprio país e seus produtos, para citar alguns.

Vejamos Espanha aqui ao lado. Tem Velasquez, Dali, Picasso, Miró, Cervantes, Pizarro, Cortez, e até nos roubou o Fernando Magalhães, o Saramago ou o Colombo à Itália. E tem a iconoclástica família real, organizou verdadeiros eventos globais como os campeonatos do mundo de futebol em 1982, os JO de Barcelona em 92 ou a exposição universal (não mundial como a nossa de 98) em Sevilha no mesmo ano. E tem desportistas reconhecidos em áreas como o futebol mas não só. São uma potência no ténis, no golfe, no atletismo, no andebol, basquetebol, agora na fórmula 1 e até, pasme-se, no ski onde inclusivamente ganharam medalhas de ouro nos JO de inverno. E tem ainda um turismo fabuloso, com o maior numero mundial de cidades património Unesco, ou museus como o Rainha Sofia ou o Del Prado. E mais exemplos haveriam como a Tortilha ou a Paella, ou a língua espanhola que é falada por mais de 400 milhões de pessoas.

Se formos a Itália temos os renascentistas todos (Miguel ângelo, Leonardo da Vinci), temos os músicos como o Verdi ou o Rossini, temos a gastronomia, temos a boazona da Sofia Loren e da Cicciolina, e temos a Máfia e a Camorra, instituições conhecidas em todo o mundo.

Outros países há que até são conhecidos por alguns filhos-da-puta que lá habitaram. Nós nem filhos da puta famosos tivemos. A Alemanha teve o Hitler, a Russia o Estaline, o Cambodja o Pol Pot, a Hungria o Atila. Até a Mongólia teve o Ghengis Khan. Nós quando muito tivemos o Salazar que em termos de reconhecimento mundial devia ter para aí um milésimo do seu conterrâneo aqui do lado, o Franco.

E sem ser de filhos da puta, poderia falar ainda de França, India, China, Inglaterra, Russia, Polónia, Alemanha, Brasil, Estados Unidos entre muitos outros. Países maiores que o nosso? Sem dúvida, mas o que dizer de países similares em tamanho e população ao nosso como:
- a Bélgica com a capital Bruxelas sede da UE, com vários produtos belgas famosos (cervejas, chocolates),
- a Suíca (Alpes, relógios, chocolates, bancos, cantões, vacas leiteiras),
- a Holanda (Rembrandt, Van Gogh, as putas e os charros de Amsterdão, o maior porto da Europa, etc),
- a Suécia (gajas muita boas, a Ikea, os Abba - lá está, gajas boas, a Volvo, a Tetra Pak, enfim, bué de marcas)
- ou a Grécia - país que disputa (puta) o maior indice de pobreza com Portugal, mas caramba, os JO nasceram lá, e têm aquela camada toda de ilustres pensadores, que não tinham mais nada para fazer do que cogitar e que...pronto, lá são mais conhecidos do que os nossos navegadores? Dúvidas? o Sócrates (o pensador, não o outro nosso que a esse ninguém conhece) dá uma abada ao Diogo Cão. O Pitágoras que tem um teorema matemático estudado em todo o mundo, mete num buraco o Pedro Alvares Cabral. Só eventualmente o Vasco da Gama pode discutir esse campeonato mas cá para o fundo da tabela (o abaixo assinado é por acaso uma pessoa viajada e quando, nas minhas viagens, dizia que era do país do Vasco da Gama, invariavelmente lá me aparecia a famosa questão - "who?")

Nós por cá contentamo-nos com os (pequenos) "embaixadores":
- vinho do porto - talvez a grande excepção à regra mas que está cada vez mais a ser roubado por outros (é vê-los a serem produzidos na...Califórnia)
- o Saramago (que até mudou para Espanha, e cujo passado (e presente) de bolchevique não abona muito a seu favor)
- o Camões, autor dessa obra universal chamado os Lusíadas (estão a ver uma obra conhecida a nível mundial com esse nome?!?)
- o Manoel de Oliveria (...sem comentários que o gajo de conhecido só por se calhar já estar na vetusta idade de acima dos 90 e ainda fazer filmes(?))
- os nomes já acima referidos num parágrafo anterior dos quais tenho dúvidas que sejam assim tão universais
- o fado (mas quem conhece fado? quem conhece a Amália? O flamenco e o Tango são conhecidos em toda a parte. O fado? conhecem danças de salão ou campeonatos de dança com música fadista? E já agora, porque não o vira do minho para nos tornar famosos?).
Por outro lado, já repararam no orgulho que nos enche a peitaça quando um acontecimento mundial tem base em Portugal? É parangonas de cabeçalhos e primeiras páginas no jornal. Foi ver o campeonato da Europa em 2004 (outra vez o futebolzinho), os prémios MTV, a Expo 98, o nobel do Saramago (nóbeis na América é mato. Os gajos nem devem saber o que um nobel é, mas enfim) - o tal que vive em Espanha e não paga impostos cá, ou ainda a visita do Bill Gates (mas que porra, o gajo veio cá dar uma conferência, era mesmo necessário enchermo-nos tanto de orgulho e abrirmos telejornais por termos tido a honra da visita de brochelência???). E que dizer da pseudo-felicidade que foi termos o Pedro Lamy na fórmula 1. Por momentos parecia que o gajo era o leitmotiv das nossas vidas Ele era anuncios (imbecis) na televisão, era abertura de telejornais sempre que havia um treino nos grandes prémios, etc. Agora temos o Tiago Monteiro que por ter ganho um terceiro lugar (os primeiros pontos alguma vez alcançados por um português na F1) foi assunto de discussão, reflexão e alegria desmesurada durante umas semanas.

Não será tudo isto um sinal óbvio da pequenez que rege o nosso país? Porque será que não promovemos e treinamos verdadeiros ícones, não apostamos em valores, quer sejam eles no desporto, nas artes?...porque é que não incentivamos o marketing de marcas portuguesas para que elas sejam conhecidas a nível mundial? A Benetton começou do nada, caramba...e porque é que temos de ter a já citada mesquinhez de ficarmos todos contentes quando Portugal aparece nos noticiários estrangeiros?? É que até com factos tenebrosos como os incêndios ou o desastre de entre-os-rios, lá aparecem na televisão e jornais notícias a confirmar que o facto foi noticiado lá fora. Julgo mesmo que há da parte de alguns orgulho nisso. Já que não temos assim tantos filhos da puta universais, ao menos que tenhamos desgraças naturais. Um terramoto vinha mesmo a calhar, digo eu.

Ai, é tão bom ser pequenino...
publicado por GERAL às 16:17
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1 comentário:
De RdS a 2 de Fevereiro de 2006 às 11:52
Mágnifico!

Só faltou o Mateus Rosé, esse grande icóne nacional que só as "gajas" estrangeiras bebem não sonhando sequer a sua origem.

Mas para entrarmos defenitivamente na iconoplastia mundial, permitam-me sugira a exportação de algumas personalidades nacionais que de certeza fariam furor na aldeia global: Começando pelo Alberto João Jardim, Pacheco Perreira, MIguel Cadilhe e mesmo o Governador do Banco de Portugal, Victor Constancio, e não esquecendo o Major Valentim Loureiro entre outras individualidades.

Penso que conseguiriamos muito mais manchetes nos jornais desse mundo fora do que o terrorismo ou os problemas de África. Assim que eles abrissem a boca teriamos do nosso lado toda a solidariedade de todos os povos e até o Bob Geldof organizaria um Live Aid para nos ajudar neste sofrimente que é sermos conterraneos destas individualidades.
RdS

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