Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2006

Língua da Terra Estranha... mais conhecida por "lingua de sogra"!

Qualquer cidadão mais atento à televisão, rádio e jornais e que esteja mais atento à nossa língua materna encontra cada “calinada” que mete medo ao susto. Sem querer entrar no debate sobre o ensino, pois acho que o mesmo é despropositado e não é um elemento aglutinador do desenvolvimento nacional, uma vez que a preocupação demonstrada quer pelas autoridades quer pela maioria dos professores do secundário tem a ver com questões de pormenor e não com a qualidade de ensino, julgo que deveremos chamar a atenção para os erros grosseiros na nossa língua.

Analisemos, pois, alguns exemplos:
É muito frequente, quando alguém coloca uma pergunta sobre a opinião do entrevistado surgirem respostas do género:
- “é minha opinião pessoal... bla, bla, bla”
Debrucemo-nos nesta pequena frase. Eu acho que se é a opinião dele, então é pessoal ou será que pode ser algo do género “é minha opinião impessoal...” ou “é minha opinião de grupo...”? Se surgir uma questão impessoal ou de grupo deixa de ser dele... sei lá, digo eu!
- “foi entregue pelo Dr. X, pelo Engº Y e por mim próprio... bla, bla, bla”
Ora aqui está outra absolutamente fantástica. Expliquem-me lá uma coisa: se é entregue por mim, não sou próprio? Ou será que posso entregar por mim impróprio? Sinceramente julgo que se se disser “... e por mim...” já inclui os próprios e impróprios. A não ser, claro está, que exista um clone desconhecido!
- “é absolutamente imperdível!”
Esta é daquelas palavras novas que surgem do nada e entram no uso corrente – nem na wikipedia, em brasileiro, aparece tal referência. Se o prefixo de negação im/in é para ser usado assim, temos várias palavras novas para desenvolver, nomeadamente: impolitico: alguém que não gosta de politica; imburocrata: alguém que não é burocrata nem gosta deles; imgoverno: força política que está do lado oposto e contra o governo; imloira: pessoa de cabelo escuro ou ruivo.
Por outro lado podemos cortar esses ditos prefixos e passamos a ter: becil (por oposição a imbecil): alguém arguto e inteligente; teligente (por oposição a inteligente): alguém tão burro que até dói na alma

Por pouco importante que este assunto possa parecer, o que é facto é que assassinamos a nossa língua todos os dias, começando pela cúpula dirigente. Basta prestar um pouco de atenção e ouvimos na rua:
- quaiqueres, fize-o, quiseo, puseo, vou ligar a ele, há-dem, vivendas germinadas, véstorias, etc, etc, etc.

O desenvolvimento civilizacional das sociedades passa por mais do que simples construções faraónicas ou pequenos (e exclusivos) pólos de investigação. Ouvi ontem, na TSF, uma Professora Doutora a comentar uma notícia sobre a descoberta de um sub-tipo de células que destroem células tumorais. Ora dizia a senhora que “esta... este... “finding” como dizem os americanos... esta descoberta como dizem os portugueses...” o que me faz um pouco de confusão. É que aparentemente, aquilo que os americanos fazem é diferente do que fazem os tugas. Se o comentário é para uma rádio portuguesa, a emitida em território nacional não me parece muito correcto referir que os portugueses têm descobertas e os americanos findings. Para além disso, a equipa de investigadores é francesa mas é melhor não baralhar mais com a introdução de mais um estrangeirismo.

Uma das coisas mais irritantes que pode existir são as pequenas elites (atenção que eles é que se intitulam elites) que tratam a restante população como perfeitos ignorantes. Isso é o mesmo que aquela mania de berrar devagarinho, em português, uma indicação a um cidadão inglês que não percebe corno da nossa língua. Ainda não percebi porque razão berram – pausadamente – em português: “VAI... EM... FRENTE... E... DEPOIS... VIRA... À... DIREITA... ENCONTRA... A... PADARIA... PERCEBESTE?????”. Já lhes ocorreu que o outro pode não ser surdo e não ser português? É quase tão idiota como dizer a um cego para ir frente até uma porta laranja!!

Outra coisa bonita e interessante de se ver neste país tem a ver com a utilização de estrangeirismos. Sei que este tema não é novo mas de facto nós não temos cota de mercado mas market share; não temos os 10 mais, temos top ten; e por aí fora... então na economia e na informática não faltam exemplos.

Retomando o desenvolvimento civilizacional, aqui na Terra Estranha partimos do princípio que somos desenvolvidos porque temos banda larga, telemóveis, televisões planas (ou flat screen para os incautos), TGV, OTA, rotundas, túneis e pontes mas nunca vos aconteceu responderem a um anúncio e não obterem, sequer, uma resposta? Os tugas não respondem a esse tipo de carta. Existe sempre a presunção de negação nestas situações o que é aflitivo. É que não custa nada responder, mesmo que seja para dizer que não. Assiste-se a uma filosofia de desresponsabilização na Terra Estranha que é pouco digna de um elevado índice civilizacional. É que actualmente, quem responde a anúncios, costuma ter caixa de correio (também conhecida por mail box) e basta ter uma minuta para enviar, mas não... nunca respondem! É que o candidato gostava de saber se ao menos receberam o CV ou se os CTT cometeram uma argolada. Para cúmulo, em boa parte dos casos, as moradas vão parar a empresas de vendas por correio que nos enchem as caixas de correio com conversa parva, sem nós sabermos como conseguiram obter o nosso endereço.

Para além disso é tão habitual que já nem notamos, aquela nova espécie de ser: o escarro voador. Automobilista que se preze vai com o braço pendurado na janela (naquela atitude “sou-muito-bom-condutor-e-o-carro-é-meu”) e de repente sai aquela coisa (como diria a investigadora, aquele “finding”) verde pela janela. Existem várias espécies de escarros voadores mas isso não interessa por agora.

O que é inegável é que o chamado “crescimento sustentado” tão caro aos nossos políticos não tem apenas uma perspectiva. É o somatório de vários elementos que compõem a sociedade. Que interessa a mim saber que as escolas estão todas ligadas por banda larga se depois não têm aquecimento ou condições para os alunos? Que interessa a mim saber que o Bill Gates quer dar formação a 1 milhão de portugueses se depois temos um nível de vida mais elevado que os espanhóis e uns salários mais baixos que os espanhóis?
O que será mais importante? O plano tecnológico na sua vertente de investigação e parcerias universitárias ou os mais de 500.000 portugueses que passam fome? É que se por banda larga chegar um bife de pimenta eu assino já!!

MS
Ostres.s33@sapo.pt
publicado por GERAL às 16:07
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1 comentário:
De RdS a 2 de Fevereiro de 2006 às 12:24
Outra coisa engraçada nos estrangeirismos, é que se não forem aplicados pelo locutor, ele fica com medo que os Tugas não percebam que é importante, independentemente de perceberem a notícia ou não.

Ou seja, neste país para se dizer algo importante não chega utlizar a nossa língua, senão condimentarmos com uma inglesisse qualquer é porque não interessa nada.

RdS

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