Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2006

Aprendizagens de uma vida de trabalhador por conta de outrem.

Ser estranho numa terra estranha e trabalhar por conta de outrem é uma aventura digna de um livro épico. Penso que se Heródoto vivesse neste nosso Portugal contemporâneo teria matéria muito mais sanguinolenta para retratar do que na antiguidade (apesar das guerras e outras atrocidades do género que se cometiam na altura).

Vou partilhar alguns conhecimentos muito importantes e de sobrevivência que aprendi nestes quase 10 anos de trabalho por conta de outrem (infelizmente ainda não consegui criar a minha própria empresa).

No início da minha vida laboral, para quem como eu andou 5 anos a marrar na faculdade, quando me aventurei no mercado do trabalho fui cheio de vontade de começar a trabalhar, com espírito de iniciativa, com dinamismo, com ilusões, a pensar (nessa altura pensava) que com trabalho e criatividade teria uma carreira de sucesso.

Chega a realidade, primeiro pecado: sou licenciado! Logo as pessoas olhavam para mim como um animal, o drzinho que estava ali e que não sabia fazer nada de jeito. Ouvi comentários deste género: “Estes gajos que saíem da faculdade vêm para aqui e não sabem nada. Temos que estar a ensinar tudo. Na minha 4ª classe eu sabia de cor as serras, os calhaus, as estações e os horários do comboio/camioneta, ler os cabeçalhos dos jornais, contar até 10 e ver as horas.”. Tudo coisas importantes para exercer com sucesso o trabalho.

Mal eu sabia que estavam TOTALMENTE certos.

Continuando, depois de ter pedido desculpa por ter ousado frequentar um curso percebi que o que interessa no trabalho é: EXECUTAR. Mas executar o quê? Isso não interessa nada. Basta executar e dizer o óbvio depois de algo ter acontecido. De preferência com expressões do género: “ Eu vi logo que isso ia acontecer, se fosse eu ….(de preferência depois do acontecimento ter ocorrido)” ou então (esta é das minhas preferidas) “Eu sempre disse que …. (se tinha dito anteriormente o contrário, isso não interessa, é preciso dizer estas coisas com convicção)”.

Mesmo que o que se tem de executar seja absurdo, uma aberração, o certo é executar, não interessa o porquê de se fazer assim ou para que serve fazer isto, muito menos ousar pensar em sugerir uma alteração…”Há 500 anos que se faz assim, portanto é para fazer assim”.

Aliás, ousar pensar no local de trabalho é o segundo grande pecado. Ninguém paga para que o funcionário pense. Isso é da esfera de competências de alguém muito superior. Um funcionário só tem de executar. Ponto final.

Fazer sugestões ou criar algo novo é o terceiro pecado monstruoso, quase dá direito a despedimento. Terrível, põe o chefe em cheque, além disso se elas, por milagre, fossem implementadas podiam ter consequências imprevisíveis e motivar mudanças. Não pode ser! Essas coisas têm de vir de espíritos muito iluminados, não de um funcionário.

Mas, o que é absolutamente proibido num local de trabalho por conta de outrem é a RESPONSABILIDADE e o ERRO. Primeiro ninguém é responsável por nada, só o Estado e os outros é que são responsáveis por tudo. E errar não é humano, não se pode aprender nada com o erro. Aliás, o ideal é não fazer nada, assim não se erra nem se é responsável.

Outra coisa extraordinariamente importante, o SABER e a COMPETÊNCIA. Aí de alguém que se atreva a dizer que não sabe tudo e que não é o supersumo da competência. Pecado mortal. Os outros é que não sabem nada, não percebem nada disto e competência nem vê-la.

Para ilustrar isto basta participar em reuniões com várias entidades e ouvir as conversas de bastidores: “Isto é sempre a mesma coisa, vêm para aqui dizer umas coisas e com ideias novas…Vê-se logo que não percebem nada disto. Tudo uma cambada de incompetentes. Há séculos que ando a dizer que o que é necessário é uma estratégia (fica sempre bem). Tudo incompetentes, na minha empresa é que é. ”.

Outra coisa muito importante, para ser mais correcto: fulcral na sobrevivência. É absolutamente importantíssimo identificar os líderes de opinião e os chefes com “peso” e segui-los: repetir o que eles dizem, louvar as suas muito doutas palavras (mesmo que sejam repugnantes e destituídas de lógica), idolatrar as suas acções, ser um trapezista (de preferência no triplo mortal encarpado) social no contexto laboral. E nunca, mas mesmo nunca dizer NÃO ou DISCORDAR.

Por último a INFORMAÇÃO. Algo muito precioso, nunca se deve PARTILHAR nada. Aí de alguém que pense o contrário (o melhor, como já disse, é não pensar). A informação é a chave do sucesso. Nunca se passa nada, não vá alguém fazer alguma coisa com ela e obter dividendos.

Truque dos chefes, só passam a informação absolutamente necessária e aquela que se vêm obrigados a ter de partilhar para a execução de alguma tarefa e, mesmo assim, o mínimo possível. Se der azo a algum erro ou a algo menos conseguido por parte da pessoa a quem se passou a informação, óptimo.

Pensando bem, já estou a partilhar muita coisa, que se dane… Eu sou um estranho numa terra estranha (apesar de ter nascido nela) e de vez em quando posso dar-me ao luxo de ser esquisito e fazer coisas absurdas como esta.

RdS (Um S em vias de extinção)
NOTA: Quem quiser participar neste blog é muito bem vindo, envie o seu texto ou mensagem para ostres.s33@sapo.pt.
publicado por GERAL às 11:11
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1 comentário:
De Miguel S a 25 de Janeiro de 2006 às 17:06
Pois é.... já estás a divulgar muita coisa. O incauto que leia o texto fica a saber umas coisitas e já pode chegar a chefe! principalmente se se chamar:
Rebelo de Sousa
Amaral
Soares
Beleza
Santos
e todos os outros nomes estrangeiros tipo
Mirra Amarral
Viktor Cons'tancio
Joseph Sokratex

É este o nosso mundo, ou melhor, a terra estranha

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