Segunda-feira, 10 de Julho de 2006

Querida Flor


Querida Flor,

Escrevo-lhe esta "carta aberta" neste suposto espaço de maldicência (para todos os efeitos foi para isso que o mesmo foi criado), no sentido de agradecer o seu comentário ao meu último artigo intitulado "o regresso à (a)normalidade". Queira crer que é um agradecimento sincero, sem ponta de cinismo ou de sarcasmo.

São vários os motivos para o meu agradecimento. Em primeiro lugar porque, de certa forma, contesta, ou melhor, alerta para certas "injustiças" no meu discurso, e a meu ver, apesar de a maldicência ser o denominador comum deste blog, não quer com isso dizer que as opiniões tenham que ser iguais. Em segundo lugar, porque é bom ver que este blog é lido por mais pessoas do que aquelas que estamos habituados a ler nos comentários ou nos próprios artigos. Por outro lado, congratulo-me de pensar que a sua opinião provem de uma pessoa do injustamente chamado "sexo fraco", ou seja, de uma leitora.

Querida Flor, eu não a contesto quando diz que Portugal tem as suas coisas boas, mais ainda do que as referiu (recordo o Douro, Sintra ou o Alentejo). Tem-nas de facto. Só que, é da minha modesta e humilde opinião que das coisas boas que temos ou as estragamos (já lhes dou uns exemplos) ou então, não tiramos partido delas (também já lhe dou mais uns exemplos).

Veja por exemplo o caso de Sintra que tão bem referiu. A sua paisagem é inclusivamente património mundial (tal como é o Douro - outro exemplo que deu). Mas repare como o concelho de Sintra é um dos mais, senão o mais feio do país com essas amálgamas de betão que pululam entre Massamá e o Cacém. Pergunto, vale a pena ter um oásis no meio do caos? Vale com certeza. Fique-se ao menos com o oásis, mas uma coisa lhe garanto, noutro país da Europa, provávelmente o oásis seria embelezado numa conjuntura arquitectónica mais aprazível do que aquela onde Sintra se insere. E o mesmo poderia dizer do Douro vinhateiro cujo percurso pós-transmontano até à Foz está também ele pejado de abortos urbanísticos, do Alentejo onde agora é moda a classe abastada ter uns montes e onde o belíssimo litoral alentejano está todos os anos a aguardar que um qualquer empreiteiro o transforme num gigantesco campo de golfe na mesma medida que o fizeram nessa região com outrora tantas potencialidades como era o Algarve.

Querida Flor, eu gostava de acreditar que de facto as coisas boas que temos pudessem ser potencializadas, exportadas, desejadas pelo mundo inteiro. Bottomline, são poucos os que conhecem Portugal, os seus produtos, a sua cultura, a sua história, as suas figuras públicas. Já escrevi sobre isso e julgo que não interessa estar a repetir ad nauseum o que já escrevi, mas eu de facto também concordo que um Fernando Pessoa é porventura tão interessante como um Jorge Luis Borges, ou que um cozido à portuguesa suplanta uma paella, só para dar 2 de "n" exemplos que poderia referir. Só que, por falta de marketing ou seja lá porque é, limitamos esse conhecimento e esse prazer a nós próprios, enquanto os outros lutam pela divulgação de tudo o que têm de bom no seu país e no estrangeiro.

Querida Flor, eu sou, por natureza, pessimista, e quero dizer que estando a viver há mais de 30 anos em Portugal, sendo português, torno-me a cada dia que passa mais pessimista com tudo o que se passa cá. Pode-se dizer que isto é apenas uma opinião, e se bem que as opiniões possam divergir e possam ser discutíveis (ao contrário do que diz o ditado popular), existe uma coisa chamada "factos" que, no nosso caso, são infelizmente indesmentíveis. E os factos demonstram que Portugal é campeão no que se refere a acidentes nas estradas, é campeão no que se refere à corrupção autárquica, é campeão do insucesso escolar, é campeão no diferencial entre pessoas ricas e pobres, é campeão de uma série de coisas que nem eu nem julgo ninguém se pode orgulhar do mesmo. Lógicamente que ele há muitos outros países que estão pior ou muito pior do que o nosso, mas eu costumo dizer que a infelicidade dos outros não deve fazer a nossa, e que nos devemos comparar e atingir o nível dos melhores e não dos piores. E a este respeito, estranho que, sendo Portugal um país com 800 anos de história, com as mais antigas fronteiras delimitadas, com um passado histórico relevante, venha a ser ultrapassado por países como a República Checa ou a Eslovénia que sairam há bem pouco tempo daquele espartilho chamado "cortina de ferro", levando-me a pensar que estaríamos nós na idade das trevas se tivessemos feito parte dessa trupe.

Culpados para isso? Se calhar nós temos uma classe governante aquém das expectativas ou mesmo medíocre. Mas estou em crer que a culpa não morre solteira e que se calhar somos todos nós (onde me incluo) culpados pelo "status quo" deste país. Será este um nosso fado? Um país com tantas potencialidades (que acredito que temos), pura e simplesmente desbaratá-las, pensando no presente e não no futuro, gastando aquilo que temos e que não temos?

Recorrendo mais uma vez à terminologia popular, eu também acredito que a esperança é a última a morrer, e pode ser que eu, antes de ir desta para melhor, encontre mais razões do que aquelas que hoje encontro para me orgulhar de Portugal. Razões que estejam para lá da conquista de um 4º lugar no mundial. Razões que me façam sentir feliz por saber que os meus filhos podem augurar muitas coisas boas que este país poderá ou não proporcionar. Nem tudo depende de nós, mas era bom que do pouco ou muito que depende, houvesse alguém - classe dirigente e "povinho português" (atenção que nunca usei esta expressão) - que remasse contra estas negras marés que todos os dias nos assolam.

Posto o acima, querida Flor, fico ansiosamente a aguardar por mais comentários seus, seja a este ou a outros artigos. São e serão sempre bem-vindos.

JLM
publicado por GERAL às 16:27
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1 comentário:
De Rui KN a 13 de Julho de 2006 às 23:08
Pessimismo?? Dizer mal, apenas por dizer??
Julgo que este blog não serve apenas para dizer mal, serve para tentar "limpar" a massa cinzenta de alguns e desse modo, verificar que não estamos no paraíso (longe disso), continuamos pobres e com demonstrações populares de terceiro mundo.
Veja-se a pompa (e enfâse) dada à notícia de que o território português estava, todo ele, ligado através da banda larga. Graças a esta "classezinha" de jornalistas existentes, ninguém questionou o Eng. (já se sabe a universidade onde o sr. sócrates tirou o curso?) a razão de continuarem a existir suiniculturas que despejam os seus resíduos nas ribeiras, sem qualquer tratamento, ninguém questionou qual a razão, de em plena Lisboa apenas existir correio três vezes por semana, ninguém questionou, quais as medidas do programa "simplex" que já tinham sido executadas e no entanto, o Governo afirma que 74% das mesmas já estão a ser implementadas.
Nunca nada é questionado, julga-se sempre que está bem. Basta que um iluminado da sociedade, e não apenas a Lili Caneças, diga que estamos a ir no caminho certo, para tudo ficar bem.
Sintra pode ser bonita, o concelho é um desastre, Lisboa (certas zonas) é bonita, o concelho é um pavor, o Douro é muito bonito, desde que nenhuma tinturaria despeje os seus esgotos nele, o Alentejo é muito bonito, pena é que todos queiram fugir dele, o litoral é muito bonito, pena é que os atentado paisagísticos continuem a acontecer, o sol é muito bonito, mas começa a ser muito perigoso para todos.
Vila de Rei é muito bonita, mas a Sra. Autarca apenas convidou os brasileiros para irem "habitar" no concelho e não fez o convite a nenhum Português. Pena....
É inevitável, já estou a dizer mal do país onde habito. Bolas!!!
Bom, talvez o melhor seja rever todos os jogos do Mundial, desse modo sei que o mundo está em festa e não, como parece, perante um guerra nuclear nos países árabes.
Viva o futebol, o fado e fátima, afinal, eles ainda existem.
Pior que os 3 F's, só mesmo os Morangos com Açucar.

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