Terça-feira, 28 de Novembro de 2006

O Sídroma de D. João V

Ora boa tarde a todas(os)
 
Muitas vezes falamos das nossas dificuldades e dos problemas de sermos periféricos e outras coisas assim para tentar esconder os nossos repetidos insucessos.
 
Sobre periferias, já várias vezes foi mencionado aqui que é uma daquelas tretas que gostam muito de falar mas que o reflexo na realidade é quase nulo. Por outras palavras, como não somos capazes de conquistar nada de relevante em termos daquilo que se entende por sociedade de sucesso moderna, atiramos com a desculpazinha da periferia e pronto... já ninguém questiona ninguém!
 
Mas afinal qual é nosso grande problema?
 
Esta é a pergunta que já devia ter sido feita há muito tempo e que até hoje ninguém teve a coragem de fazer e, pior, tentar responder.
 
Eu acho que o mal da Terra Estranha e dos seus habitantes é viver de vaidades. Podemos ser uns tesos estruturais mas não há nada como viver de aparências... é aquilo que eu chamo de Sídroma de D. João V ou SDJ-V.
 
Eu passo a explicar:
 
Para quem não sabe, D. João V foi mais um dos nossos reis decadentes que, aproveitando momentos de lucidez de antepassados, quando chegou ao poder tinha amealhado uns cobres. Afinal eram as especiarias do Oriente, o Brasil e todas as suas riquezas e mais os territórios africanos que sustentavam um reino que vivia, literalmente, por “conta”.
 
D. João V, no momento atípico de nacionalismo, olhou para os restantes reinos da Europa e verificou que estes se distanciavam de nós. Em primeiro lugar, criaram culturas e tradições mercantilistas que estão na génese dos actuais mercados. Para além disso, ao contrário de Portugal, esses reinos procuravam assegurar os meios de transformação das matérias primas e assim incrementarem os rendimentos sobre algo que compravam com contas de vidro. Introduziam um valor acrescentado, aumentavam as margens de lucro, dinamizavam a sociedade e asseguravam o poderio financeiro e militar para dominarem os mercados com punho de ferro. Portugal, pelo contrário, vendia a SUA matéria prima directamente aos transformadores para de seguida lhes comprar a preços mais elevados, esbanjando numa acção concertada de politicas económicas geniais, os recursos do reino.
 
Ora D. João V não podia aceitar levianamente essas coisas. É que era uma ofensa divina os outros reinos Europeus estarem à nossa frente quando nós “somos um povo de descobridores, conquistadores, que abriu novos rumos e fomos donos do mundo”... (conhecem o discurso não conhecem? Basta ver o Canal Parlamento!). Assim sendo, D. João V fez aquilo que qualquer tuga faz quando se apercebe que tudo está na merda. Organizou uma embaixada ao Papa – que era, nem mais nem menos, o ainda centro de poder da Europa – de modo a mostrar a riqueza, estabilidade e competitividade dos portugueses.
 
Essa embaixada foi a mais rica alguma vez enviada, com elefantes, cavalos ferrados a prata, jóias, sedas, etc, numa ostentação tão grande que o próprio Papa ficou sem palavras.
 
Esta é a origem da doença que nos assola, a SDJ-V!
 
Temos um País que está na merda, sem dinheiro, sem indústria, nem agricultura, nem pesca nem nada. Os outros países da Europa dos 25 estão quase todos à nossa frente. Já não nos atrevemos a fazer comparações com ninguém. Os políticos andam ao desnorte, a corrupção alastra, somos roubados diariamente, etc... mas gostamos de coisas de fachada. É a era das novas embaixadas ao Papa.
 
Não temos dinheiro mas organizamos campeonatos europeus de futebol onde se constroiem estádios que agora estão vazios, apenas para aparecer na TV. Os tipos do Algarve “obrigam” a que seja construído um estádio para dois jogos, as Câmaras ficaram ainda mais endividadas... e durante um mês, andou toda a gente adormecida a ver o futebol e a colocar bandeirinhas.
 
Estamos em crise, mas gostamos de fazer a maior feijoada do mundo, o bolo rei mais pesado do mundo, o TGV mais rápido que os outros, o aeroporto maior que os outros... e tudo porque somos periféricos.
 
Por isso eu digo que na realidade sofremos de uma grave doença colectiva, semelhante a vaidozisse mas bem pior, a SDJ-V que no fundo é tentar viver de aparências.
 
A malta pode andar por aí sem dinheiro mas mostra carros e fatos e outras merdas de marca e em casa... vai mais uma sopinha. O problema nacional é que vivemos para os outros e não fazemos nada para nós.
 
Que raio de feitio o nosso, que é “show-off” e nenhuma substância... e no entanto, lá continuamos.... nas nossas caminhadas em direcção a uma mão cheia de nada!!
 
Eu gostaria que um dia fosse possível fazer algo mais... para além do maior chouriço do mundo!!!
 
Um abraço
 
MS
publicado por GERAL às 17:41
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1 comentário:
De GERAL a 29 de Novembro de 2006 às 12:54
Sopa?

Olha que isso sái caro. Um pãozito e já não é nada mau.

De facto vivemos a plenitude da Fogeuira das vaidades e quem não alinhar é excluído.

O grande objectivo é aguentar o máximo de tempo sem dar o estoiro.

RdS

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