Sexta-feira, 8 de Junho de 2007

As taxas

Caríssimos leitores,
 
Muito boa tarde/dia/noite a todos.
 
Ora bem, a minha veia de escárnio e mal-dizer está a vir ao de cima... outra vez!
 
As taxas de juro, definidas pelo BCE, aumentaram de novo. Apesar de não ser um grande tema ou, sequer, novidade (já nos vamos habituando a estas coisas dos aumentos consecutivos), resolvi trazer este assunto à “baila”.
 
É escusado referir os problemas que este aumento vai trazer aos portugueses. Esses são já bem conhecidos: aumento das prestações da casa, cada vez menos dinheiro para aquelas coisas “desnecessárias” como água, luz, gáz e... comida. Enfim, há que manter o miserabilismo português no seu melhor.
 
O que me incomoda particularmente não é o aumento das taxas, essas são expectáveis face ao egoísmo e ganância do mundo financeiro e económico. O que me incomoda são as promessas de novos aumentos apenas para evitar o “sobre-aquecimento” da economia e, também, o facto de aparecer mais um aumento sem, considero, qualquer necessidade.
 
Em primeiro lugar o que é essa questão do sobre-aquecimento? Estaremos a falar de alterações climáticas? De emissões de dióxido de carbono? De um aumento da temperatura média para 43ºC?
 
Não me parece!
 
Aquilo que os “génios” da economia dizem é que é perigoso que a população tenha dinheiro por causa da inflação. A lógica é, de forma simples, “se-eles-têm-dinheiro-compram-as-coisas-à-bruta-e-os-preços-aumentam-logo-vem-aí-esse-bicho-mau-que-é-a-inflacção-e-depois-temos-de-aumentar-os-salários”.
 
Eu pensava que o objectivo das nações (e dos mercados) era o enriquecimento da sua população. Quanto mais dinheiro a população tiver mais dinâmico é o país e o seu mercado. Mas pensava de forma errada! Aparentemente os “simplórios” da população não podem ter dinheiro no bolso caso contrário causam problemas de proporções bíblicas, tipo as pragas do egipto. É quese eu tiver dinheiro no bolso deixo de comer (e de comprar comida) para ir passar férias à lua ou começar a comprar cuecas com sabor a sagria ou, quiçá, com um massajador peniano!
 
O que me estão a dizer é que eu, pobre e teso tuga, não sei o que fazer com o dinheiro enquanto que a elite existente já sabe o que fazer com ele. Caso ainda não se tenham apercebido, nesta terra estranha necessitamos de alguns bens “secundários” tipo: casa, comida, roupa, tachos, panelas, etc! Por enquanto dispensamos os relógios de cuco de platina ou das cuecas feitas com fios de ouro ou relógios de brilhantes que são comprados por essa tal elite que sabe o que fazer ao dinheiro.
 
Por outro lado, e continuando a seguir algumas linhas de raciocínio económico (se é que ele existe!), eu pensava que a solidez económica das famílias resultava na solidez económica das nações uma vez que usavam o dinheiro que vai além das suas necessidades na compra de bens que justificam a existência das empresas, isto é, que existia uma relação de dependência entre famílias e empresas. Por outras palavras, é com o dinheiro que elas têm que compram os bens produzidos pelas empresas e que justifica a sua existêcia.
 
Mas estou enganado e aí tenho que reconhecer a minha ignorância. Parece que a palavra de ordem, actualmente, é a sobrevivência das empresas sem que as familias comprem os bens por elas produzidos. Digamos que é uma sobrevivência miraculosa, tipo o milagre dos pães da economia!
 
Hoje em dia o lema é crescer, crescer, mesmo que não exista dinheiro para comprar o que produzo!
 
É no minimo estranho e no máximo uma das maiores mentiras e filhas-da-putice da economia!
 
Dizem os “génios” (mais uma vez eles, não eu, que não sou nem quero ser génio) que as coisas não podem ser assim tão lineares nem vistas de uma forma tão simples... mas sabem uma coisa? É que são mesmo!
 
Eles conseguiram levar até à exaustão a ideia de que os mercados se adaptam e são fluídos e não estáticos. É verdade, são sim senhor! Mas o que mais incomoda é que hoje em dia, os governos não têm os “tomates” para tomar qualquer decisão sem pensar no Mercado, essa coisa flexível e adaptável. Vejamos alguns detalhes:
1.     Os mercados são adaptáveis e são, essencialmente movidos pela ganância dos seus actores, isto é, é o desejo de ganhar dinheiro que leva as empresas a produzirem mais bens, maior diversidade e ao nascimento de novas empresas e novas oportunidades;
2.     Dizem-nos que política é a ciência de “gestão” dos países, garantindo a seguraça, crescimento e defesa dos três pilares da nação: população, território e cultura;
3.     ou seja, o mercado é a defesa dos interesses materiais e crescimento económico dos seus actores, enquanto que política é a gestão do bem estar comum e da nação, nação esta onde o mercado está inserido.
Ergo:
  1. o bem estar de muitos sobrepõe-se aos interesses do mercado;
  2. este só existe porque existem populações, afectas a uma nação, dirigidas por políticos;
  3. seria absolutamente natural, então, que os políticos tomassem a decisão mais acertada aos interesses da população e o mercado adaptava-se a essa decisão.
 
O que estou a tentar dizer é que a preocupação fundamental da classe política DEVERIA ser o interesse e bem-estar da população e o mercado faria aquilo para que nasceu, a adaptação a essa realidade. Se não existirem pessoas não existe mercado, se não existir dinheiro ninguém pode comprar os bens oferecidos por esse mercado. É que nunca, em nenhum momento, apareceu um mercado que se preocupasse com as populações. O que existe é um mercado que segue uma lógica puramente mercantilista: tens dinheiro para comprar os bens que te ofereço, muito bem, estou presente. Não tens? Azar, vou para outras bandas!
 
Isto é tão verdade quanto os exemplos trazidos pela globalização. Se o mercado tivesse outra preocupação que não o lucro puro e duro, nunca se daria a deslocalização das indústrias uma vez que estas trazem despedimentos e empobrecimento. No entanto nunca houve qualquer tipo de consideração social no momento da decisão da deslocalização... e é mentira quando dizem que há! MENTIRA, descarada e mal-intencionada!
 
Eu sei que estou a tocar as fronteiras da blasfémia com ideias que se assemelham a comunistóides mas não são. Tratasse apenas de um exercício de humanismo (que é totalmente diferente das teorias comunistas).
 
Para podermos ter a percepção da questão do mercado eis mais um exemplo: quando pegamos num dicionário e procuramos as definições de capitalismo e comunismo, como regimes políticos, vemos que a grande preocupação dessas definições tem a ver com a sua ideia de mercado. Não se tratam de ideais, defesa da população, construções ideológicas, mas sim como o mercado é visto. Isto é particularmete perigoso quando consideramos que o mercado (que apenas tem alguns milhares de agentes) define as regras de milhões de pessoas. Podemos, pois, aferir que actualmente não existe política nem acção política. O que existe é apenas uma manifestação do mercado, sendo a classe política apenas mais uma extensão dos mesmos.
 
Esta ideia choca-me mais, não pelo facto de ser uma realidade e uma consequência dos interesses do mercado, mas sim pela cobardia das populações, dos milhões de miseráveis que se arrastam neste lodo primevo económico e que não fazem nada. É uma questão de condicionalismo psicológico. Sem qualquer desejo de ofensa, isto é o mesmo que aqueles casais em que o homem bate nas mulheres e filhos e ninguém faz nada e quando confrontadas com uma alternativa as vítimas até exclamam “ele até é uma boa pessoa mas de vez em quando tem estas coisas, coitado!”.
 
Pois é. O mercado também é “uma boa pessoa” mas de vez em quando tem estas coisas, coitado!... pena é que “estas coisas” sejam todos os dias.
 
Últimas notas. Eu venho publicamente louvar o papel das gasolineiras em Portugal, lideradas pela GALP, no seu combate ao aquecimento global: é que com o preço exagerado e exorbitante do litro de combustível qualquer dia não existe dinheiro para comprar a “gasosa” logo não andam carros nas ruas e combatemos, definitivamente, o aquecimento global. Eu é que no passado fui muito má-lingua quando critiquei o aumento constante de preços dos combustíveis e não me apercebi desta “nuance”. Lamento e por isso me retrato publicamente. As gasolineiras não estão aumentar os preços apenas porque querem aumentar os lucros, estão a tratar do bem do planeta!!
 
Assim como os “analistas” económicos falam que as taxas de juro ainda deverão aumentar mais umas duas vezes (embora seja expectável que as taxas de juro cheguem aos 5% - eles dizem expectável com um ar sério e olhar de barracuda pois sabem que esse é o objectivo final, de há 2 anos a esta data), também eu, “como analista”, afirmo que é expectável que o preço da gasolina sem chumbo 95 chegue a um valor de 1,5 euros. Sabem, é que já há muito tempo que os especialistas do petróleo “pensam” que é provável que o preço do barril chegue aos Usd 100 por barril. E é nesse sentido de “probabilidade” que qualquer desculpa serve para aumentar o preço do petróleo. Se o Xeique Abul Na-Conassa está com prisão de ventre, aumenta o preço, masse o mesmo Xeique tem um caso de soltura intestinal, aumenta também... hum! Deve ser um problema de merda!
 
Voltarei em breve
 
Um abraço
 
MS
publicado por GERAL às 14:36
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1 comentário:
De GERAL a 8 de Junho de 2007 às 16:24
Ora viva!

Folgo em ver que a "veia" critica está de volta. De facto é incrivel ver como é que o "mercado" funciona em Portugal. A começar pelo Estado, essa grande máquina dinamizadora.... Sim é verdade, o Estado é que impulsiona esta situação e dá o exemplo. Comecemos pelos impostos, talvez dos mais elevados da Europa, senão mesmo do mundo, de seguida passemos para as taxas, emolumentos, selo, etc...

Como tudo aumenta e aumenta e aumenta, qualquer dia somos conhecidos pelo país dos mágicos, só sendo muito especial é que se consegue viver no meio desta roubalheira, ups, quero dizer, neste "mercado".

É caso para dizer: "A pobreza também tem charme!"

Um abraço,
RdS

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