Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2007

A contínua perda de identidade

Buenas tardes,

 

Sim senhores e senhoras. Em espanhol que é o que está a dar. Ao menos lá, há um soberano que não se importa, tendo-os no sítio, de mandar calar um ditadorzeco de meia tigela com o nome de Chavez. E está a dar porque já há muuuuuito tempo que a Espanha, económicamente (e não só) falando, já tomou conta de Portugal. Pena é que ao tomar conta de nós (salvo seja) Portugal não consiga colher os benefícios que nuestros hermanos têm, ou seja e entre outros, melhores salários, generalidade dos bens de consumo mais baratos, melhores condições de vida, uma (muito) maior projecção internacional em vários aspectos desde o cultural ao desportivo, desde o político ao lazer.

 

Bom, mas não é só de Espanha que eu quero falar. Já estou farto de escrever sobre Espanha. E farto de me sentir português com todos os males que isso me acarreta. Orgulho nacional? Mas que orgulho nacional? Pela selecção de futebol e pendurar bandeirinhas nos carros e nas varandas? O que é que eu posso, perante um estrangeiro, alegar para dizer que Portugal é um grande país? Já fomos. Agora não somos. E já não somos desde há muito tempo. Deixa-me cá ver mesmo assim indo ponto por ponto. Pelo menos naquilo que eu acharia mais relevante:

 

  • Económico – Se se tratasse de uma corrida de carros, estamos a ser ultrapassados por outros “bólides” que vêem a meta comum mais perto e nós cada vez mais longe. Basta ler e ouvir os dados das Eurostatts, do FMI, da OCDE, da UE, entre outros, para ver que ali o Chipre já é mais avançado do que nós;
  • Turístico – sim senhor, já que estamos a transformar tudo em campos de golfe...e o resto? Que dizer da paisagem urrbana que estragámos ao longo dos anos? Hei-de escrever mais sobre isso num artigo que chamarei de Autarquitectura (pelo menos nome já há)
  • Desportivo – Cristiano Ronaldo, Cristiano Ronaldo, Cristiano Ronaldo...e..ah...Cristiano Ronaldo
  • Cultural – pois...exposição do Hermitage...que é russo. E um prémio Nobel recente cujo atribulado mais valia ir fazer companhia ao seu ídolo Fidel para ver o que é a verdadeira democracia
  • Político – sem palavras

 

E outros que mais...ou que menos neste caso.

 

Não bastando o acima, deparo-me amiúde com crónicas  sobre as novas imposições a serem tomadas a partir do dia 1 de Janeiro. Imposições da União Europeia às quais os nossos governos, quasiquer que eles sejam ou fossem, aceitam e assinam de cruz, provávelmente à espera que ao vergarem-se sobre elas, consigamos mais uns milhõezinhos para ajudar a pagar os deslizes orçamentais das construtoras quando estas começarem a construir as novas obras programadas da OTA (sim, será a OTA que é mais cara e menos eficiente)  ou do TGV, aquele que entre Lisboa e o Porto terá 7 paragens no caminho para delícia de vários autarcas, e que como tal, reduzirá o tempo de viagem em cerca de 30 minutos face ao que já existe.

 

A burocracia europeia veio para ficar.  Burocracia? Não, Burrocracia. Eurocracia? Não, Errocracia.

 

Confesso que gosto mais de escrever opiniões do que pura e simplesmente citar outras. Mas é algo que já fiz neste espaço, e volto a fazer para que os (poucos) leitores percebam melhor do que estou a falar. E assim cito (esperando que não me obriguem a pagar direitos de autor) o brilhante artigo do António Barreto no Público, apelidado de “Eles estão doidos” que básicamente resume (ou alonga) o acima. Tomem nota:

 

QUOTE

A MEIA DÚZIA DE LAVRADORES que comercializam directamente os seus produtos e que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente. Os proprietários de restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham, preparam-se, depois da chegada da "fast food", para fechar portas e mudar de vida. Os cozinheiros que faziam a domicílio pratos e "petiscos", a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações. Todos os que cozinhavam em casa e forneciam diariamente, aos cafés e restaurantes do bairro, sopas, doces, compotas, rissóis e croquetes, podem sonhar com outros negócios. Os artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados.

 

A SOLUÇÃO FINAL vem aí. Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velho mundo, sobrará. Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda a gente está condenado. Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm Estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se no governo nacional, sob tutela carismática do Ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho; e agem através do pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelas multinacionais da gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios do açúcar.

 

EM FRENTE À FACULDADE onde dou aulas, há dois ou três cafés onde os estudantes, nos intervalos, bebem uns copos, conversam, namoram e jogam às cartas ou ao dominó. Acabou! É proibido jogar!

 

Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico.

 

Vender, nas praias ou nas romarias, bolas de Berlim ou pastéis de nata que não sejam industriais e embalados? Proibido.

 

Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtude fazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos.

 

Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem, ao lado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde, coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido.

Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido.

 

Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido.

 

Usar, na mesa do restaurante, um galheteiro para o azeite e o vinagre é proibido. Tem de ser garrafas especialmente preparadas.

 

Vender, no seu restaurante, produtos da sua quinta, azeite e azeitonas, alfaces e tomate, ovos e queijos, acabou. Está proibido.

 

Comprar um bolo-rei com fava e brinde porque os miúdos acham graça? Acabou.

É proibido.

 

Ir a casa buscar duas folhas de alface, um prato de sopa e umas fatias de fiambre para servir uma refeição ligeira a um cliente apressado? Proibido.

 

Vender bolos, empadas, rissóis, merendas e croquetes caseiros é proibido. Só industriais.

 

É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas especiais e com fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos.

 

Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há trinta anos? Proibido.

 

AS REGRAS, cujo não cumprimento leva a multas pesadas e ao encerramento do estabelecimento, são tantas que centenas de páginas não chegam para as descrever.

 

Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem de haver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto.

 

Na cozinha, tem de haver uma faca de cor diferente para cada género.

 

Não pode haver cruzamento de circuitos e de géneros: não se pode cortar cebola na mesma mesa em que se fazem tostas mistas.

 

No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta "produto não válido", mesmo que esteja vazia.

 

Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessa operação.

 

Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda.

 

Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido.

 

Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico, papel ou tecido.

 

Torneiras de abrir e fechar à mão, como sempre se fizeram? Proibido. As torneiras nas cozinhas devem ser de abrir ao pé, ao cotovelo ou com célula fotoeléctrica.

 

As temperaturas do ambiente, no café, têm de ser medidas duas vezes por dia e devidamente registadas.

 

As temperaturas dos frigoríficos e das arcas têm de ser medidas três vezes por dia, registadas em folhas especiais e assinadas pelo funcionário certificado.

 

Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos? Proibido.

Tem de ser de plástico ou de aço.

 

Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta com a data e a hora do corte.

 

O dono do restaurante vai de vez em quando abastecer-se aos mercados e leva o seu próprio carro para transportar uns queijos, uns pacotes de leite e uns ovos? Proibido. Tem de ser em carros refrigerados.

 

TUDO ISTO, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde.

Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro.

UNQUOTE

 

Só com o artigo acima, fica este muito longo. Mas não posso deixar de tecer mais umas considerações. Principalmente quando ainda hoje ouvi um reforço do acima num artigo radiofónico do João Gobern na Antena 1. E que confirmava o acima, mas punha a cereja no topo do bolo. Ou a gota de água que faz transbordar o copo (de plástico, entenda-se) Aparentemente, vamos deixar de poder beber cerveja em copos de vidro. Leram bem, acabou-se a tradicional imperial, aquela que dava gosto de beber com os copos de vidro gelados, esses micróbios virulentos, sendo que no entanto eu tenha a esperança de ter ouvido mal. Cerveja em copo de plástico? Fooooooooooooda-seeeeeeee. É pior que sexo com duplo preservativo. Pior do que ouvir boa música com os ouvidos tapados com algodão. Pior do que cheirar o Chanel 5 (que até nem gosto muito) dentro de uma latrina acabada de ser usada.

 

Há pior perda de identidade do que aceitarmos à força decisões que apelidarei como contra-culturais (utilizando um eufemismo)? Vamos todos estar sujeitos a autoridades como a Asae que qualquer dia nos entra em casa multando-nos por estarmos a comer uma alface da horta da tia Matilde? De que valerá a pena reclamarmos sobre a qualidade de um pastel de nata feito em escala industrial, quando os da avó Maria eram perfeitos, e depois de 30 anos a comê-los nem um leve vestígio de alergia. E porque raio hei-de eu ter que ter talheres de cores diferentes para comer pratos diferentes num restaurante, eu que até gosto de partilhar os pratos que escolho com a minha mulher. A que vou estar eu sujeito? A coisas do tipo, “olhe lá, o senhor está a partilhar o bacalhau da sua mulher (salvo seja), e como tal, não pode usar a faca vermelha com que está a cortar a morcela (salvo seja outra vez). Tem que ser roxa”.

 

Mas há mais, no que se refere a perda de identidade. Iremos um destes dias assinar o novo acordo ortográfico, que já se ouve aí à boca cheia, e onde palavras tão antigas, e com tanta razão de existirem pela sua etimologia, ou pelo seu léxico, hão-de ser substituídas pelo português do Brazil. E falaremos o brasileiro de Portugal. Dizem que será mais fácil e uniformizador para os países da CPLP. E porque raio não substituír o “brasileiro” (que não existe como língua) pelo nosso português? Nããã... eles são muitos. E fazem mais novelas do que nós. E como tal, teremos cada vez mais homónimos, coisa que é sempre boa, principalmente para ensinar as nossas criancinhas. Assim, é crível que “pacto” passará para “pato”, sendo difícil depois distinguirmos o “pato com laranja” do “pato de coesão” (no fundo temos que engolir ambos, pelo que o homónimo aqui até está bem empregue). Ou ainda o que o “acto” que poderá passar para “ato” , e assim teremos frases como “o ato sexual” que fará pulular na imaginação das senhoras uma forma de dar um nó nos falos.

 

Nós gostamos de ser uma “cona aberta” (o título bem poderia ser a perda da virgindade – a 452ª na nossa história recente). Mas eu recuso-me a ser ainda mais fodido com coisas como estas. Mas haverá opção...? Acho que vou ter que engolir tudo isto. Tal como o faço com o pato de coesão.

 

JLM

 

 

 

publicado por GERAL às 18:26
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1 comentário:
De GERAL a 5 de Dezembro de 2007 às 17:27
Excelente!

Muito bem apanhado" Somos "Pato à lá coesão"!

Tens razão, esta situação já extravasou os limites do tolerável há muito. Só que a culpa é toda nossa, continuamos, qual patos, a votar nos energumenos que nos governam sem exigir a devida responsabilização.

Estas "merdas" acontecem por que temos uns xulocrátas que vão para a Europa engordar, defecando em grande em todos nós.

Um abraço e continua,
RdS

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