Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008

Saúde, Santinhos e Lucky Strike parte II

 

Ora bom dia (que o dia tem 24 horas)

 

O nosso MS já fez no artigo anterior uma retrospectiva do ano de 2007. Retrospectiva lógica como só o poderia ser. Por isso não vou maçar os 9 leitores usuais deste blog. Vou antes falar de tristeza e desejos políticos para este ainda imberbe ano.

 

Tristeza porque me sinto triste. Triste com determinadas situações provindas da suposta boa gestão do nosso governo. Nomeadamente em áreas que deveriam ser consideradas como vitais para a nossa sociedade, ainda há dias realçadas pelo nosso Presidente da República, se bem que tenhamos que dar o devido desconto que ele é homem que já esteve 10 anos a chefiar governos, e nestas áreas específicas o mínimo que se pode dizer é que esteve muito longe de brilhar.

 

Porque me sinto triste? Porque há dias ouvi que a maternidade de Chaves ia fechar. Fechou entretanto. E Chaves como cidade e como concelho diz-me bastante. Toda a minha família paterna lá nasceu e ainda hoje tenho diversos familiares que lá moram. Provávelmente com ideia de irem morar para outras paragens mais litorais.

 

Eu não nasci em Portugal. Nasci em Moçambique nos tempos da outra senhora (e como isso me faz velho). Nasci numa cidadezita chamada de Nampula, norte de Moçambique. E nasci numa maternidade como é natural que as pessoas nasçam. Maternidade em Nampula, Moçambique. Moçambique – hoje em dia um dos países mais pobres do mundo. Mas que tem uma maternidade.

 

Nós, que pretendemos ser um dos países mais avançados e desenvolvidos no mundo (mas que não seremos até à 4ª geração a partir da actual, e sendo optimista) não temos materniadade em Chaves. Assim como deixámos de ter outras maternidades, e “n” centros de saúde no país.

 

Eu pensava que o motivo era a poupança de uns cobres ao Estado. E concordo que sectores como a saúde ou a educação são sectores onde se gasta muito dinheiro (comparando percentualmente com países mais desenvolvidos e que já o são da 4ª geração para trás) mas mal. Gastar é o verbo. Não o verbo investir. E como há muito dinheiro mal gasto, faça-se um exercício simples e fechem-se serviços de saúde que anteriormente existiam para bem da população residente. É fácil, seria barato, e daria milhões a alguém.

 

Mas o nosso ministro da saúde, uma verdadeira alimária que nunca deve ter pousado um pé num hospital público, veio desmentir esta minha ideia ao dizer inclusivamente que com o novo sistema o estado gastaria mais dinheiro.

 

Ora bem...deixa-me cá ver se entendi..

 

Portanto, o Estado, ie, nós, gastamos mais dinheiro. E o serviço é pior. Conjuga-se então o pior dos serviços com o pior dos preços, numa análise tipo empresarial.

 

Todos os dias aparece um iluminado governamental ou com este relacionado a dizer que um dos principais problemas do país é a desertificação do interior e zonas não urbanas. E para isso legislam-se coisas como não cobrar portagens nas auto-estradas que servem o interior. Assim como se dão privilégios a quem investir no interior em projectos de luxo, tipo campos de golfe (ao que ouvi, lá para o Alqueva, projectos deste tipo é o que não faltam). Tudo isto para dinamizar o interior, esperando que os tugas e a classe média dos turistas vão para lá passear de carro sem pagar portagens e dar umas tacadas na bola de golfe (quiçá com subsídio estatl ou desconto no IRS na compra de tacos). Querendo pois que mais e mais habitantes vão para o interior. Mas quem é que irá para o interior se deixam de existir serviços básicos de saúde, se deixam de existir serviços básicos de educação com a quantidade de escolas fechadas por critérios aparentemente também economicistas (na volta até vão dizer que gastam ainda mais dinheiro por pôr uns autocarros escolares no trajecto entre Vila Nova de Foz Cõa e a Guarda). Eu, que gosto do interior de Portugal pela sua (ainda) não muito estragada paisagem rural e urbanística, não teria coragem de ir viver para a terra dos meus progenitores – Chaves. Porquê? Porque não quero que um segundo filho que gostaria de ter nascesse numa ambulância. Porque eu, há 36 anos atrás tive o privilégio de nascer numa materniadade. Em Nampula. Em Moçambique.

 

Corre-se mesmo o risco de daqui a uns anos, respondendo a uma simples pergunta de “onde nasceste” haver uma significativa parte de tugas a responder algo do tipo “nasci numa ambulância de matrícula 69-BX-47 ao kilómetro 68 da sua viagem entre a Torre do Ervededo e Vila Real, e fui assistido à nascença pelo maqueiro que devido a ter um irmão que trabalha no talho, lá conseguiu cortar o cordão umbilical, se bem que agora seja conhecido pelo umbiguinho”. Claro está que se houvesse maternidade em Chaves, a distância entre a Torre do ervededo e Chaves, de 12 kms, provávelmente significaria o sortilégio de um qualquer Barnabé poder nascer numa maternidade. Em Chaves.

 

Bom, é a saúde que temos e merecemos. Mas há mais. Numa acção pró-moderna, lambedora dos cús norte-americanos onde tudo isto começou, lá foi decidida a proibição de fumar em recintos públicos, restaurantes, bares, cafés, discotecas. Eu não acredito que seja para bem da saúde dos portugueses. Para bem da saúde dos portugueses não se fechavam maternidades. Pelo menos em Chaves. Não me vou alongar muito nesta questão do tabaco. Já aqui escrevi um post chamado de Lucky Strike algures no tempo. Está lá a minha opinião sobre toda esta tabacofobia. Fumar mata. Assim como tantas outras coisas. Vou criar aliás (julgo eu) uma frase do tipo La Palisse – Viver mata (ou seja – é preciso estar vivo para morrer).

 

Por outro lado, ouvi agora dizer que o Governo tenciona acabar com o nome de escolas que façam alusão a qualquer referência eclesiástica. Ou seja, já não será permitido haver um colégio que se chame, por exemplo, Santa Catarina. Portanto, após a maternidadofobia, tabacofobia, agora, e em nome do laicismo, temos a Santofobia. O que me apraz dizer é que quer-se queira quer não, quer-se concorde com a igreja quer não, quer se seja religioso quer não, o que é certo é que Portugal tem uma tradição religiosa. Católica. E este propósito não é de exacerbar e impôr a laicização, mas apenas um propósito fundamentalista. Como a lei das maternidades. Como a lei do tabaco. Corremos pois o risco de haver cidades, concelhos, bairros do tipo Santo Estevão, Santa Engrácia ou o que quer que seja, para termos as terminologias sem o Santo atrás. Lógicamente cortaremos relações diplomáticas com países como São Tomé também. E a Universidade católica será a universidade laica, e socilaista como o Mário Soares. E claro está, livremo-nos de dizer “santinho” quando alguém espirrar (há que inventar uma palavra laica para o efeito..porque não...Soares?) Isto ao mesmo tempo que já foi notícia de primeira página e de abertura de telejornais chamarem-se determinadas ruas de Álvaro Cunhal. O Álvaro, sim. Esse grande anti-fascista, defensor de ideia modernaças, e que chegado ao poder tivesse, deixaria Salazar num canto. O Cunhal, o único dirigente comunista na Europa que defendeu em 1968 o término (trágico) da Primavera de Praga. Estão a ver, não é, a hipocrisia das coisas. Deixem lá o nome dos santos que nunca fizeram mal a ninguém, pá. Não estamos a falar de fundamentalismos religiosos como aqueles que existem no Paquistão.

 

Ora bem, todos estes temas estão relacionados com um desjeo meu para 2008. Que o nosso não-estimado ministro da saúde esteja a jogar golfe no interior  apanhe um ataque de hemorróidal e viaje 100 ksm a bordo de uma ambulância até ao centro de saúde mais próximo em Santa Comba Dão. E que aproveite após a sua (não querida) recuperação, visitar o muito contestado (também por mim) museu do Salazar. De charuto na mão que esse não seria multado.

 

É o meu desejo político para este ano.

 

Bom ano para todos.

 

 

JLM

 

publicado por GERAL às 23:52
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1 comentário:
De GERAL a 4 de Janeiro de 2008 às 14:51
Desejos amenos, olha que por enquanto não pagas IRS por desejar.

Deixa estar eu desejo por ti:

Em 2008 Desejo uma catástrofe política. Depois de muito sofrerem (irtugária em último grau nas zonas pubicas, até sangrarem de tanto coçar) e sem abulâncias, que o INEM só acuda quem ligue primeiro para o 112 e não estou a ver ninguém a ligar por causa dos nossos ministros, desejo simplesmente que todo o staff minesterial vá para 7 palmos abaixo da terra.

RdS

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