Domingo, 20 de Janeiro de 2008

Ambiguidades Económicas ou o descalabro da globalização na sociedade civil.

Nos últimos tempos tenho vindo a ouvir cada vez mais alertas sobre a degradação socioeconómica na Terra Estranha, vulgo “tugolândia”, como se fosse algo muito surpreendente ou não previsto.

Diminuição do poder de compra, redução do mercado, poucas perspectivas de investimento sustentado, diminuição da qualidade em praticamente todas as vertentes de produtos ou de negócios, níveis de índice de confiança a bater recordes sucessivos de pessimismo, aumento do desemprego, falência das famílias, crédito mal parado sempre em crescimento e atingindo níveis históricos, exterminação da classe média, empobrecimento da população, dificuldades gerais no nível de vida de grande parte dos portugueses, etc...

Qual é a surpresa??

Esta situação acaba por ser um corolário lógico das alarvidades de “management” que se iniciaram nos princípios dos anos 90, quando a paranóia economicista de redução de custos em detrimento de uma lógica do investimento orientado para retornos sustentados assaltou as principais corporações e proliferou por esse mundo fora, incluindo este nosso pequeno quintal da Europa.

De facto, a orientação estrita em função de “números e indicadores”, sem tomar em conta toda uma envolvente sistémica onde a organização se insere e actua, tinha de acabar por desaguar numa entropia do próprio desenvolvimento das nações e dos mercados. Só podia ser este o resultado. A perspectiva e a visão de curto de prazo, do chamado “lucro fácil e rápido” sem ter em consideração os “ventos que semeiam são as tempestades do futuro” comportam, inevitavelmente, problemas em fases posteriores.

No entanto estes últimos quinze anos têm sido sintomáticos desta realidade. Deixem-me explicar melhor. Vou começar por um pequeno exemplo, as Lideranças de curto prazo. Reparem, é uma característica que tem vindo a crescer exponencialmente em todos os sectores políticos e económicos das diferentes sociedades no mundo considerado civilizado.

 A volatilidade de liderança nos partidos, nos governos, nas organizações e nas empresas é cada vez maior. Dizem que é sinal de dinamismo e da necessária adaptação às novas realidades, uma constante introdução de inovação e de rejuvenescimento e que só assim será possível a dinamização e o desenvolvimento constante e em contínuo crescimento.

 Mas será mesmo??

Desculpem eu questionar tantos gurus da gestão que defendem e aplaudem esta filosofia organizacional, mas tenho algumas dúvidas que o sistemático recurso a medidas e planos de curto prazo sejam realmente a melhor solução para qualquer país ou organização, independentemente da sua dimensão.

O que é que temos vindo a assistir nesta matéria???

Quando se assume um cargo, seja de Ministro, seja de presidente de uma empresa, de chefia de qualquer departamento, ou outro qualquer, com mais ou menos poder, existem à partida determinados factores que vão condicionar automaticamente desempenho da função. É INEVITÁVEL!!

Acham que não??

Um político, que “esperança média de vida” tem num determinado tacho? Será curto ou longo? A resposta está intrinsecamente ligada à “envolvente” que lhe atribuiu a tarefa, ou seja, quem votou e quem o projectou para poder ser votado e eleito. Na balança de factores surgem logo as “dividas” que tem de ser saldadas rapidamente, será isto compatível com uma análise das reais necessidades da função??

Reparem, não é só na politica, qualquer gestor que ascenda a determinado patamar vê-se confrontado com a aplicação imediata de medidas que satisfaçam os seus “stakehoders”, quem o meteu no tacho, mais uma vez a lógica do rápido pagamento da dívida em detrimento do longo prazo. Ele sabe que a sua “vida útil” não será muito longa se não for satisfazendo expectativas imediatista de elevados retornos.

Onde se vê isto?? Olhem para as contraditórias medidas politicas que têm vindo a ser defendidas por governantes que, na sua esquizofrenia de agradar a tantos “stakeholders”, acabam por implementar absurdidades com consequências extremamente nefastas no longo prazo. As áreas da educação, saúde, organização do território, politica de impostos, constituem exemplos de excelência.

Dificilmente iremos ter melhores profissionais com as medidas administrativas de incremento da formação. A formação, independentemente do grau auferido, deve ser melhorada e sustentada com base em critérios qualitativos e do efectivo conhecimento adquirido e não para cumprimento de objectivos e de indicadores estatísticos.

Por exemplo, no que diz respeito à formação superior, não consigo descortinar o grande salto evolutivo derivado da implementação das novas medidas Bolonhesas, que consubstanciam numa generalizada redução de disciplinas e de matérias na maioria dos formatos académicos. Será isto positivo??

Vejo uma aplicação pratica imediata, o aumento exponencial de Recursos Humanos supostamente de qualificação superior vai, segundo a mais antiga Lei da Oferta e da Procura do mercado, banalizar, inundar e afundar, pelo seu excesso de oferta, um mercado trazendo a consequente diminuição dos preços e dos custos, de forma generalizada. Quem beneficia? A curto prazo, as organizações, supostamente terão recursos “mais qualificados”, mas não demasiado qualificados, apenas o suficiente para desenvolver com eficácia as suas funções, com muito menos custos e muito mais “”lucros?””.

Se entrarmos na Saúde.. Bom, aqui os erros são gritantes!!

Para começar, o princípio de se aplicar a contabilidade dos feijões (bean counting) à política de gestão de comparticipação e aquisição de medicamentos, sob a suposta capa da moralização do mercado da saúde, é um ultraje. A estratégia de racionalização da oferta do “acesso à saúde”, como se este serviço fosse o mesmo que distribuir pastilhas elásticas por cães e gatos, raia o limite do absurdo. Nem me atrevo a pegar nas questões relacionadas com atendimento, cirurgias ou internamentos.

Qual o resultado futuro?? Aumento generalizado de “problemas” de saúde e da sinistralidade nacional. Lindo!!!

Quanto à organização do território, bem...nem sei por onde começar...para já, onde é que está a “organização do Território??? No bolso de alguém, com certeza! A menos que se chame organização a este puzzle incoerente que grassa de Norte a Sul do país apenas “colado” pela própria geografia e morfologia da terra. Por que de resto...

Vou para a Politica Fiscal! Para ser mais correcto, eu devia dizer: Politica de Assassinato Económico! Como é que é possível assistir indiferente ao assalto organizado, verdadeiro benchmarking mafioso, que tem sido implementado, com força de Lei (diga-se de passagem), nos últimos anos!!

Verdadeiro exemplo da mais asquerosa estratégia de curto prazo jamais vista. Palavra de ordem: Aumentar, aumentar, aumentar impostos...medidas eficientes de resolução da conjuntura económica: Zero!!

Ou seja, asfixia do consumo, restrição do investimento, diminuição do mercado, redução das receitas...entropia económica no seu melhor. Estes “gajos” só vão estar contentes quando regressamos à “economia de trocas directas”. Cada um produz no seu quintal e troca com o vizinho. Verdadeiro exemplo evolutivo. Será que ninguém entende que quanto menor o poder de compra do mercado alvo, menor o consumo, menor o investimento, menor a receita, menor a receita menor o poder de consumo, menor poder de consumo implica menor mercado, logo menor o investimento (investir para quê)...pescadinha de rabo na boca!!!

Nem vale a pena entrar nas questões ligadas à ENERGIA ou ao ambiente. Passo directamente para o fim. A crise mundial que se avizinha é o corolário lógico do falhanço utópico de uma economia global com raízes em estratégias GLOBALIZADAS de curto prazo.

Já me alonguei demasiado e deixei de fora muitos outros pontos, talvez no futuro retome este assunto...

RdS

publicado por GERAL às 00:01
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2 comentários:
De xxx a 21 de Março de 2008 às 22:57
Adorei, há muito tempo que não me ria assim. Tens muito sentido de humor, consegues caricaturar as actividades da vida diária.
De CarlosJ a 8 de Junho de 2008 às 23:35
João da Ega??

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