Terça-feira, 20 de Junho de 2006

Defensor da Liberalização

Olá a todas(os)

Hoje ouvi na rádio que, segundo um dito Observatório para assuntos da saúde, os medicamentos vendidos dentro e fora das farmácias NÃO sujeitos a receita médica estavam mais caros do que antes da aplicação das medidas de liberalização do Governo.

Ao contrário do que possa transparecer nas linhas seguintes, eu sou defensor da liberalização e, em simultâneo, do papel fiscalizador/controlador do Estado. Como anteriormente referi (vide “Um S em terras de sua majestade”) estive este ano em Londres – considero-a uma cidade fantástica, onde numa única rua podemos encontrar o mundo – e entrei numa (bem, até foi em mais que uma porque a mulher queria uma porcaria de uns cremes que não lembram ao diabo...) farmácia e pude verificar a quantidade de medicamentos disponíveis sem receita médica.

O que achei mais interessante foi, em primeiro lugar, os preços praticados (aspirinas mais baratas que em Portugal) e em segundo lugar, a crer nos génios que pululam na Terra Estranha, a tendência kamikaze dos “britishis” uma vez que existia uma enorme variedade de medicamentos que qualquer tresloucado poderia comprar e tomar, como se de smarties se tratasse. A realidade, contudo, é que tanto lá como cá as pessoas não andam a tomar medicamentos de empreitada apenas porque os podem comprar. Os casos que existem, são casos clínicos lá, como cá, como em qualquer ponto do mundo.

Ora, voltando ao assunto que me trouxe aqui, eu sou um defensor da liberalização. De acordo com a wikipedia (é de borla e é óptima), o liberalismo económico é: As teses da economia liberal foram criadas no século XVIII com clara intenção de combater o mercantilismo, cujas práticas já não atendiam às novas necessidades do capitalismo. O pressuposto básico da teoria liberal é a emancipação da economia de qualquer dogma externo a ela mesma. Outro ponto fundamental é o facto de que todos os agentes económicos são movidos por um impulso de crescimento e desenvolvimento económico, que poderia ser entendido como uma ambição ou ganância individual, que no contexto macro traria benefícios para toda a sociedade, uma vez que a soma desses interesses particulares promoveria a evolução generalizada.

Por outras palavras e resumidamente: é a permissão dada aos indivíduos para que possam exercer a sua tendência natural de ganância, sem qualquer controle, com a desculpa que o próprio mercado irá actuar sobre eles, numa lógica de oferta e procura que regulará o valor do bem (que na perspectiva económica, é sempre escasso). Ora, o mercado – essa estranha entidade que umas vezes aparece e outras não – está-se nas tintas para o cidadão. Confusos? Eu explico! É que supostamente, o mercado é composto por todos os seus elementos – quem oferece e quem compra – mas sobrepõe-se a eles sempre que as “regras” definam/apontem para uma redução de valor.

De acordo com o liberalismo económico – que por acaso vem do século XVIII, que por acaso vem de uma altura onde a dinâmica social era diferente, que por acaso vem da altura em que o totalitarismo (como filosofia de quem manda é um, o Rei, e mais nenhum) até era bem visto, que por acaso ainda se estava na fase de nascimento de proto-empresas, que por acaso corresponde ao nascimento dos primeiros economistas – a ideia é a de que deixem a ganância agir à vontade, não perturbar a acção do mercado por factores externos (como por exemplo o controle social ou o controle do Estado) que depois “alguma coisa” irá tratar de ajustar as coisas, mas como a “coisa” não está definida, deixo à vossa consideração a conclusão.

Numa linha só: Deixem os filhos da puta agir que eventualmente os gajos param!

Voltando ao assunto, eu sou um defensor da liberalização. Em portugal está na moda a aplicação do liberalismo como corrente económica de força, apresentada como salvação da pátria (Ó D. Sebastião, lamento informar mas estás ultrapassado pá! Não és liberal!). Na sequência do que já fizémos há 500 anos atrás, somos um exemplo para o mundo – ainda não reconhecido – que demonstra à UE e ao resto do mundo a desactualização das teorias liberais. Porquê? Porque somos o único caso em que qualquer sector da actividade que seja liberalizado sobe imediatamente os preços. É verdade, nós somos a demonstração prática que uma corrente teórica está errada. É escusado referir única e exclusivamente os medicamentos, podemos falar de muitos outros sectores até chegarmos à pérola da liberalização que são os combustíveis.

Uma das mais valias que a Terra Estranha trouxe à UE – e que deveria ser formalmente reconhecida – é a demonstração prática que fazemos das tendências teóricas:
- conseguimos demonstrar que o liberalismo não é controlado pelo mercado mas sim pela colectividade de filhos da puta (leia-se empresários);
- conseguimos demonstrar que a democracia, nos moldes que está actualmente implantada, é uma mera perpetuação de um tipo de oligarquia assente em raízes familiares, à semelhança de uma outra qualquer monarquia
- conseguimos demonstrar que o mercado é uma mera demonstração teórica que nada tem a ver com os seus cidadãos nem com os seus elementos e, a somar a isso, não controla absolutamente nada.

Voltando ao assunto, eu sou um defensor da liberalização. Esta corrente económica defende, como atrás referi, a não ingerência de factores externos sobre a sua acção, de modo a corresponder às exigências do capitalismo. Ora, um dos fundamentos para esta livre acção da ganância humana tem a ver com a atitude de controle do mercado. O que é o mercado? Um mercado é um mecanismo que permite às pessoas realizar trocas, normalmente reguladas pela lei da oferta e da procura. Existem tanto mercados genéricos como especializados, onde apenas uma mercadoria é trocada. Os mercados funcionam ao agrupar muitos vendedores interessados e ao facilitar que os compradores potenciais os encontrem. Uma economia que depende primariamente das interações entre compradores e vendedores para alocar recursos é conhecida como economia de mercado.

Até este ponto nada há a acrescentar. Poderia desviar-me para assuntos directamente ligados e com influência sobre este assunto mas concentremo-nos sobre o mercado. Sabemos que, pela acção natural da ganância humana, existe uma tendência para a acumulação de riqueza e pela formação de grupos restritos pautados por interesses comuns. Na lógica de acumulação de riqueza, por uma questão de fusão por matrimónio, aquisição, superioridade comercial ou técnica ou outra, um mercado caracterizado por muitos vendedores e muitos compradores sofre uma profunda alteração: diminui o número de empresas, mantendo-se (ou aumentando) o número de compradores. Assim, assistimos a um “fenómeno” interessante, as quotas de mercado das empresas aumenta face à diminuição de operadores no mercado enquanto que as opções de escolha dos compradores diminui. Verificamos, então, que o mercado não está habilitado a controlar o funcionamento liberal da economia, porque o mesmo está controlado pelos pouco vendedores face aos muito compradores. Em vez de assistirmos a um estado de permanente negociação entre a compra e venda, verificamos que os vendedores definem entre si o valor do bem/mercadoria e caso o comprador proteste, aguardam que o mesmo se cale e venha comprar.

Na sua perseguição da ganância, os fundamentalistas desenvolveram, já no século XX, o neo-liberalismo. Já não se trata de um liberalismo mas sim de um assumir selvático da ganância dos poucos sobre os muitos. A teoria mais antiga ainda defendia que o Estado/Reino tinha um papel importante na acção de regulação (até porque na altura era bem possível fazer um tratamento radical às amigdalas por intermédio de uma guilhotina e por muito defensores da acção do mercado que sejamos, este não se sobrepõe às amigdalas) contudo, no final do século XX, alguns grupos de influência constataram que as suas empresas/conglomerados movimentavam mais dinheiro que os estados. Haviam-se desenvolvido estados dentro do Estado, com mais poder e com mais capacidade de chantagem, isto é, como o Estado ficou com a exclusividade de garantia social de sobrevivência dos cidadãos, as empresas negociaram na base do “ou-me-dás-o-que-quero-ou-fecho-e-ficas-com-milhares-de-desempregados-nas-mãos”.

Este neo-liberalismo tem como dogma algo tão simples como isto: O Estado tem apenas como responsabilidade a defesa da nação e a elaboração das leis. Tudo o resto é MERCADO... Estão a ver para onde isto caminha não estão?

É a velha história, tão bem utilizada na Terra Estranha, do “agora que já está feito, chega para lá que é a minha vez”. É que se a primeira premissa do liberalismo é a ganância (característica humana que lança o primado do eu sobre todos os outros), que se afastava de qualquer tipo de responsabilidade sobre o próximo, com o neo-liberalismo há uma sofisticação de comportamentos em que é retirada, ao Estado, a responsabilidade, inclusivé, sobre a protecção do cidadão uma vez que este já não é um dos factores do mercado mas sim uma componente mercantil desse mesmo mercado. A acção de equilíbrio entre os muitos vendedores e os muitos compradores transformou-se numa definição dos poucos vendedores sobre tudo o resto. O comprador deixou de influenciar o mercado, de agir sobre ele e protegido pelo Estado e passou a ser mais um bem/mercadoria negociável. É a era da nova escravatura.

Não sou um esquerdófilo quando digo isto, aliás, sou um defensor da liberalismo. Mas acima de tudo sou um defensor da justiça, dos direitos, da moral, da ética e do ser humano. Se eu encontrasse alguma mais valia geral para os 6 biliões de humanos que habitam este terceiro planeta do sistema solar, seria o primeiro a defender o liberalismo e o neo-liberalismo e o mega-ultra-liberalismo. Infelizmente, por uma questão de educação, não aceito que o benefício dos poucos vendedores se sobreponha ao prejuízo explicito dos muitos compradores. Sou moralmente incapaz de aceitar esta premissa tão moderna. O liberalismo, nas suas mais variadas formas deve existir, é indubitável, mas para que o mesmo funcione na sua totalidade TEM de ser controlado pelo Estado, isto é, o mercado funciona mas existem regras para o funcionamento do mesmo, criadas pelo Estado, como garante final do bem estar das populações. Deixo a ressalva que não vale (é batota) dizer que esses mecanismos existem porque é mentira. Veja-se o caso dos observatórios, comissões, autoridades, etc e verão porque digo que é batota...

Paizinho, tu que provavelmente irás ler este texto, desculpa lá pá mas estou chateado. É que afinal não me educaste para ser filho da puta, o que é uma desvantagem competitiva...

MS
publicado por GERAL às 14:47
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2 comentários:
De Rui KN a 25 de Junho de 2006 às 23:07
Não percebo.... Os medicamentos estão agora mais caros? Não pode ser, agora temos o mercado liberalizado....isto até está muito parecido ao jardim da Celeste, onde tudo é bonito e a vida corre bem.
Vamos lá ver o que se passa nesta santa terrinha estranha...
Segundo o nosso ministro Correia de Campos, quem diz que o preço dos medicamentos é agora mais elevado que há um ano atrás, ou é parvo, ou é burro ou é as duas coisas ao mesmo tempo. Aliás senhor ministro, diga-me quais foram os produtos que viram o seu preço reduzido com a liberalização do mercado?? Mais, diga-me que ecnonomia é que melhorou com "esta abertura ao mundo real?
Um exemplo bem real dos monopólios de Portugal, digam-me à quantas semanas o preço do petróleo está abaixo dos 70 dólares por barril? Já tem o número de semanas?? Verifiquem agora qual o preço praticado pelas gasolineiras e digam lá se não vivemos num país liberalizado......
Vivam os filhos da puta das gasolineiras, pois neste momento o que interessa mesmo, é a selecção...
O país pára para ver 22 trolhas a jogar, já é tempo de começar a ver as coisas e começar a agir...
De RdS a 21 de Junho de 2006 às 11:59
Está mesmo muito bom. Concordo em absoluto.

Infelizmente, sofro do mesmo handicap, não sou filho da puta!

Mas realmente a esta terra devia ser devidamente estudada, todas as teorias capitalistas e de dinãmica de mercado têm o resultado inverso, porque será?

Liberalizamos e supostamente aumentamos a concorrência, o resultado é sempre o mesmo e contrário a qualquer lógica - O PREÇO AUMENTA!

Somos 1 case Study, ponham a terra estranha dentro de 1 laboratório - JÁ!

RdS

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