Terça-feira, 15 de Abril de 2008

Actividades lúdicas e mais cretinices

Caríssimos leitores,
 
Muito boa tarde/dia/noite a todos.
 
Olá a todos/as... Hoje estou um pouco chateado, eu diria mais, estou lixado com F. E porquê, perguntam vocês (pelo menos aqueles que são alucinados o suficiente para ter curiosidade)?
 
A razão é simples e passo a explicar:
 
Para quem não sabe, os meus avós maternos eram de uma pequena aldeia na costa alentejana, logo abaixo de Vila Nova de Milfontes que dá pelo nome de Almograve (para os curiosos, aqueles mesmo curiosos, recomendo Google Earth... tem lá umas fotos bem giras do local). Típica aldeia alentejana, com as casas caiadas de branco e com a barrinha azul (desconfio que as barras de outra cor que apareceram mais tarde foi uma modernice dos emigrantes que não fazem a mínima ideia das origens antropológicas da barra azul), à beira-mar, numa costa que é caracterizada pela (ainda) beleza e pela (ainda) pureza.
 
Feita esta descrição quase idílica da coisa, quando era miudo e adolescente passava os três meses de férias na casa dos meus avós e, como devem calcular, era um forró, isto é, praia, miúdas e cerveja... não necessariamente por esta ordem.
 
Para além destes pormenores mais lúdicos da coisa (ou lúbricos... depende sempre da percepção do leitor), foi no Almograve – e com o meu avô – que aprendi uma série de coisas que, só hoje, começo a apreciar nomeadamente os rudimentos da agricultura (fiz uma pequena sementeira, ou como se diz por aqueles lados uma leira, de feijões e consegui matá-los a todos), dos ciclos agrícolas, dos ciclos das marés, como perceber os “humores” do mar e como pescar. O meu avô, tal como todos os outros habitantes locais, sobretudo os mais velhos, retiravam do mar uma série de bens alimentares que colmatavam os que não existiam por não terem dinheiro nem para comer... sim, o eterno problema das reformas e do baixo poder de compra não é de agora, é bem mais antigo.
 
Mas adiante! Como dizia, aprendi com o meu avô a ver a pesca não como uma fonte de rendimento ou um momento de fuga à realidade mas sim como uma necessidade de subsistência e um prazer. Passei horas com ele a andar de um lado para outro a aprender como fazer, onde pescar, o que era bom, o que não prestava, onde estavam os esconderijos dos polvos, caranguejos (esta é a forma fina de dizer navalhesa ou, como dizem os dondocas de Lisboa com a mania que percebem do campo, navalheiras), etc.
 
Sempre olhei para o mar, sobretudo aquela costa que conheço bem, como uma fonte de vitalidade, vida e suporte que deve ser respeitado. Ao contrário do que pensam a maioria dos citadinos, os habitantes dessas aldeias dão-lhes lições acerca de ambientalismo e equilíbrio natural. Das vezes que fui ao mar sozinho e por acaso apanhava umas “coisitas” mais pequenas, a reacção do meu avô – e já agora, dos outros velhos da aldeia – era muito simples: primeiro gozava porque eu não me tinha “safado” e depois criticava, por intermédio da subtileza tradicional e da censura de uma experiência de vida, por eu ter apanhado coisas demasiado pequenas.
 
Como dizia, aprendi imenso com o “velhote”, como era carinhosamente chamado, e resolvi tentar passar alguns desses conhecimentos `minha filha. Eu não pretendo que ela seja mais um produto “moderno” que acha que o leite vem do pacote e a carne e o peixe vem da embalagem... desculpem, estou numa fase tradicionalista e acho que a imbecilidade urbana só fez merda e acredito que este tipo de conhecimentos é útil, mas isso acho eu.
 
Ora arquitectava eu estes planos e falava com uns familiares acerca disto (pensar em pegar na miúda, levá-la para a antiga casa dos meus avós, da qual sou um dos herdeiros, levá-la à praia e também pescar) quando eles (os familiares, claro) me fizeram uma simples pergunta: “E licença? Tens?”
 
Licença?? Mas qual licença?
 
E lá me explicaram: um dos sub-produtos da nossa actividade legislativa (fruto de uma qualquer diarreia) foi um decreto-lei (letra pequena propositada para poder ficar ao nível da inteligência do animal que a escreveu) que define as regras da pesca. Até aí nada contra, excepto uns pequeninos pormenores que gostaria de partilhar connvosco:
 
1º: apesar de demagogicamente se apregoar os valores e tradições culturais (fica sempre bem), é proibido usar camaroeiro, bicheiro ou outros dispositivos de altíssima tecnologia nesta activade lúdica. Se quase toda a gente sabe o que é um camaroeiro, o bicheiro é um pouco mais complicado. Consiste num pau (de dimensões variáveis, à vontade do freguês) com um gancho de metal na ponta que serve para retirar os polvos (Octopus vulgaris) dos seus buracos, apanhar ouriços-do-mar e outras funções de apoio, e tem na outra ponta uma pequena espátula de metal, não muito afiada, que serve para apoiar quando se caminha sobre as rochas (e acreditem que às vezes é dificil e complicado porque a bicharada não está na praia a apanhar sol... como alguns outros animais que andam pelos lados da caparica), apanhar lapas, esmagar alguns ouriços-do-mar para servir de engôdo, etc. Como podem verificar, um instrumento sofisticado!
 
2º os peixes capturados, à linha e com anzol, têm de obedecer a certas dimensões (e.g.: robalos só acima de 36 cms de comprimento) e os polvos só acima de 750 gr... Uau!
 
3º captura de navalhesas (já expliquei e se não sabem o que são não tenho culpa... vão tomar centrum!), percebes (ou, mais uma vez, perceves para os finórios) e ouriços-do-mar (para quem nunca comeu... azar, não sabem o que é bom! Só devem ser apanhados entre abril e maio e depois são cozidos em grandes panelas de água com sal. Nota: só devem comer as ovas, aquelas coisas que parecem gomos de laranja de cor laranja ou mais amarelada... o resto é tripa e não presta mas há sempre a besta com a mania que é esperto e papa aquilo tudo) só até 2,5 kgs.
 
4º o valor das multas pode chegar a alguns milhares de euros se considerarmos que, por exemplo, por cada polvo abaixo das famosas 750 grs pode custar 250 euros de multa (se eu apanhar 5 estão a ver não estão?!) e cerca de 50% do valor das multas reverte para a polícia marítima.
 
Ora bem, vou apenas tecer alguns comentários que, acredito, são merecidos:
 
a)     O bicheiro e camoroeiro, bem como a cana de pesca tradicional (cana com linha) são apetrechos da nossa pesca tradicional e fazem parte da nossa cultura. Não são responsáveis por qualquer dano à nossa natureza nem, muito menos, responsáveis pela diminuição das espécies. Além disso nunca vi ninguém apanhar um polvo com os dentes e acreditem, vi muita coisa parva nos 3 meses de verão que lá passava... ver a “gente da vila”, como eram chamados os parolos da cidade com ares de finos, a tentar pescar era um espectáculo digno de um bom Vaudeville (já tomaram o centrum?).
b)     Agora pensem lá comigo: estou sentado numa rocha, cana na mão, linha na água (até uma profundidade de cerca de 2 a 3 metros), presas na rocha estão algas e em canais mais fundos fica escura (é natural), o peixe morde o anzol e eu saco o dito de dentro de água. A seguir pego numa régua (é algo com que andamos sempre) e toca de medir o bicho. Tem menos que as medidas específicas, pois bem, tenho duas hipóteses: uma é cortar o fio do anzol e atirar o peixe de novo para a água com um piercing ou tentar tirar o anzol, que por norma rebenta a boca do peixe, e atirá-lo à água para o dito morrer de fome porque perdeu a capacida de se alimentar. De facto, é bem mais humano... vai lá morrer longe que aqui cheiras mal.
c)      Se no 3º ponto posso perceber porque certas espécies devrão ser um pouco mais salvaguardadas (tipo os percebes) as outras não fazem o menor sentido. Quem nunca apanhou, não sabe que 2,5 kgs de ouriços.do-mar equivale a comer uma meia-dúzia de ovas. Além disso não sabe, também, que certas espécies de animais rapidamente se tornam uma praga (como os ouriços ou mexilhões) e que liquidam todas as outras espécies à volta. Ora como a pesca industrial tem capturado todos os predadores naturais os tipinhos multiplicam-se à maluca... tomam viagra!
d)     Finalmente, como as instituições públicas são correcta e devidamente financiadas pelo Estado, boa parte da multa reverte para a dita instituição e, claro, é preciso comprar botas, clips, canetas, etc e pelo que me foi dito os elementos das forças da ordem marítima andam pelas dunas, escondidos, armados em mirones e têm multado sem eira nem beira, até mesmo àqueles cuja magra captura dá para 2 ou 3 refeições pois é a única forma de conseguirem alguma proteína animal, que não podem comprar com o dinheiro das reformas.
 
Para além disso, se existe um problema de protecção de espécies desculpem lá mas não é mei-dúzia de velhos que criou esse problema... a não ser que estejamos a falar de protecção às empresas de pesca industrial que usam redes demasiado finas e apanham o que mexe e o que não mexe. Se for assim já entendo... há que proteger o negócio, com a desculpa do ambiente. Aí já entendo!
 
Não há nada como ser hipócrita... “ah e tal! És jovem... protegemos o ambiente... és maluco e quê!” Tás a ver?!
 
Informo que irei ensinar o pouco que sei à minha filha e que vou levar o bicheiro que era do meu avô! E que se me vierem chatear os cornos os mando para um sítio que cá sei... tipo ETAR. Se estiver o bicheiro na mão atiro-o para dentro de água (eu depois vou lá buscá-lo) e desafio os animais a provarem que eu o tinha na mão. Se tiver peixe ou polvos atiro-os para o chão e digo que não são meus... que foram ali apanhar sol, que também têm direito.
 
Para o raio que os parta mais a fuçanga de sacar dinheiro por tudo e por nada! Viva Portugal, onde comem e calam... eu começo a estar farto... realmente farto!
 
Um abraço
 
MS
música: Actividades lúdicas, cretinice, roubalheira
publicado por GERAL às 11:17
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2 comentários:
De Anónimo a 15 de Abril de 2008 às 11:58
Bolas!

Já nem à pesca me posso dedicar!

Lá se vai mais uma frase tipica que costumava ser aplicada por todos nós, vulgo povo: "Olha, dedica-te mas é à pesca!"

Já não dá! E agora digo o quê?

Bom, como citadino tipico eu devia defender a protecção das corporações (ops), quer dizer, das espécies e essas coisas, mas com tanta hipócrisia que existe por aí...

Vou tentar outra abordagem, tens que ver que as empresas não aguentam a concorrência selvagem dos "pescadores de vão de escada". É que eles não têm custos fixos, nem trabalhadores (que chatice esses gajos), nem pagam impostos (????), entram num mercado paralelo e estragam a economia = Desemprego.

Bom, arranja um aquário e ensina a miúda a pesacar em casa, assim também não gastas gasolina nem dinheiro, ajudas o país a melhorar o ambiente e a poupar.

RdS

De CZ a 27 de Junho de 2008 às 17:24
Meu caro Miguel

A origem da vida está nos oceanos, essa é uma verdade científica, aceite e universal, ninguém duvida. Pelo menos ninguém inteligente.

De lá saiu em tempos um "serzito" vivo, muito rudimentar, com uma meia dúzia de células e provavelmente a rastejar, com algo atrás dos olhos que seria demasiado pequeno para se chamar cérebro. Enfim, um bicharoco insignificante e seem nome possível.

Quem legislou no sentido que falas, licenças, autorizações, proibições em relação às actividades "piscatórias", tem um receio...




..não quer que lhe apanhem o resto da familia!!!



Bons tempos passados no Almograve!

Um Abraço

CZ

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