Terça-feira, 29 de Agosto de 2006

O pasquim feminino

Ora boas,


Não sou nem nunca fui um assíduo leitor de revistas, quaisquer que elas sejam. Compro ocasionalmente uma revista relacionada com música, actualidades ou viagens, mas estou longe de ser um ávido e compulsivo comprador de quaisquer publicações diárias, semanais ou mensais que pululam em qualquer quiosque por onde passamos no nosso dia-a-dia.

Portugal é fértil no que se refere a publicações destas. Temos um dos maiores níveis de iliteracia da Europa, mas o que não faltam para aí é revistas sobre o que quer que seja. Desde desporto (invariávelmente o futebol) passando por música, jogos, arte, viagens, moda ou futriquices, há de tudo um pouco. E em relação a estas últimas, direi mesmo que há um excesso de oferta, vendo a panóplia de magazines que qualquer quiosque / livraria faz dispôr a ávidas leitoras que utilizam parte do seu rendimento mensal para se manterem cultivadas sobre o que mais importante se passa nas nossas esferas sociais.

Mas o que é certo é que há mercado, e o povo gosta. O povo gosta de coisas estranhas, digo eu, e está provado que sabermos da vida dos outros é o desporto nacional. A tal futriquice que falava ainda há pouco.

Como gosto de fazer um esforço em compreender os gostos da populaça, tentei ao máximo debruçar-me sobre o eventual interesse que a leitura de algumas revistas "para gajas" me poderia despertar. Então, fui fazer companhia à minha mulher quando ela foi ao cabeleireiro onde, podia ter ao meu dispôr uma série quase infindável de publicações que fazem as delícias de muita tuga.

Há primeiro que definir o que as modernas escolas de gestão chamam de segmentação e posicionamento, ou por outras palavras, quem são os tansos que estão dispostos a gastar dinheiro para comprar o lixo que produzimos. Os tansos (neste caso, mais as tansas) são normalmente publico feminino (como é lógico) onde depois há algumas variações dependendo do carácter mais ou ainda menos "literário" da publicação. Assim, a tansa que compra e lê a revista "Maria" dispõe de escolaridade mínima (daquela que só permite mesmo ler e pouco mais), tem mais de 35 anos, é casada com um pedreiro e tem um caso com o soldador do bairro, não depila as axilas, faz compras no Lidl e tem uma série de filhos sem ter a certeza quem são os pais. Uma publicação mais avançada em termos literários como a "Nova Gente" já exige que a tansa não tenha um caso com o soldador do bairro mas com o merceeiro. Publicações mais profundas como a "Lux" já exigem que as leitoras rapem a sovaqueira e se continuarmos até atingirmos o supra-sumo do erudito no que a este assunto diz respeito, a leitora da "Elle" ou da "Cosmopolitan" provávelmente é daquelas tugas modernas com direito a tatuagem, piercing e rata rapada. É mais jovem, possivelmente anda na universidade, vai às discotecas da moda 5 vezes por semana, e claro, gosta de fofoca.

Posto o acima, decidi então, enquanto a minha mulher frisava o cabelo, a ler (?) algumas dessas revistas. A panóplia de títulos era grande. Havia de tudo para quase todos os gostos. Fácilmente deu para constatar que as diferenças resumem-se ao balde, já que a merda é quase toda a mesma.

Assim, comecei por uma publicação chamada "Ana". A "Ana" é, ao que me pareceu, concorrente da "Maria", ou seja, tem normalmente na capa uma personagem qualquer de telenovela ou de reality show. Depois adensa-se em artigos sobre saúde, culinária, moda e sexo, e entrevistas bacocas a personagens supostamente conhecidas. Tendo tido quase um ataque de indigestão após ler este magazine em 2 minutos, debrucei-me na "Lux". Esta é mais "socialite", e como tal, das que me metem mais asco. A dita cuja traz tudo o que seja relativo àquilo que eles chamam de "celebridades". O conceito de celebridade pode variar, acredito, de pessoa para pessoa, mas aqui a celebridade é sinónimo de mediocridade. Assim, fiquei a saber pormenores pessoais de gente tão ilustre como a Elsa Raposo, a Merche Romero, a Cinha Jardim, A insuportável-do-sorriso-plástico-Lili-Caneças, a Silvia Rizzo ou o Gonçalo Diniz . A maioria destes nomes nem sequer os conheço, e sinceramente não sei o que fazem nem qual o seu contributo para a sociedade. Mas deve ser algum, porque aparecem em mais magazines do que o primeiro-ministro ou o presidente da República. As entrevistas e reportagens sobre estes...indivíduos, são da coisa mais escabrosa, patética, sofrível e de mau gosto que já vi em toda a minha vida. Entre ler um artigo desses e ler o livro vermelho do Mao, prefiro, apesar de tudo, o segundo, já que o primeiro é mesmo Mau. Saliento ainda, uma reportagem efectuada por essa revista a uma propensa festa "VIP" organizada pelos testa-de-ferro do pasquim, algures no Algarve. O nojo cresce à medida que vou lendo que uma série de anónimos perfilou-se à entrada da discoteca (ou fosse qual fosse o local de tão almejada realização) para ver entrar os "famosos". Ou seja, houve gente que foi ver passar numa passadeira uma série de pessoas reles a quem estas revistas chamam de famosos. Haja mercado!!!! A "Lux" desdobra-se depois em artigos de saúde, moda, culinária e sexo.

Com o vómito a chegar-me à boca, estóicamente abri as páginas da "Nova Gente". Esta é tipo "Lux" mas para gente mais vulgar, que é como quem diz, mais ordinária. Nada de muito novo, com artigos sobre culinária, saúde, sexo e moda (convém trocar as ordens dos temas para não me tornar muito repetitivo). As individualidades focadas, retratadas, fotografadas e entrevistadas não diferem muito das outras revistas, talvez com uma incidência maior em "mete-nojos" mais proeminentes na nossa sociedade, tipo João Kleber. Verifico e confirmo que as entrevistas são de uma paupérrima pobreza (passe a redundância) franciscana com realce para frases ditas que espelham a profundidade intelectual dos entrevistados. Coisas inenarráveis do tipo " O Manel é o homem da minha vida" ou "Voltaria a fazer tudo o que fiz".

Não demorei mais do que 5 (longos) minutos para passar ao próximo castigo. Agora a "Caras". Como eu costumo dizer, "quem vê caras não vê conas" e eu aqui só vi mesmo caras. Algumas que já tinha visto noutras publicações que tinha acabado de ler, outras nem tanto. Sucedem-se as fotografias de propensa gente famosa com as devidas legendas por baixo. Assim, fico a saber que há nomes tão escabrosos como "Bonequinha", "Tatão" ou "Pequenina". Eu se fosse casado com uma gaja a quem chamassem de "Pequenina", no mínimo passava-me. "Pequenina"?? Vá chamar pequenina para o raio t'a parta. Mas pelos vistos, a nossa reles "socialite" publicita a ridicularidade das figuras com as dos nomes. E gostam, claro está. Confesso, depois de ter virado 3 páginas, que não conhecia um único nome de entre todos os (as) fotografados(as). Mas deve ser gente importante e quiçá empreendedora e filantrópica, ou ainda gente candidata a um qualquer Nobel, ou no mínimo a uma qualquer sessão de entrega de prémios da revista "Lux" (se é que os há - não me admiraria). Por entre as páginas da revista, aparecem artigos sobre moda, sexo, culinária e saúde.

Não consegui ler nenhuma "Elle" ou "Cosmopolitan". Possivelmente porque a maioria do público alvo da cabeleireira não se insere no posicionamento que essas revistas têm, mas julgo que tirando algumas pequenas diferenças, algures no meio falarão de sexo, culinária, saúde e moda.

Eu de moda, saúde e culinária não me interesso muito, mas já quanto ao sexo, confesso que é daqueles assuntos que me fazem sentir curioso com as coisas que se dizem e se escrevem. E como já o referi acima, não há pasquim feminino que não tenha o seu artigo (normalmente extenso) sobre este tão abrangente tema. No fundo, não diferem muito umas das outras na sua abordagem. Há, claro, aquelas que publicam as cartas com dúvidas dos leitores (e mais das leitoras) e que têm direito a uma resposta de uma qualquer entendida nestas questões (as dúvidas que aparecem vão do tipo "o meu namorado gosta de me ver a masturbar" a "tenho o meu clitóris pequeno") mas aquilo que mais se realça são os artigos de fundo. Coisas do tipo "Saiba como levar o seu homem à loucura" ou "as posições que dão mais prazer" ou ainda "porque não engoli-lo (Importam-se de repetir?????)". Vaise- descobrindo que as gajas levam estas coisas a sério, e asseguro que deve bastar ler 2 ou 3 artigos dessas revistas para um gajo ficar um autêntico expert nestas questões do treco-lareco. Assim, fica-se a saber que o ponto G é algures lá dentro, que os orgasmos múltiplos podem ser atingidos mediante a intensidade dos preliminares ou que as zonas erógenas das mulheres são mais do que a quantidade de bonecos que aparecem nos livros "Onde está Wally" .

Constata-se uma coisa, tudo isto dá dinheiro a muita gente. Aos editores, fotógrafos, jornalistas (será que se pode apelidar de jornalistas quem escreve para estas revistas), opinadores e eventualmente entrevistados e fotografados. Mais uma vez, o que é necessário é que haja sempre quem compre aquilo que se pretende vender. Se há mercado para as armas de guerra, para a pornografia, para as bebidas alcoólicas, porque não haver também para a futilidade e para a mediocridade. Depois queixa-se quem compra estas revistas que a educação é cara, provávelmente proque o dinheiro que iriam gastar com a compra de livros (nunca tão didácticos como estas revistas) para a escola dos filhos é tão onerosa como o que o agregado familiar gasta por ano com a compra destes verdadeiros almanaques de sapiência

Eu por mim fiquei farto e já não consigo sequer olhar para a capa destas revistas. Como tal, assim que saí da cabeleireira fui comprar um almanaque do Patinhas para poder lavar os olhos. Sempre é mais educativo, o que não é de todo difícil.

JLM


publicado por GERAL às 16:01
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De MS a 5 de Setembro de 2006 às 12:14
De facto, pouco há a dizer excepto que o artigo está brilhante.
Foi agradável a forma como foi focado que a súmula de 10.000 anos de evolução cognitiva terminam na Lux e afins...

MS
De GERAL a 19 de Outubro de 2006 às 12:48
Viva a COLTURA!

Somos verdadeiros consumodores de elevada coltura, veja-se a líder de mercado: Maria.

Acho que define bem o tipo de país em que vivemos, só não sei estas pessoas não serão mais felizes que os dito "intelectualoídes".

Devem ser, com estas leituras o Tico e o Teco, os 2 únicos neurónios presentes no cérebro deste tipo de consumidores, não devem ter muito tabalho, logo não cometem o pecado capital: PENSAR.

RdS

Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. Nas voltas e reviravoltas...

. A Austeridade...

. Portugal e a Crise

. Jogo FMI

. FMI e afins

. O outro lado da exuberânc...

. Os Sufrágios!

. As idio(ti)ssincracias da...

. O país de betão

. O salário minimo e Portug...

.arquivos

. Outubro 2013

. Setembro 2012

. Maio 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

.tags

. todas as tags

.Contador

.Contador

blogs SAPO

.subscrever feeds