Terça-feira, 28 de Março de 2006

O Sr PP e a declaração dos deveres

Ora então um grande Viva a todos.

Após prolongada ausência, principalmente ligada a falta de inspiração, eis-me de volta a este salutar espaço de escárnio e mal-dizer.

Hoje vou-me debruçar, tentando não cair, sobre uma determinada frase que ouvi na ultima sexta-feira num programa de entrevistas que ocorre no canal Sic Notícias. O entrevistado, não vou referir nomes, deixando à consideração do leitor de quem estou a falar (é tão difícil adivinhar o mesmo que quase que proponho a atribuição de uma viagem às ilhas Caimão a quem acertar), tratando o referido personagem como "o Sr PP".

Ora disse o Sr PP a dada altura, e no seguimento de uma pergunta efectuada pela Sra entrevistadora sobre a situação vivida em França relacionada com a polémica sobre o primeiro contrato de trabalho, qualquer coisa como o seguinte - Da mesma maneira que existe um declaração universal dos direitos humanos, também deveria existir uma declaração universal dos deveres.

Ora bem. O Sr PP é conhecido pela utilização de clichés, provérbios e "frases feitas" para expressar o que lhe vai na alma. Sempre foi assim, desde a sua notoriedade inicial no semanário Independente onde as primeiras capas que zurziam forte e feio no Cavaco tinham sempre títulos afoitos, e continuou a ser assim com deputado e como ministro. Daí que não me espante a utilização de tal frase na dita entrevista.

Vejamos agora o que o Sr PP quis de facto dizer. Penso eu que a questão dos "deveres" está intimamente, e talvez só, relacionada com os deveres de quem trabalha para outrém. Pode ser que me engane, mas conhecendo mínimamente o Sr PP, não creio que o alvo por ele escolhido fosse outrém que não o mero "reles funcionário" de qualquer empresa existente à face da Terra.

Que deveres deveriam então estar consagrados nessa aprazível declaração dos deveres? Imagino alguns do tipo:

* O reles funcionário deve (é portanto obrigado) a entrar no mínimo uma hora antes do horário de entrada estabelecido;
* O reles funcionário deve (é obrigado) a sair sempre depois da hora de saída estabelecida;
* Independentemente do acima exposto nos primeiros artigos, não será atribuída qualquer remuneração adicional (leia-se horas-extra) ao reles funcionário,
* Sempre que possível, o reles funcionário deverá gradualmente reduzir o tempo que perde durante o almoço, as suas idas ào WC, ou as idas lá fora para fumar o seu cigarro;
* A bem da produtividade e do enriquecimento do "empregador" (digam lá se não é uma linda expressão, abonatória de quem nos dá emprego. Não o darão porque pura e simplesmente necessitam??) o reles funcionário deve deixar de ter direito a passar tempo com a família, com os amigos, com os colegas, concentrando-se unica e exclusivamente no seu emprego;
* O reles funcionário deve deixar de pensar, emitir opiniões ou contestar decisões. É apenas um meio para atingir um fim.

Entre muitos outros artigos (muitos dos quais já citados noutros textos escritos neste blog) que estariam de facto devidamente consagrados por organizações tão importantes e universais como a Bolsa de Lisboa, a CAP, a CIP e outros que tais.

Sr PP, a sua ideia é de facto genial. Com tais medidas, a produtividade aumentaria, os salários desceriam, a qualidade de vida esfumava-se. E para quê? Para aumentar o nível de "riqueza". É claro que a "riqueza" é sempre para os mesmos, para aqueles que usufruem anualmente de lucros na ordem das centenas de milhões e que, mesmo assim, decidem acabar com uns quantos postos de trabalho para, lá está, aumentar a "riqueza". E que tal, Sr PP, de impôr alguns deveres por exemplo, às entidades patronais, ou pelo menos a algumas delas? Deveres como:

* Deixarem de ter dívidas consecutivas à Segurança Social;
* Deixarem, algumas delas, de aproveitarem-se de usufruir de situações monopolistas para fazerem o que quiserem com os preços de venda dos seus serviços
* Deixarem de contratar mão-de-obra imigrante não legalizada, porque a mesma é mais barata e aumenta-lhes a "riqueza";
* Terem o DEVER de não procederem a centenas de despedimentos quando os seus resultados são de lucros elevadíssimos (será que não percebem que quando despedem alguem, esse alguem vai deixar de ter poder de compra para adquirir os bens/serviços das empresas que os despediram???)
* Entre milhares de outros deveres.

Pois é Sr PP, a declaração dos direitos humanos fez-se para proteger o homem de muitas coisas, a maioria das quais, do próprio homem. A declaração dos deveres serviria para proteger quem? É que sabe qual é o problema Sr PP? É que neste mundo-mete-nojo em que todos nós vivemos, há muita gentalha que não respeita os direitos humanos. Há muitos países onde os mesmos são uma miragem. Porque penso que se todos os países respeitassem intrínsecamente os mesmos, então teríamos um mundo menos filho da puta, mais justo e menos financeiro. Porque, lá está Sr PP, a tal declaração dos deveres que o Sr PP gostaria de ver consagrada já existe em todos nós, na nossa responsabilidade (reconheço uns mais do que outros) na nossa entrega ao trabalho, na nossa luta constante do dia-a-dia. E em muitos países, essa declaração-na-prática dos deveres sobrepõe-se a qualquer outra que no papel esteja definida. Porque enquanto na China, na India, no Paquistão na Malásia, entre tantos outros, houverem pessoas a trabalhar 25 horas por dia e a receber uma malga de arroz como remuneração, este fenómeno da globalização impor-se-á e obrigará a que sejamos mais "competitivos" querendo isso dizer mais contributivos para a tal "riqueza".

E já agora, Sr PP, o que se seguiria à declaração dos deveres? A declaração universal dos deveres da criança para contrapôr à existente relativa aos seus direitos? E que tal a declaração dos deveres dos animais?

Olhe Sr PP, tudo aquilo que escrevi não pretende ser nenhuma atitude pró-esquerdista, que nisso estou muito à vontade já que nunca fui, nem sou, nem nunca serei um partidário das ditaduras do proletariado. Mas é difícil não enxergar aquilo que se passa no mundo de hoje.

É pois por isso, Sr PP, que lhe faço um convite com o devido respeito que brochelência (não) me merece. Pode ser, inclusivamente que o Sr PP veja neste convite, lá está, uma espécie de dever seu. Sr PP - VÁ para a P que o P.

JLM
publicado por GERAL às 11:41
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2 comentários:
De RdS a 28 de Março de 2006 às 15:27
Excelente regresso ao blog!

Realmente, a Humanidade não cessa de me espantar, devo dizer que a muito, mas mesmo a muito, custo é que considerei enquandrar o Sr. PP e respectivos partidários como Humanos, mas, enfim, tenho de dar o benefício da dúvida pelo menos na aparência são semelhantes a seres Humanos.

A propósito dos deveres e de remunerações, já agora, porque não acabar com o termo remuneração? substituí-lo por esmola e agradecimento ao Senhor (patrão), assumir de vez a hipócrisia e chamar os "bois" pelos nomes. Assim, o "meio de produção" ou o "consumível laboral" (qual trabalhador) ficava a conhecer a sua efectiva importância para o "Senhor".

Nítidamente o Sr. PP deve estar com falta de preenchimento interno na zona intestinal, talvez o seu incosciente se tenha manifestado na esperança de que a referida carta consagre a sodomização como um dever Humanitário, o que ,de certa forma, atenue o injustificável.

Um abraço,
RdS
De MS a 28 de Março de 2006 às 14:25
MUITO bom mesmo...

De facto parece que nós é que somos os ceguinhos, os tótós que comem e calam, que somos bombardeados com expressões tipo produtividade e que se confundem com aumento de lucro.

É nesta degradante espiral de incompetência que sobrevivemos, em condições mais desumanas que no tempo das cavernas.

Enfim, sempre à Filhos da Puta que têm tempo de antena, pena é que não vão oscular a quinta pata do equideo... sempre era mais divertido que assistir aos comentários do PP.

Um grande abraço
MS

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