Segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2007

Aborto / IVG. A verdade da mentira ou a mentira da verdade.

Cumprimentos a todos os cibernautas errantes por estas linhas de opinião!

 

Este vai ser o último artigo que vou escrever, neste período de referendo, subordinado a este tema, que tanto tem divido os portugueses e não só, acredito que haja outras nacionalidades que têm a sua opinião sobre o que aqui se passa.

 

Primeiro vou sou referir algumas notas introdutórias sobre este blog e os seus conteúdos, é preciso dizer que a génese dos 3 SSS surgiu com o intuito de sarcasticamente e ironicamente, talvez com uma certa dose de humor à mistura, criticar tudo e todos, se possível levantar linhas de pensamento alternativas.

 

Não queremos ser mais “uns” a lançar opiniões politicamente ou socialmente correctas. Queremos, acima de tudo, um pensamento LIVRE e sem RESTRIÇÕES de qualquer espécie.

 

Espero ter sido claro! Já agora, só para esclarecer algumas dúvidas a meu respeito, sou homem e pai. E agora o tema e desta vez, só desta vez, não vou ser nem sarcástico nem irónico:

 

Ambos os lados desta questão têm disparado as suas verdades sobre a IVG, ou serão mentiras? Sobre este assunto reparo que existem demasiadas certezas. Tanto de um lado como do outro. Eu penso que é muito bom e extremamente saudável existir a dúvida, ou dúvidas.

 

Talvez sejam, precisamente, essas dúvidas que me levam a votar no SIM. Mas tenho uma certeza, tenha a certeza de que não tenho a certeza sobre tudo. Talvez essa seja uma das minhas grandes não certezas que me levam a não querer impor a um terceiro uma certeza, a pena de prisão, por um acto que, por muito vil que possa ser, também, não existe a certeza científica de que o seja.

 

Não sou médico nem cientista, mas tenho reparado que a dúvida está instalada nesses meios. O tema de “a partir de quando é que se pode considerar que existe vida” é demasiado vasto, nem sequer vou explaná-lo, por agora. Também não é isso o que está, em meu entender, em jogo neste referendo.

 

São outras razões que, para além do tema da “vida”, estão em jogo e que também são muito importantes. Não digo que são mais, nem menos, apenas digo que são importantes e que merecem ser pensadas e não penalizadas.

 

Em primeiro lugar, quer queiram quer não, o aborto clandestino é um problema de saúde pública. O facto de não ser feito em condições hospitalares responsáveis, com técnicos de saúde, de acção social, entre outros, que podem, de facto, marcar alguma diferença nas já demasiadas repercussões, tragédias e/ou outros efeitos nefastos, para quem se depara com esta decisão, leva a que toda esta polémica pelo sim seja confundida com “morte à vida”, o que não é o caso.

 

O “deixar as coisas como estão” não pode continuar! Há que ter a coragem de assumir que existe este problema e que a sociedade, com os seus meios, pode realmente fazer alguma coisa para o mitigar, de preferência elimina-lo de vez. O continuar a criminalizar já provou que não resolve nada. Nem vale a pena alegar absurdidades como “então os ladrões e os assassinos, também, não deviam ir presos?” e outras parecidas. Este é um problema que não tem paralelo e deve ser analisado por si só.

 

Em segundo lugar, para mim, está em jogo a questão da liberdade individual. Cada um sabe o que faz do seu corpo, se é correcto ou não, é um ponto de vista e como tal não deve ser julgado por terceiros. Detesto julgamentos apressados e imponderados sobre as decisões que cada um faz, fez ou fará, sobre si próprio. Não acho que eu deva julgar ou condenar alguém que tomou, tome ou venha a tomar, esta decisão. Não conheço as suas razões ou condições ou seja o que for que a tenha levado, leve ou que a levará a tomar, tal Decisão.

 

Por isso acho que terceiros não devem, a menos que sejam consultados para tal (aqui abro este parêntesis para dizer que no caso do SIM ganhar, penso que poderão de facto existir condições a que terceiros sejam efectivamente solicitados pelo decisor a se pronunciarem e / ou aconselharem), se pronunciar e muito menos julgar / condenar o que cada um entende para a sua liberdade individual.

 

Um terceiro ponto que, volto a dizer, para mim, está em causa prende-se com a igualdade de direitos. Se de facto cabe à mulher um papel de grande importância neste assunto, o homem também não fica totalmente isento. A decisão de “meter a pilinha em vagina alheia” também é dele. Claro que a mulher tem um “poder” muito grande nestas matérias, mas ao homem também lhe cabe a sua quota-parte na responsabilidade.

 

A realidade é que só um dos intervenientes é que é julgado, tanto na “praça pública” como no tribunal, e condenado. A mulher! Então e o homem? Porquê que a mulher “vai” presa e o homem não? Não deve, também, isto ser repensado? Estará a Lei tão justa e equitativa?

 

Além disso, Se a mulher tem tanto “poder” e tanta “responsabilidade” não será ela suficientemente lúcida para decidir? Ou os paladinos do Não acham que a mulher não tem capacidade ou não é suficientemente responsável para decidir? Eu considero que a mulher tem exactamente as mesmas capacidades que o homem. Nem mais nem menos, se o homem pode decidir, a mulher também.

 

Quarto ponto. A liberdade sexual, de certa forma, está também está a ser julgada. Ainda que inconscientemente. Penso que já é aceite por todos que o Homem é um ser sexual, activo, e que a sua sexualidade é extremamente importante, tanto a nível psicológico como físico. A condenação, implícita, desta natureza, algo que se encontra em muitos argumentos do Não, é que deve ser posta de parte de vez. Não é nem nunca será solução a abstinência sexual. Isso acabou. O ser humano já evoluiu, já não estamos na Idade Média onde o sexo era reprovado, reprimido, desrespeitado, etc.

 

Quinto ponto. A história do “só engravida quem quer”, apesar de concordar, os factos levam a que, pelo elevado número de abortos clandestinos estimados, infelizmente, essa expressão não seja, ainda, uma realidade tão absoluta como se pensa. Pelo meu lado, estou na disposição de a colocar em dúvida e de não a utilizar como um argumento. É verdade que existe tudo e mais alguma coisa, mas, pelos vistos, ainda existe algo que escapa. Não vou adiantar mais, penso que não vale a pena.

 

Sexto ponto. Quanto ao assumir de responsabilidades. Por já ser Pai, por nunca ter passado por semelhante situação, admiro quem tenha tido a coragem de tomar esta decisão. E admiro porquê? Pela simples razão de que acredito que quem já esteve confrontado com esta escolha deve ter pensado muito, mas mesmo muito. De modo nenhum acredito que tenha sido decidido por leviandade ou qualquer outra imbecilidade do género.

 

No entanto, caso tenha sido (há pessoas para tudo) com a tal irresponsabilidade, etc, que muitos referem, é porque de facto não tinham as mínimas condições mentais, isto na minha opinião (volto a frisar), para tomar conta de uma criança. Se calhar foi melhor assim, colocar mais um neste mundo para não dar amor, carinho e tudo o que for possível a um pai, é melhor estar sossegado.

 

Sobre este assunto sou se calhar demasiado exigente, não acho que todas as pessoas tenham faculdades ou capacidades para serem pais. Alguns nunca, mas mesmo nunca, deviam ter sido pais. Uma criança é mais do que mero objecto, ou coisa que o valha. Por exemplo, parvoeiras do género “onde como 7, também comem 8”, ou “tudo se cria, mal ou bem” ou “alguém há-de tomar conta”, etc, para mim não colam. Já não falando na violência doméstica e de menores que dava, no mínimo, para outro texto.

 

Sétimo ponto. As Razões! Se não conhecemos as razões, causas ou o porquê de tal decisão, o que é que nos leva a condenar? Razões, existem muitas, “mais ou menos” válidas, de acordo com os valores ou critérios de cada um. No entanto, cada um deve ter a capacidade e o discernimento próprio na tomada de decisão, sem estar sob a ameaça de uma pena ou julgamento.

 

Como eu disse, podem haver milhares de razões, desde as do tipo “não quero ter filhos, ou não me apetece” até às mais complexas: “ doenças diagnosticadas tardiamente, quer em filhos quer na mãe (HIV, Aneurismas, Embolias cerebrais, etc)”, “Violações (seja de pais, padrastos, ou outros asquerosos – para mim um violador não sequer SER, é uma manifestação humana de esterco)”, entre muitos outros exemplos diabólicos que existem cujo leque é demasiado vasto para o reproduzir todo.

 

Em última análise, esta vai ser difícil de engolir a muitos adeptos do Não, um aborto até pode ser considerado Um Acto de Amor.

 

Egoísmo, Cobardia, Heroísmo, Amor! A linha que as separa pode ser descomunalmente enorme, ou infinitamente pequena. Quem sabe? Quem julga? Quem condena?

 

Reitero, Razões e Não Razões existem muitas! Mas, agora são clandestinas, se o Sim ganhar deixaram de o ser. Isso pode fazer muita diferença. Demasiada diferença até, no limite, acredito que até podem ser evitados muitos abortos. Com acompanhamento! Não sendo uma decisão fugitiva, isolada, reprimida, escondida, com vergonha. Assim não vamos a lado nenhum. O escondido, o fechado, o fugitivo, nunca trouxe evolução e nunca será solução para nada.

 

Oitavo. A gravidez adolescente, uma das grandes causas do aborto! Pois, também aqui acho que não se deve prender jovens por este tipo de erros. Por um lado são demasiado inexperientes para serem pais, o que por si só é péssimo para qualquer criança, como põe, muito provavelmente, em causa o futuro de todos. Pais e filhos. Posso achar errado, mas Prisão Não!

 

Nono. A pobreza, dificuldades económicas, falta de condições de vida, etc! Para mim, são razões suficientes para não prender ninguém que tenha tomado esta decisão. É difícil dar uma vida adequada a uma criança, aliás em muitos casos é extremamente difícil dar condições de vida seja a quem for. Não vale a pena vir com a história de que a sociedade se encarrega de cuidar da criança. Casas Pias e outras do género são um mal necessário e não uma solução. Nada substitui verdadeiros pais.

 

Condenar crianças a passar fome, a viver em reformatórios, a viver sem condições de dignidade humana, a mendigar, etc, não é HUMANO. Pior, é ultrajar a vida humana. Defender estas situações em nome da “vida”, só mesmo quem não sabe o que é. Deixo uma estrofe de uma música do Gabriel o Pensador: “…Eu só queria morar numa favela…”. Isto é triste. Não vou adiantar mais, porque este assunto merece ser alvo de um texto inteiramente dedicado a esta problemática.

 

Décimo. Existe demasiada preocupação com o aborto de origem extra conjugal. As amantes! Sexo / parceiro ocasional! Uma vez mais, este argumento é um mero desvio. Está-se a julgar a traição e o sexo com a amante, não o aborto em si. Não faz sentido.

 

Décimo Primeiro. Comparações infelizes com “terrorismo, droga”, ou demais maluqueiras. “Cada macaco no seu galho”. Não se deve confundir assuntos. Estes argumentos são demasiado ultrajantes para, sequer, merecerem mais comentários.

 

Décimo Segundo. Ouvi recentemente um argumento a favor do não que me deixou verdadeiramente horrorizado. “Imposições patronais no caso do Sim ganhar”! É chocante! E revolta! Então agora, temos de votar Não porque pode existir um asqueroso de um patrão (expressão empregue) que, sendo legal o aborto, o vai exigir, irresponsavelmente e em nome do lucro, a uma funcionária que engravida?

 

Isto é demais! Este “patrão” (fica entra aspas, porque entendo que o patronato é constituído por indivíduos responsáveis, pelo menos na sua maioria, e não, enfim, não tenho palavras para descrever com um mínimo de educação este tipo de pessoas) é que deve ir preso. Deitem fora a chave da cela! Se calhar agora até já existem casos destes, mas como a mulher aborta na clandestinidade, quem vai saber?

 

Não será este um exemplo prático em como a não existência de uma penalização e o devido acompanhamento em estabelecimentos adequados, com técnicos capazes de despistar situações destas, de as denunciar a quem de direito, talvez encontrar soluções alternativas e, quem sabe, assim evitar um aborto imposto? Pensem um pouco, reitero o que disse, é melhor que estas situações sejam de facto acompanhadas por quem talvez possa fazer a diferença.

 

Além disso, este argumento é quase uma ameaça. Chega de ameaças!

 

Décimo terceiro. Decisão versus Futuro. Algo que incomoda muito. Qualquer decisão é feita, tomada e decidida dentro de um determinado contexto, situação, com maior ou menor grau de complexidade, mas, em todas elas, sem conhecer o futuro. Ou antes, com determinadas expectativas futuras. De facto tudo é incerto, nada é garantido, tudo pode mudar. Não sabemos. O que sabemos e conhecemos é o presente. É sobre ele que decidimos.

 

Bem ou mal, decidimos. Mas temos de decidir livremente! Se nos impõem um modo de pensar, suportado por uma pena, já não é uma decisão. É uma imposição. Não concordo com imposições de terceiros sobre terceiros em assuntos do foro íntimo de terceiros.

 

Os dois textos que fiz anteriormente, reflectem uma forma de levar as pessoas que julgam e condenam “à flor da pele” a sentirem um pouco do mesmo tratamento. Sentiram-se revoltados, ultrajados, vandalizados nas vossas convicções? Imaginem aqueles que têm de ir a tribunal por esses julgamentos!

 

A proposta de lei em causa não é perfeita! Talvez, e a actual é? Vamos manter tudo na mesma? A actual Lei já provou que não resolve nada. Apenas serve para … Bom nem sei bem para que serve, talvez apenas para isto: Sob a capa da ilegalidade dormimos mais descansados. Será?

 

Para mim, O SIM não é o Fim, é apenas o INÍCIO! Com o Sim vamos ter de certeza muito, mas mesmo muito, mais trabalho. Espero, sinceramente, que a seguir haja coragem para dar seguimento a políticas, talvez “despesistas” financeiramente (desde já digo que o dinheiro gasto nestas áreas, para mim, não é despesa. É INVESTIMENTO!), mas muito necessárias tanto na área da Acção Social como da Saúde.

 

Para mim, O SIM é dar apoio, ajuda, compreensão, dignidade e, acima de tudo, é valorizar a Vida e a Dignidade Humana.

 

Este texto é a minha resposta aos defensores do Não que têm participado, com os seus comentários, neste blog. Em nome dos 3 SSS, agradeço com sinceridade essa participação. A pluralidade de opinião é louvável e é absolutamente desejável.

 

Ufa! Isto está a ficar grande. Muito ainda ficou por dizer. Mas as verdades, dogmas, convicções, certezas, etc, devem ser, também, postas em causa, nem que seja para que possamos analisar outros cenários, alternativas e realidades.

 

RdS

(ostres.s33@sapo.pt)

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