Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2006

“O Assessor”

Na sequência do artigo sobre “O Jurista”, outra personagem sinistra que grassa e multiplica-se (a uma velocidade estonteante, digno da família dos roedores ou das baratas que habitam os nossos esgotos) na nossa terra estranha é “O Assessor”.

Esta figura tem vindo nos últimos anos a desenvolver-se exponencialmente, principalmente, a partir de meados dos, iluminados, anos 80. Terá sido um efeito da adesão à, então, C.E.E.?

Olhemos para o país!

Começando no Estado, não há governo que se preze que não tenha nas suas fileiras um exército destes seres. Eles estão por todo o lado. Os nossos ministros entopem os gabinetes com eles, chegam a ser tantos que o ministro acaba por ficar fora da sala (não cabe).

Mas, não é só no topo da hierarquia que os encontramos, eles espalham-se ao longo de todo o organigrama e não há chefe de divisão ou departamento que não tenha pelo menos UM. O normal é, até, ter vários, de preferência, um para cada papel que tem em cima da secretária.

Adiante, continuando ainda no Estado e olhando para os milhares de Institutos, Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, Empresas Estatais, vemos que o denominador comum é sempre a existência de “Assessores”, em todos os níveis de decisão.

Mas será só no Estado que eles existem? Não! Também estão espalhados por outras organizações privadas, com outros nomes, mas sempre junto a “decisores”.

Coisa estranha! Afinal o que é isto do “Assessor”? O que faz? Para que serve? Qual a utilidade? Qual o critério de selecção?

Vamos analisar um pouco mais e tentar responder a estas absurdas questões (se calhar sou eu que ainda não vi as mais-valias destas extraordinárias criaturas):

Pelo que podemos observar, estes seres tem o seu habitat junto aos decisores, muitas vezes (se não a maioria das vezes) eles representam-nos junto dos funcionários ou de outras entidades (estas por sua vez também são representadas por “assessores”). São eles que definem a estratégia, a política, os procedimentos, em resumo: que dão as ordens, que assumem compromissos e que exigem resultados.

Vejamos, estamos a ser governados por “Assessores” e não por quem elegemos. Assistimos a líderes que não lideram e a “Assessores” que lideraram. Mas, para todos os efeitos, os responsáveis são os Ministros e demais Chefia.

Será isto o que denominamos de “Governo sombra”? Ou estamos perante dois governos / duas chefias?

Bom, aprofundemos um pouco o perfil desta espécie. O que salta de imediato à vista é que são extremamente altruístas. Ficam na sombra, trabalham em prol do decisor a seu cargo e nunca ficam com os “louros” que resultam da sua labuta. Entregam-nos de mão beijada ao seu “protegido”.

Mais, são alvo de inveja e de injúrias de pessoas “que não percebem nada disto” e que não conseguem atingir os elevados propósitos das suas magnânimes acções. Pessoas que denigrem a sua “transparente imagem” e atrevem-se a pôr em causa as suas doutas instruções.

Outra característica que também se pode apreender de imediato é que são de uma competência e de uma qualificação sem paralelo. Chegam aos mais variados organismos e assumem a seu cargo a coordenação e a gestão de tudo. Trazem consigo modelos e soluções que só eles detêm e que só eles podem implementar.

Isto, claro, que pode trazer alguns problemas, mas que têm sobretudo origem na resistência à mudança que caracteriza qualquer funcionário que não dispõe dos mesmos instrumentos e da sabedoria inerente a esta espécie (apesar de se encontrar lá há mais tempo que ele e conhecer o universo em questão de trás para a frente).

Portanto, podemos dizer, sem receio, que estes seres personificam a reengenharia necessária a qualquer organização que se preze e que sem eles não seria possível proceder às necessárias e urgentes reformas que haviam sido diagnosticadas (obviamente que estas resultam de um aprofundado estudo da organização em questão e do meio onde ela se insere - normalmente efectuado num almoço de negócios bem regado e com elementos distintos da classe feminina que oferece os seus valiosos atributos de livre e espontânea vontade).

Continuando, constatamos, ainda, que, sem qualquer proveito próprio (a não ser as remunerações principescas que usufruem), esta espécie dedica-se de corpo e alma às funções e tarefas de outros, que de certeza estão lá só para ver os navios a passar ou, contextualizando com o que nos preocupa no presente, para ver os pássaros a poisar e tremer com uma possível pandemia da gripe das aves.

Além disso são exemplos vivos de coragem e de audácia extrema, conseguem definir e implementar estratégias, políticas ou procedimento com uma visão tão profunda que ultrapassa largamente qualquer âmbito ou legislação que a empresa ou departamento actue. É contra tudo e contra todos. Se necessário inventam novas Leis ou novos mercados, ou novo … qualquer coisa, desde que não tenha nada a ver com o que existe e principalmente com o objecto ou função da organização.

Mais, se algo não correr bem (o normal) obviamente foi porque toda a estrutura da organização estava contra ele(s) e não contribuíram nem participaram neste importante objectivo (que ninguém conhece, percebe ou entende).

Voltando ao início, agora que já conhecemos um pouco melhor esta(s) figura(s), com todas estas características muito peculiares e com a utilidade que já se viu, fica ainda uma pergunta - Para quê continuar a utilizá-los?

Se calhar é uma forma de diminuir o desemprego, mas não seria mais útil colocá-los na apanha da batata ou das cebolas? Pelo menos sempre estragavam menos. E daí talvez não, é que a batatas e as cebolas tem de ser manuseadas por pessoas com qualificações adequadas senão corremos o risco de não comer ou de ter dúvidas no que comemos, enquanto que a gestão pode e deve ser feita por energúmenos. Como se costuma dizer – gestão é bom senso, nada mais!

Aqui está provavelmente a razão da utilização desta espécie, utiliza-se onde podem ser menos prejudiciais ao país, ou seja, junto das chefias. Estes sim, verdadeiros exemplos de coragem e altruísmo, trazem junto a si “Os Assessores” para impedirem o descalabro nacional. (Devo dizer que com muito pouco sucesso, mas vamos acreditar que vêm aí dias melhores)

Realmente esta terra é de facto muito estranha, ou sou eu que devia ser de outra terra, elegemos para nos governarem, mas governa que não é eleito. Atribuímos cargos para liderar, mas lidera quem não está no cargo. Temos técnicos para tudo, mas o nada é que é o técnico.

Por fim, penso que esta espécie merecia um estudo antropológico mais aprofundado, é um desafio que deixo aos antropologistas, sociólogos e psicólogos da nossa praça.

RdS
publicado por GERAL às 15:18
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