Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2006

A merdiocridade

Hoje pouco tenho a acrescentar excepto colocar este contributo de JLM (não só se tornou leitor do nosso blog como os seus contributos são muito úteis). Julgo que será necessário uma reunião entre os S’s de modo a atribuir uma designação de S honorífico, digno da Ordem do Infante (é de aproveitar agora que o palhaço do PR anda a distribui-las - às ordens, claro - como água, antes da chegada do outro palhaço, esse só quer bolo-rei).

QUOTE
Ora viva.
Há quem diga que os gostos não se discutem...não se discutem? Nós passamos a vida a discutir os nosso próprios gostos e os gostos dos outros. Faz parte da natureza humana. Quantas não são as vezes que (principalmente) as mulheres falam do modo como outra está vestida? Ou que a expressão "piada de mau gosto" é referida? Ou que certo tipo de construções (para não falar de muitas outras coisas) são de "mau gosto"?
Os gostos discutem-se e devem ser discutidos. É pela discussão dos mesmos que se pode tentar atingir, senão um consenso, pelo menos uma ideia do que é que é bom (ou de bom gosto), o que é mediano, ou o que é mau ou medíocre.
Serve o acima como preâmbulo para o que venho aqui verborrear.
Portugal é um país cheio de maus gostos. Recuso-me por enquanto a dizer que é um país de mau gosto. Talvez o bom gosto seja uma excepção à regra, mas ao menos (felizmente) existe. Agora, o mau gosto, a mediocridade (que vou passar em diante a chamar de merdiocridade por motivos óbvios) impera em muitos aspectos da nossa alma lusitana.
Comecemos com uma coisa que desde logo, é cartão de visita para qualquer país - a arquitectura, a paisagem, o ordenamento territorial. As pessoas viajadas (como humildemente penso que sou) estão habituadas, quando viajam para países mais civilizados (vou restringir a comparação a estes uma vez que nada nos interessa estarmos a comparar-nos a países do 3º mundo - valha-nos ao menos isso), vêem cidades equilibradas, bons ordenamentos territoriais, respeito pela harmonia dos espaços, edifícios antigos devidamente restaurados, etc, etc.
Chegamos a Portugal e o que vemos? Litoral completamente destruído com construções em cima da areia, desordenamento territorial por todo o país. Vamos ao Minho e vemos arquitectura importada por nossos emigrantes de casas tipícas da Suíça (neva muito no Minho), as cidades estão cheias de mamarrachos, as vias públicas dentro das cidades estão agora afectas à moda das rotundas (parece que houve aquela ideia de que a grandiosidade de um país é directamente proporcional ao numero de rotundas que as cidades têm). O país sofre com tanta poluição visual. Os resultados são catrastóficos. A qualidade de vida deteriora-se. E o que mais custa é que tinhamos (já não temos) tanto potencial para que as coisas fossem feitas de forma ordeira, equilibrada, justa. O lobbying da construção impôs-se de sobremaneira a todos esses princípios.
Mas o acima é apenas um exemplo, talvez o mais perceptível, à primeira vista, a todos nós. Mas o que dizer da merdiocridade que nos entra todos os dias em doses cavalares pelos meios de comunicação? Ou que é visível no dia-a-dia em praticamente todos os aspectos da nossa vivência?
Ele é reality shows todos os dias, musica pimba a rodos, indíces de leitura elevadíssimos para as revistas e jornais de chacha que por aí abundam em detrimento da leitura de jornais e de livros de interesse. Parte da população, que eu arrisco-me infelizmente de pensar que é a maioria, tem como heróis o José Castelo Branco, o Frota, o gajo (que nem sei o nome nem quero saber) do "Fiel ou Infiel", a Ágata, o "cocó, facada e ranheta" (nome escatalógicamente original) entre tantos outros. E o que é certo é que o povinho gosta. Eleva a seus heróis o Zé Maria e a Lili Caneças. Devora as revistas ditas sociais onde supostamente famosas (?) figuras nacionais proferem frases do mais irrelevante possível. Delira com os "poemas" cantados do Quim Barreiros. É certo que há muitos que pensam como eu. É também certo que as liberdades individuais estão constitucionalmente proclamadas e defendidas. Mas penso ser também consensual quando digo que os gostos se discutem. Eu por mim, se tivesse algum cargo político, se fosse ministro da cultura, se fosse um ditador, construiria uma grande casa (tinha que ser mesmo muito grande) e punha lá todos os personagens merdíocres, mais o publico a eles afecto (o mercado também a este respeito manda, e neste caso é enorme) e obrigava-os a ver em ecrã gigante o canal Mezzo, o canal Arte e canais noticiosos (não podiam ser a Sic ou a TVI) de preferência estrangeiros que era para os obrigar a entender linguas estrangeiras até para melhorar o seu já pobre português. Quanto a leitura, só existiriam livros do Flaubert, do Paul Auster e quando muito do Júlio Verne. Música só clássica. Estas medidas não serviriam obviamente para nada, mas ao menos tentava-se alguma coisa para minimizar a extrema poluição cultural que o país, ou parte dele, vive.
Por outro lado, costuma-se dizer que o exemplo vem de cima. Não é que eu considere a classe política aquela que vem de cima (quando muito deviam estar por baixo a serem sodomizados pelo Frota), mas é uma classe com responsabilidades. A merdiocridade vem ao de cima todos os dias. Nem falar português sabem alguns. Há uns tempos tinhamos um ministro que dizia "Há-dem" (nem sei se é assim que se escreve), depois tivemos recentemente um parlamentar que dizia póssamos com um acentuado acento (passe o pleonasmo) no "ó". Já para não falar daquela outra famosa personagem política (ao mesmo tempo "socialite") que dizia que a sua obra clássica preferida eram os concertos para violino de Chopin. Enfim, entre tantos outros exemplos.
Dizer que a merdiocridade pode ser combatida pelo maior acesso à educação, por uma maior formação, é uma falácia. Eu frequentei o ensino superior (nem me orgulho muito disso), e era ver o pessoal universitário a não saber quem tinha sido o Afonso Henriques, a dizer que o Maomé foi um dos apóstolos de Cristo ou a dizer, com convicção que a língua do Brasil é o brasileiro. Já para não falar nos testes escritos onde em vez de "ir-se-á" escrevia-se "irá-se", onde em vez de "interveio" lia-se "interviu", ou ainda "estou desde à dias" em vez de "estou desde há dias" . A educação não vem (só) da escola. Vem de berço e grande parte dos berços portugueses é feita de palha (daquela onde os cavalos cagam - desculpem a merdiocridade do termo).
A merdiocridade não é exclusiva de Portugal. Há um pouco disso em todo o mundo. É impossível querermos que hajam (bons) gostos consensuais. Mas ao menos devíamos cingir-nos à merdiocridade nacional que já de si é bastante má. Agora, para além disso, importá-la?? Quer seja em programas televisivos, musicas, "socialites"??
Não querem por aí criar uma brigada terrorista? Nome já poderíamos ter - BTAM - Brigada Terrorista Anti Mediocridade. Acções a empreender - raptar a Cinha Jardim, amarrá-la e pendurá-la na ponte 25 de Abril com um cartaz a dizer "a bem de certa população portuguesa vou emigrar para Vanuatu", fazer o mesmo à Lili Caneças com outro cartaz a dizer "o contrário de estar pendurada é não estar", pôr uma bomba nos estúdios da TVI, dinamitar os mamarrachos existentes um pouco em todo o lado, coser a boca (com fio de aço) a determinadas - muitas personagens, dar um dildo de 86 centímetros ao José Castelo Branco para que ele ficasse entretido para o resto da vida - entre muitas outras acções de protesto.
Bom, é melhor parar por aqui, senão ainda me entusiasmo muito e começo a lembrar-me de muitas outras coisas que poderiam estar acima descritas. A merdiocridade não passará, são os meus votos para o resto da minha vida.
Adeus e até mais logo.
UNQUOTE
Palavras para quê? É um S, no verdadeiro sentido da palavra. Como podem reparar, aguardamos mais contributos, não só do caríssimo JLM como de outros leitores.

Um abraço
MS
Ostres.s33@sapo.pt
publicado por GERAL às 16:39
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1 comentário:
De RdS a 3 de Fevereiro de 2006 às 10:14
Estamos a perder a civilização, vamos voltar ao tempo dos bárbaros, pelo menos no que diz respeito à cultura.

Realmente já tinha reparado que o Campo Pequeno está muito desaproveitado, não está na altura de o voltar a utilizar?

Juntamos estes nossos expoentes máximos de audiências + a nossa classe política e o grosso da classe empresarial deste país (com os respectivos fãs e seguidores) e preparamos um espectáculo de sangue e purificação. As entradas são de borla e aos artitistas expropriasse os bens.

RdS

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