Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2007

Aborto... esse mistério incontornável

Caríssimos leitores,
 
Muito boa tarde/dia/noite a todos.
 
Até agora não tenho escrito nada sobre o aborto, tenho-me limitado apenas a ver um “chorrilho” de alarvidades e posições peregrinas sobre o assunto.
 
Sem querer ferir muitas susceptíbilidades e sem querer – pelo menos nesta fase inicial do texto – insultar, vamos analisar a questão do aborto da forma como EU entendo que deve ser discutida (o EU está com letra grande propositadamente uma vez que reflecte a MINHA posição).
 
Antes de mais, o problema do aborto é uma questão económica e de saúde que, pela sua natureza, é transversal a todas as esferas da sociedade. Em primeiro lugar, não creio que nenhuma mulher, no seu estado de juízo perfeito, vá fazer um aborto entre um café e a compra de uma blusa em saldos. A escolha de uma I.V.G. (como é fino agora dizer), para uma mulher, é algo delicado e, esquecendo casos clínicos de demência, e podem resurmir-se ao seguinte:
     1. Casos de risco de saúde para a mãe e/ou feto;
     2. Dificuldades financeiras sérias que colocam em risco a sobrevivência da unidade familiar;
     3. Gravidez inesperada e fruto de um “namorico” ou “saída com amigas”;
     4. “Ainda não ser o momento adequado...”;
     5. Violação
 
O que leva realmente uma mulher a tomar uma decisão que é, sempre, dificil?
 
Situação 1: É inegável o direito de protecção da saúde da mãe e, também, evitar o nascimento de fetos que por variadas razões são vítimas de deficiências incapacitantes. Neste caso, criminoso é o médico que se recusa a efectuar esta intervenção que, assumindo uma posição de Deus Supremo, se recusa a efectuar o tratamento – sim, quer gostem quer não, é um tratamento. Ainda neste domingo, no jornal da TVI foi noticiado o caso de uma mulher paraplégica e a sofrer de vários outros problemas de saúde (inclusivé útero desviado que lhe impedia de levar uma gravidez até ao final) que engravidou por incompatibilidade entre pílula e outros medicamentos e que os médicos se recusaram a realizar o aborto no hospital (mesmo com a recomendação de vários especialistas que referiam o risco para a mãe e para o feto) tendo a senhora de ir a Espanha... Mas que raio de médicos temos? Objectores de consciência? Ou homens e mulheres que prestaram o juramento de Hipócrates? Entendo que perante situações de risco de saúde é um DEVER dos médicos e não algo para discussões morais.
 
Situação 2: Esta é talvez o móbil por detrás da maioria dos casos de aborto. A realidade pode ser dura mas a maioria das famílias que toma este caminho fá-lo porque não pode garantir a sobrevivência de um modo digno, dos seus filhos. Podemos tentar minimizar, podemos dizer que não mas a realidade é que a sociedade impôs regras de aceitação que passam por indices de consumo que não podem ser cumpridas por todos. A pobreza é uma realidade, não é uma estatística. O mundo moderno diz-nos que para sermos aceites no “Clube dos In” temos que ter a tv plasma, o carro, a casa, a roupa com a marca X, ir de férias para o sítio Y, jantar aqui, passar o fim-de-semana acolá, vestir os filhos com a roupa tal, dar-lhes os presentes coisa-e-quê, etc. No fundo a sociedade diz-nos que a forma de alcançar a felicidade é pelo consumo e show-off. Ora na Terra Estranha nem todos têm essa possibilidade, muitos nem têm comida até ao fim do mês, outros passam fome, são familias em que a única refeição que comem é na escola nos programas sociais de apoio e depois querem que essas mães, para quem as dificuldades financeiras são feridas abertas todos os dias não considerem fazer um aborto quando engravidam? Se já é mais do que difícil sustentar a familia, como será com mais um ou dois, ou três filhos?
 
Situação 3: Bem, neste caso as mulheres que me desculpem mas no século XXI já não acredito em descuidos ou coisas desse género. Aí a responsabilidade está nos dois intervenientes do acto uma vez que ele é um imbecil por, em encontros fortuitos, não se proteger devidamente... é que hoje pode ser uma gravidez mas amanhã pode ser um HIV. Quanto a ela é uma idiota chapada se não pensa da mesma maneira e não se protege. Adultos saudáveis gostam de sexo... é normal, é um acto de prazer, mas gaita! Não pensam um pouco? Nestes casos só mesmo à chapada uma vez que é uma roleta-russa... ou melhor, uma foda-russa!
 
Situação 4: Custa-me engolir esta, mesmo considerando o caso de mães adolescentes. Não é que seja contra o aborto, sou, sobretudo contra a estupidez e se não é o momento certo tomem as devidas precauções. A sensação que dá é que a malta fode primeiro e pensa depois! E isso irrita-me. Temos informação por todo o lado e pode-se resumir ao seguinte: os meninos têm um pilinha, que colocam no pipi das meninas, agitam-se, todos suspiram e depois saiem umas coisas que parecem girinos muito pequeninos e são uns sacaninhas a nadar direitos a umas bolas também pequeninas que estão escondidas nas meninas e depois as bolas crescem e olha! Saiem bebés... Porra! Anda tudo estúpido?
 
Situação 5: Neste caso acho que nem vale a pena falar muito e os cretinóides que estão contra o aborto deviam ser violados até engravidarem... eles e elas!
 
As razões porque sou favorável à despenalização do aborto são três, que passo a explicar:
  1. Livre-arbítrio → acredito no preceito fundamental da liberdade e que esta começa pela nossa própria consciência. A nossa racionalidade levou-nos pelo caminho da escolha, a cada segundo que passa tomamos decisões que alteram o nosso futuro imediato ou a longo prazo e somos nós que vivemos com o peso da nossa consciência. Desde que eu não prejudique terceiros, tenho o DIREITO fundamental de escolher o que quero – e por favor não me venham com as merdas que um zigoto com 10 dias ou um feto com 10 semanas tem consciência e é uma vida autónoma porque não é! Ainda não vi nenhum na fila do pão ou nos bancos da universidade... embora alguns abortos circulem pelos circulos do poder mas isso é outra conversa que não é para aqui chamada – e como tal acho que os outros podem escolher sobre eles.
  2. Inteligência → dizer que as mulheres que optam por esta via é crime é, em si mesmo, crime. Isso é uma maneira moderna de tentar chamar estupidas às mulheres que por acaso – mas só por acaso hã! Vejam lá! – são tão inteligentes como os homens. Não acredito que elas sejam “burras”, coitaditas!, e que tenham ido a uma espelunca às escondidas fazer um aborto. Sabem de uma coisa? As mulheres não têm pickles na barriga nem assim os consideram... elas sabem que são crianças, filhos que podem nascer mas que, naquele momento e sob aquelas condições, não o podem fazer. Acho que forças estas coisas (ou impedi-las) às mulheres é uma idiotice igual à imposição das burkhas, na escala de richter dos idiotas... grau 10,5!
  3. Governo → Todos nós temos Governo, votamos nuns tipos que supostamente ajudam-nos a viver porque o cidadão é imbecil, na perspectiva deles. Ora eu não sou imbecil, nem os outros são e eu não admito que o Governo me diga se posso ou não morrer ou se uma mulher pode ou não fazer um aborto. Se eu me suicidar, a escolha é MINHA e se uma mulher decidir seguir o caminho do aborto, a escolha é dela. Provavelmente ela até pediu ajuda ao Governo para ter uma vida melhor, para que os filhos tenham uma educação condigna, saúde gratuita, direito ao emprego, etc mas teve como resposta escolas a fechar e propinas mais caras, saúde a ser cobrada com novas taxas moderadoras e médicos que se estão nas tintas e com o aumento do desemprego. esta tem sido a resposta do Governo aos apelos dos desesperados, dos que passam fome, dos que sofrem e dos que querem apenas viver.
 
Tenho ouvido alguns dos debates acerca deste tema e por vezes fico chocado com o que ouço. No entanto creio que podemos facilmente identificar os defensores do NÃO e do SIM:
 
NÃO: Classe média-alta, alta ou muito alta, sem problemas financeiros, maioritariamente bem colocada no circulo do poder na Terra Estranha com tendências medíocres para uma moralidade hipócrita e uma falsa religiosidade. Não nos faltam exemplos na tv, na rádio e nos jornais. Usa, por norma, argumentos cretinos e egoístas e mistura ciência com moralidade faltando apenas o argumento “estive a falar com Deus a semana passada, na loja Channel, e ele disse-me que... blá, blá, blá!”.
 
SIM: Classe baixa, classe média e algumas franjas da média alta. A padecer maioritariamente de problemas financeiros ou pelo menos consciente da sua existência, assume uma posição moderada, deixando à mulher o ónus da decisão não se querendo intrometer sobre a consciência dela. Por normaé ateu, agnóstico ou moderado. Também consegue cativar algumas figuras publicas e poder, sobretudo de esquerda, que acham que agora é que vai ser bom, um regabofe geral em que se engravidarem alguém deixam de ter problemas de consciência.
 
No meio disto tudo, aparecem homens a debater acesamente um assunto que, sinceramente, não lhes diz respeito. É ver o Marcelo Rebelo de Sousa, Paulo Portas, Marques Mendes, Sócrates, Gentil Martins, Bagão Félix entre tantos outros aos berros a todos os que lhes prestam atenção (ou não) sobre este assunto. Tudo bem que alguns homens gostariam de engravidar mas a natureza não nos fez assim e por muito que apanhem no “nhóf” não engravidam... azar! Continuem a tentar!
 
A realidade é que este é um assunto de mulheres e nós podemos eventualmente ser solicitados a emitir uma opinião... nada mais. Além disso, considero que não era necessário um referendo para tratar disto. Se tivéssemos um verdadeiro Governo, limitava-se a modificar a Lei sobre a penalização e acabava-se isto. A realidade é que a problemática do aborto é essencialmente económica (para as mulheres que não podem sustentar a sua familia, para as clinicas abortivas, para a Indústria farmacêutica mais as suas pílulas do dia seguinte, para as parteiras clandestinas e médicos com ou sem escrúpulos, etc) e por muito lamentavel que isso possa parecer deixe-mo-nos de cinismos e hipócrisias.... é assim que o mundo é feito: és julgado pelo que tens, não pelo que és!
 
Uma última palavra acerca da Igreja. Eu entendo a posição da Igreja, na sua vertente mais global. A Europa está envelhecida, decadente, a cair de podre onde os jovens nem têm hipótese de sobrevivência. Cada vez há menos nascimentos, é necessário sangue novo se a Europa quer seguir em frente. Esta é a preocupação fundamental da Igreja... mas por amor do Senhor!! Arranjam cada besta e cada argumento para falar que mais valia estarem calados. Para além disso não basta existirem mais jovens se os velhos tubarões que estão sentados nos seus poleiros de lá não saírem... jovem ou não, se tiveres o azar de nascer numa familia fora do circulo do poder... estás fodido! E mais não digo, por agora...
 
Um abraço
 
MS
tags:
publicado por GERAL às 02:04
link do post | favorito
Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. Nas voltas e reviravoltas...

. A Austeridade...

. Portugal e a Crise

. Jogo FMI

. FMI e afins

. O outro lado da exuberânc...

. Os Sufrágios!

. As idio(ti)ssincracias da...

. O país de betão

. O salário minimo e Portug...

.arquivos

. Outubro 2013

. Setembro 2012

. Maio 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds