Segunda-feira, 5 de Junho de 2006

Parolices

Ora então muito bom dia,

Ontem, após um dia de ressaca à conta do Rock in Rio, a minha mulher disse-me que uma colega dela tinha comprado um telemóvel ultima geração pelo valor aproximado de 100 contos. A colega em questão é uma miudinha de 19 anos cujo ordenado mensal não anda muito longe do valor do telemóvel que pagou.

Isto para mim já deixou de me surpreender. Já aqui escrevi que o tuga pode estar endividado até às orelhas, mas artigos básicos (não, não é a alimentação nem a renda de casa) como os telemóveis ou os pópós é coisa que não lhes pode faltar.

Isto é das tais coisas, cada um faz a cama com a manta que tem, e a maioria da população tuga não tem manta. Quando muito, tem um lençol esfarrapado que mal lhes dá para cobrir as pernas, mas gosta de se mostrar aos outros como tendo uma daquelas camas tipo Luis XIV.

O mal de Portugal não está apenas na (pouca) qualidade dos nossos governantes. Está na populaça tuga que não sabe, nem nunca soube distinguir o que são prioridades. Não tenho nada contra quem compra um telemóvel no valor de 100 contos. Já me custa constatar que, depois, são esses que compram essas utilidades os primeiros a dizer que a vida está mal e que ganham pouco. São esses que, levando o pópó todos os dias para a "faculdade" vêm depois bradar aos céus que não querem pagar propinas. E a quem não lhes falta comprar diáriamente a Bola, o Record e a TV Guia. E que apostam todos os meses umas dezenas de euros no Totoloto, Euromilhões e afins (com umas idas ao novo casino de Lisboa pelo meio). A riqueza para o tuga tem que vir de algo que não o trabalho, que poucos rendimentos dá e que servem só para que se comprem mais telemóveis e pópós.

Isto é a chamada parolice nacional. O tuga é bacoco. Gosta de se mostrar e inventar causas e coisas. Quando abriu a ponte Vasco da Gama, fez-se um almoço para figurar no guiness (é daqueles livros onde Portugal está bem representado, quer seja por fazermos a maior açorda do mundo quer seja por termos um pacóvio qualquer que decidiu dar a volta ao mundo em carrinho de rolamentos), devido ao facto de termos construído a maior mesa de repasto em todo o mundo. Quando foi a independência de Timor, era ver o pessoal vestido de branquinho a dar as mãos e a construir cadeias humanas, repletas de sentimentos de dor e solidariedade (acho que a situação actual de Timor clama a uma acção parecida - lá podemos nós figurar no guiness como os maiores tansos). Agora com o mundial de futebol, é ver-nos a pôr bandeirinhas nas janelas e nos carros. Mais parolo é impossível, e vai de encontro à lista de prioridades que cada tuga tem para a sua vida.

Dinheiro? Nunca é problema. Comprem-se os telemóveis e os pópós que se quiserem, independentemente dos custos das chamadas ou do custo da gasolina serem comparativamente dos mais altos da Europa. As prioridades nacionais passam pelo futebol e pelos programas tipo "big brother" da televisão, para além das tentativas de figuramos no Guiness. Opções estratégicas, como gostamos de as chamar, não são nem nunca foram levadas em linha de conta por ninguém. Mais vale estarmos endividados até às orelhas do que faltar-nos o dinheirinho para as coisas boas da vida. As gerações vindouras que se lixem, e dado o jeitinho português para o desenrascanço, com toda a certeza que saberão angariar o guito para não lhes faltarem os telemóveis, os pópós~, ou as idas a restaurantes de 1ª classe.

Confesso que ando um pouco cansado desta maneira, não de estarmos, mas de sermos. Mas há alguém que tenha esperança neste povo? Só nos faz resta mesmo ganharmos o mundial de futebol...

JLM
publicado por GERAL às 11:01
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