Segunda-feira, 22 de Maio de 2006

A selecção natural

Bom dia,

Pode parecer insistente eu voltar ao mesmo assunto do meu ultimo artigo (Chocolari), ou seja, falar de futebolzinho outra vez, mas desta, é de uma forma um pouco diferente.

Já referi que gosto, adoro, futebol. Mas gosto só do jogo. Das defesas que os guarda-redes fazem, dos golos que se marcam, dos dribles, do público no estádio. Gosto de futebol, não gosto de discutir futebol. É por isso que eu abominei que um jogador como o Quaresma não fosse convocado. Porque o jogo seria sem dúvida mais bonito com ele do que sem ele. E aí, também eu vejo motivos para discutir futebol.

O que se passa hoje em dia, é vivermos um clima de quase-catárse em relação à selecção nacional (não selecção natural) e à sua preparação para o mundial de 2006. Todos os dias, em todos os meios de informação, TV, rádios, jornais, revistas, internets se fala da preparação da selecção. Ele é reportagens sobre os treinos, sobre as conferências dos jogadores, das mulheres dos jogadores, dos filhos dos jogadores, dos empresários dos jogadores. Do que eles comem, do que eles bebem, dos seus enlaces amorosos ou matrimoniais, etc. Todos os órgãos de comunicação dedicam espaço e tempo, mais do que abundante à selecção. O país vive um estado de pré-euforia (que eu posso estar muito enganado mas que será de grande desilusão daqui a umas semanas) e começa a colocar as respectivas bandeiras e cachecóis nas varandas e nos carros. Há inclusivamente acções de figuração no guiness (outra coisa em que somos especialistas) de pôr 18.000 mulheres a formar uma bandeira nacional. 18.000 grelos, numa acção subsidiada inclusivamente por um organismo estatal.

O país profundo, esse, continua com os mesmíssimos problemas estruturais que temos desde o tempo que me recordo. Desemprego, atraso em relação à maioria dos países da UE, falta de produtividade, fosso enorme entre ricos e pobres. Mas do que vale estarmos a debruçarmo-nos sobre esses problemas de pacotilha quando o que interessa é a selecção, ou o futebolzinho no seu geral.

O actual governo não precisa de fazer um bom trabalho para ser re-eleito aquando das próximas eleições legislativas. Basta tão pouco que Portugal seja campeão do mundo. Os jogadores e treinadores da selecção são os nossos verdadeiros ministros. O Pauleta é o ministro da obras públicas, o Nuno Gomes o dos negócios estrrangeiros, o Fernando Meira o ministro da Defesa, e se o Ricardo Rocha lá estivesse seria o da saúde (por tratar da saúde dos adversários). O Chocolari, esse, como não tem habilitações futebolísticas é uma espécie de presidente honorário, do tipo aqueles que existem na Alemanha ou na Itália (alguém os conhece??)

Portugal é dos poucos países (único??) que tem a espantosa tiragem de 3 jornais ditos-desportivos (eu diria futebolísticos) na base diária. O futebol discute-se desde as tascas da esquina até ao Gambrinus, desde o varredor da rua aos gestores de topo de qualquer multinacional que esteja cá radicada, desde a ilha do Corvo até Freixo-de-Espada-à-Cinta, e no fundo, isso é que importa.

Nós queremos ser conhecidos e reconhecidos na Europa e no mundo. Somos reconhecidos por aquilo que há de pior, ou seja, o nosso atraso em relação aos outros, a nossa diferença enorme entre classes, os nossos sinistros automóveis, o nosso nível de alcoolémia ao volante. Ou seja, há que sermos conhecidos e reconhecidos por algo de bom. E à falta de sermos conhecidos pelo país bonito que estragámos, pela óptima gastronomia que poucos estrangeiros conhecem, por alguns bons artistas que temos que nunca ninguém lá fora ouviu falar, pelos desportistas-sem-serem-futebolistas que pura e simplesmente não temos conhecidos quanto mais reconhecidos, à falta de tudo isso, o país está dependente do futebol. Não é a religião que é o ópio do povo, como dizia Marx. No caso do povo português, é o futebol.

JLM
publicado por GERAL às 12:22
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