Segunda-feira, 8 de Maio de 2006

Lucky Strike

Boas tardes,

Escrevo este artigo, ao mesmo tempo que vou saboreando um cigarro. Saborear um cigarro é algo que hoje em dia se torna cada vez mais penoso em virtude da verdadeira onda de anti-tabagismo que varre o mundo desde há já alguns anos. Fumar está "demodé". Faz mal à saúde, mas alimenta ordenados, estados, e pasme-se, a investigação médica face aos malefícios do tabaco.

Recordo-me de ter começado a fumar tinha eu uns 15 anos. Nessas alturas, um gajo não é mais que um puto inconsciente, que muitas vezes tenta-se "armar em bom" fazendo coisas como fumar. O primeiro cigarro normalmente é agonizante provocando muitas vezes o vómito. O 2º já nos entra um bocado melhor, e a partir daí é um passo para o vício.

Eu, confesso, sou um verdadeiro viciado em tabaco. Ele há dias que me fico por um maço, e outros há (dependendo do stress, da quantidade de cafés e alcool, ou de uma conversa mais animada) em que chego aos 2 maços por dia. Sou o primeiro a reconhecer que o tabaco me faz mal e que, provavelmente graças a ele, viverei menos do que poderia eventualmente viver caso não fumasse. É uma opção de vida tal como muitas outras. Faço-o por vício, mas também porque me sabe muito bem, por vezes, saborear um cigarro nem que seja para acompanhar um café.

Não havendo dúvidas sobre os malefícios do tabaco, apraz-me dizer que ando há muito preocupado com o fundamentalismo que varre o mundo em relação a este tema. Começou nos USA (where else?) e agora, pega-se à Europa, como se de peste negra se tratasse. Na Irlanda, na Escócia ou em Espanha, fumar um cigarro num restaurante ou num bar é proibido. Mais, é considerado um crime de lesa-ofensa corporal. A lei anti-tabágica (se calhar anti-direitos fundamentais) chegará mais dia menos dia a Portugal. Pergunto, onde chegamos nós, Senhor? A Europa sempre foi vista como tolerante, criadora do conceito dos direitos humanos, mas agora, para agradar ao "Tio Sam" segue as pisadas da suposta "land of freedom".

Há várias coisas que me chateiam em tudo isto. A primeira é a elevação, a "libertação", de todos aqueles que não são fumadores, e dizem que "têm que apanhar sempre com o fumo dos outros". Basta ver em qualquer artigo de jornal, quando o tema é referido e onde há possibilidades de o comentar, as reacções destes puristas não fumantes para percebermos que andaram escondidos durante muito tempo. Onde é que eles estavam há 20 anos atrás? Se calhar ouvíamos uma opinião aqui, outra acolá. Fumar sempre fez mal, e eu, tal como tantos outros, tinha medo de levar nas orelhas caso os meus pais descobrissem. Havia pessoas que nos alertavam sobre os malefícios do tabaco. Mas nada, de nada comparado a isto. Chegamos a uma situação onde o fumador é visto como o propagador de tudo o que há de mal no mundo. O não fumador liberta-se e exalta-se. A propaganda anti-tabágica faz-me lembrar a propaganda dos nazis face aos judeus ou a propaganda dos hutus face aos tutsis no genocídio do Ruanda, com as devidas ressalvas, mas quase que dá para entender "morte aos fumadores" em vez de "morte ao tabaco".

Outra coisa que me irrita profundamente é a eterna questão dos "2 pesos, 2 medidas". Fumar faz mal. Nada a contradizer. Mas se fôssemos fazer uma lista de tudo o que faz mal à saùde, então teríamos muito para dizer de muitas coisas. Exemplos:

* Não sei o que mata mais. Se o tabaco ou o alcool. O alcool sei que mata muito, e não falo só de cirroses. Falo no número elevadíssimo de acidentes de automóvel que acontecem por os condutores estarem embriagados. Falo nas (centenas? milhares?) de crianças pelo país fora que ainda hoje tem como pequeno-almoço as "sopas de cavalo-cansado" com graves repercussões na futura saúde das mesmas. Alguem ouve assim tanta propaganda anti-alcool? É ver anuncios a qualquer tipo de bebida seja onde fôr, com letrinhas muito miudinhas a dizer "beba com moderação". O alcool faz mal não só a quem o bebe, assim como o tabaco faz mal não só a quem o fuma. Que o digam as pessoas que já tiveram acidentes de carro, perderam familiares na estrada ou ainda aquelas, que por causa de outrem embriagado, levaram com garrafas partidas na mona. Não são tão poucos os casos assim. Resumindo - O ALCOOL MATA;

* O stress também mata. Para além de matar, mói muito. O Stress hoje em dia é um dos principais causadores de doenças no mundo. Alguém já ouviu falar de verdadeiras medidas anti-stress? Não falo dos cuidados que temos de ter, baseados em inumeros artigos de opinião que dizem isto e aquilo para nos proteger desse flagelo. Falo de medidas que, por acaso, vão contra as necessidades da "maior produtividade" do "trabalhar mais e melhor", das horas perdidas no trânsito todos os dias. Alguém se preocupa com isso? Alguém entra numa de fundamentalizar o stress? Ninguem se atreve. Vai contra as normas da produtividade e do nível de vida. Quem ganha com isso? Talvez os psiquiatras. A saúde que se foda. Resumindo - O STRESS MATA;

* E o que dizer dos vários tipos de poluição que nos entra pelos corpos adentro? Da poluição auditiva, visual, olfactiva que todos os dias nos consomem? Dos fumos de tubo de escape que danificam tanto os pulmões como qualquer cigarrilha? Do barulho de motores, aviões, martelos pneumáticos, anuncios a detergentes, vozes como a da Micaela? Ou da visualização e audição de 524.341 anuncios publicitários por dia, na televisão, nos outdoors e de termos de gramar com programas como o "circo das celebridades".´Tudo isto, quer se concorde quer não é Poluição e a POLUIÇÃO MATA;

* Com estas histórias das globalizações e produtividades e afins, verifica-se que para que a "riqueza" seja maior, muitas firmas, de todos os sectores, procedem a despedimentos em massa. Mesmo aquelas que tiveram lucros astronómicos como são os casos do BCP ou da EDP. Ou seja, menos pessoas com possibilidades de terem um sustento para elas e suas famílias. E nalguns casos, como é o caso dos despedidos da EDP, a terem que pagar mensalmente a factura da electricidade à...EDP (nem sequer uma vingançazita podia haver aqui). A SITUAÇÃO ECONÓMICA MATA;

* Há dias abriu em Lisboa o casino de Lisboa. Um dos administradores veio a público dizer (pasme-se) que queria que "o jogo pudesse ser democratizado". Imaginem um administrador de uma empresa de tabaco dizer isto. No mínimo era crucificação dessa pessoa na rua. Mas não, o jogo, que pode ser tão viciante e perigoso como o tabaco ou o alcool tem outro "glamour". Mas o que é certo é que O JOGO MATA.

Chegam os exemplos acima para se chegar à conclusão que há outras coisas para além do tabaco que MATAM? E que fazem mal às pessoas que não estão própriamente directamente afectadas por tais vícios ou vicissitudes?

É que tudo isto tem a ver com COERÊNCIA, HIPOCRISIA e TOLERÂNCIA. Eu não aceito de bom grado que me imponham restrições com base no fazer mal à saúde dos outros, porque ele há muitas outras coisas, como as que acima referi, que fazem tão ou pior do que o tabaco. Quando estou a fumar perto de pessoas que não fumam, tenho o hábito de perguntar se se importam que eu fume. Se não se importarem, eu fumo mesmo. Se se importarem, peço licença, e qual renegado, vou para um sítio onde possa cacilhar sem incomodar os outros. Mas pelo menos quero continuar a ter essa possibilidade. De, não se importando as pessoas que comigo estão de eu fumar, poder fazê-lo. Contribuir para a (má) saúde dessas pessoas pode ser um facto, não muito distante de todos os outros vícios e agruras que já acima apontei. O ostracismo a que estão votados os fumadores é das piores coisas que já tive oportunidade de passar. Imaginam o que é num aeroporto, estarmos nós fumadores, confinados a uma sala de 3 m2, (lógicamente cheia de fumo), quais verdadeiros pássaros na gaiola. Lá fora, enquanto isso, as descolagens dos aviões brotam fumo para fora que inspirado, se calhar até dava para um gajo ficar com umas alucinações (ora aí está uma sugestão para todos aqueles que estão viciados em heroína, porem-se atrás de um avião no momento da descolagem).

Há uma anedota, que hoje em dia se ouve, que reflecte na perfeição o verdadeiro fundamentalismo que hoje em dia há em relação aos que fumam. É a daquele homem que chega a casa e vê a mulher na cama com outro homem. Espantado, diz o "encornado" - Porra mulher, qualquer dia apanho-te a fumar.

Ora bem...e é isto o que se passa...Vai um cigarrinho?

JLM

publicado por GERAL às 15:53
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1 comentário:
De RdS a 9 de Maio de 2006 às 17:56
Estou solidário.

Faltou apenas enumerar, como maleficio e que também matam, os cretinos dos nossos governantes.

Um abraço,
RdS

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